Tradução: Emma
Capítulo 68
Thalia roía a pele ao lado da unha do polegar. Gotas de suor se formavam em sua testa, escorrendo devagar pelas têmporas. Varkas segurou os ombros dela e virou o corpo dela para si. Ela sentiu os dedos longos e firmes dele segurarem uma de suas bochechas.
Thalia não conseguiu encarar os olhos dele, mantendo o olhar fixo na ponta do queixo dele. Então, o rosto de Varkas desceu. Os lábios dele — surpreendentemente quentes e macios — roçaram o canto da boca dela por um breve momento antes de se afastarem. Foi um beijo tão leve quanto uma brisa. Uma mera formalidade, a quantidade mínima de contato necessária. Aquele toque momentâneo, que mal merecia o nome de beijo, pareceu fatiar delicadamente seu coração em pedaços.
— Declaro que a cerimônia está concluída.
Seguindo a declaração final do sacerdote, uma rodada de aplausos formais ecoou pelo salão. Thalia olhou para ele com olhos trêmulos. O rosto inexpressivo dele, cujas profundezas eram impossíveis de ler, a encarava de cima. O que diabos ele estava procurando?
Depois de investigá-la com um olhar persistente, Varkas finalmente se virou para os convidados. Só então Thalia soltou o ar que estava segurando. Com o braço envolvendo a cintura dela, ele a guiou através da multidão de convidados do casamento. Rostos fantasmagóricos se desfocavam ao passar por eles enquanto caminhavam com passos lentos e deliberados. Gareth, com os olhos brilhando em uma luz gélida; o Imperador, parecendo perturbado; e Senevia, ostentando um sorriso satisfeito… Inúmeras sombras fluíam como um rio e, logo, o céu escuro e riscado pela chuva surgiu diante deles.
— Traga o meu casaco.
Parando na entrada da catedral, Varkas falou com um cavaleiro que estava de prontidão. O cavaleiro imediatamente entregou o sobretudo dobrado em seu braço. Varkas o colocou sobre os ombros dela, depois se inclinou um pouco e a ergueu sem esforço com um braço. Thalia apressadamente envolveu os braços ao redor do pescoço dele para não cair para trás. Seu nariz roçou o cabelo macio dele, que carregava um perfume suave e agradável de sabonete.
Apoiando as costas dela com uma das mãos, ele começou a caminhar devagar sob a chuva. Thalia observou as gotas de chuva prateadas e suaves lavarem o rosto dele, tornando-o pálido, antes de desviar o olhar para o jardim onde sombras nefastas haviam se instalado.
— ……Para onde vamos?
— Organizei uma residência temporária fora do Palácio Imperial — respondeu ele, com o passo firme. — Ficaremos lá até partirmos para o leste.
Thalia parecia confusa. Um casamento deveria terminar assim? Senevia certamente havia preparado uma grandiosa recepção de casamento. O palácio inteiro não esteve em um alvoroço por dias, decorando o salão de banquetes e preparando a comida? Haveria convidados que vieram especificamente para vê-lo. Estava mesmo tudo bem deixar tudo para trás e ir embora dessa forma?
— Já fizemos o suficiente. Não há razão para continuar aqui servindo de espetáculo.
A frieza na voz dele puxou a consciência dela de volta para a realidade. Ele estava certo. Este casamento não passava de munição para rumores vulgares. Uma princesa bastarda e aleijada e uma noiva trocada; um noivo lastimável que havia passado de objeto de inveja a objeto de pena da noite para o dia… Ela não precisava ouvir para saber o que as pessoas estariam dizendo sobre eles.
Não havia razão para Varkas suportar tal humilhação. Não importava se ele era o Imperador, não poderia forçar esse nível de humilhação sobre o homem que governaria o leste.
Ele caminhou pelo caminho enlameado e parou diante de uma carruagem ostentando o brasão da família Siarkan. Um servo sentado na boleia se apressou para abrir a porta. Varkas entrou e a acomodou em um assento coberto com almofadas espessas.
Thalia encarou Varkas com olhos arregalados, ele ficará encharcado naquele curto intervalo de tempo. Sentando-se de frente para ela, Varkas afrouxou o colarinho formal apertado e soltou um suspiro longo e cansado. Gotas de água de seu cabelo escorriam por sua testa reta e se acumulavam nos cantos de seus olhos. O olhar dele, que parecia seco apesar da umidade, foi direto ao encontro do dela.
— Como está a sua perna?
Os lábios de Thalia se contorceram. Incomodava-a que ele estivesse prestando mais atenção à perna dela do que o necessário. A voz de Gareth, zombando dela por tomar o assento ao lado de Varkas com apenas uma perna boa, ecoou em seus ouvidos. Ela mordeu a carne macia do interior de sua bochecha. Eu sei. Eu sei, então por que você continua me lembrando?
— Ainda está presa ao meu corpo, então cuide da sua vida.
Quando ela esbravejou com irritação, os olhos dele se estreitaram ligeiramente. Thalia virou a cabeça em direção à janela para evitar o olhar afiado dele. No entanto, os dedos molhados dele imediatamente viraram a cabeça dela de volta.
— Eu perguntei se você está sentindo dor.
Após um breve momento tencionando os ombros diante da voz rígida dele, Thalia tirou a mão dele bruscamente.
— Se eu disser que estou bem, isso fará você se sentir melhor?
— ……
— Mas o que posso fazer? Não se passou um único dia desde então em que não esteja sentindo dor.
Ela encarou intensamente o rosto dele, que parecia uma máscara, suas palavras picando como o veneno de uma vespa.
— Então não gaste a minha paciência com perguntas inúteis. É irritante.
Os lábios quentes e macios que a haviam tocado mais cedo estavam agora pressionados em uma linha fria e dura. Apesar de ter sido ela a calá-lo com palavras cruéis, era ela quem se sentia sufocada pelo silêncio dele. Thalia mordeu os lábios secos tomada pela agitação. Ainda assim, a frieza era melhor do que a pena. A gentileza morna que vinha sendo despejada sobre ela desde que sua perna ficou assim era mais horrorosa do que qualquer outra coisa. Para esconder sua ansiedade, Thalia esbravejou com ainda mais irritação.
— O que você está fazendo? Por que não estamos nos movendo? Vamos passar a noite inteira aqui?
Varkas a encarou por um momento antes de se virar e dar batidinhas leves na parede da carruagem. Um momento depois, o som das rédeas estalando foi ouvido, e a carruagem começou a se mover devagar. Thalia olhou para o jardim encharcado pela chuva através do vidro embaçado da janela. A paisagem desconhecida, que nunca pareceu um lar, deslizou rapidamente além do véu nebuloso.
Enquanto encarava o vazio, ela foi de repente erguida no ar, e o assento aveludado encontrou suas costas. Thalia olhou para cima, assustada. Depois de deitá-la no assento largo da carruagem, Varkas alcançou a parte de trás do encosto, puxou um manto bordado com o brasão dos cavaleiros de Roem e o colocou sobre o corpo dela.
— É uma viagem longa. Durma um pouco enquanto isso.
Thalia estendeu a mão para tirá-lo. Mas Varkas foi mais rápido. Segurou a mão dela e a prendeu contra o assento. Então, olhando no fundo dos olhos dela — que ainda estavam turvos pelos efeitos residuais do remédio —, A ameaçou no tom áspero que costumava usar ocasionalmente durante a adolescência deles.
— Não seja teimosa e durma. Não me deixe inquieto com esses olhos desfocados.
Thalia estremeceu com o tom ameaçador dele, mas logo puxou o manto até a ponte do nariz. Varkas a observou por um momento antes de soltar um suspiro cansado e se sentar de volta no assento oposto. Por alguma razão, ela sentiu vontade de chorar. Thalia escondeu o rosto no tecido que carregava o cheiro dele e fechou os olhos.
Ela devia ter adormecido em algum momento. Percebendo que a vibração e o sacolejo da carruagem haviam parado, Thalia segurou a testa latejante com uma das mãos e esfregou os olhos pesados. Quando finalmente conseguiu forçar os olhos a se abrirem, a visão do interior vazio da carruagem preencheu seu campo de visão. Thalia piscou atordoada antes de se levantar num sobressalto de choque. Seus olhos se moviam com medo procurando por Varkas, quando uma voz áspera e rouca a atingiu vinda do lado de fora.
— O que o senhor planeja fazer a respeito da primeira princesa?
Os ombros de Thalia enrijeceram enquanto ela pressionava o corpo contra a janela. Através do vidro riscado pela água, viu o céu noturno, onde a chuva finalmente havia parado. Sob aquele céu avermelhado erguia-se uma edificação de pedra maciça e rústica e cerca de uma dúzia de homens. Não foi difícil encontrar Varkas entre eles. O homem, parado de costas para o pôr do sol, falou de forma seca.
— Com que intenção você está perguntando isso?
— O senhor realmente pretende abandoná-la assim……?
— Você está dizendo coisas estranhas.
Uma risada afiada e debochada cortou o ar úmido e abafado.
— O meu noivado com ela não foi feito, em primeiro lugar, para manter a Imperatriz sob controle?
— ……
— O casamento não é a única maneira de proteger duas pessoas.
— Isso quer dizer……
A confusão coloriu a voz do homem. No entanto, Varkas não parecia inclinado a explicar em detalhes. Ele interrompeu o cavaleiro como se ele fosse um estorvo.
— Eu estou em posição de ser interrogado por você?
— Pe—Peço desculpas. Excedi meus limites.
O homem apressadamente curvou a cabeça. Varkas olhou para ele com olhos frios antes de falar sem tom algum na voz.
— Nada vai mudar. Você continua a monitorar os passos da Imperatriz como vem fazendo. E, se o príncipe herdeiro fizer qualquer tolice, reporte-me imediatamente.
— Entendido.
Como se isso fosse tudo o que tinha a dizer, Varkas se virou. Thalia apressadamente deitou a cabeça de volta no assento. Mas antes que pudesse fingir estar dormindo sob o manto, a porta da carruagem se abriu e Varkas apareceu. Thalia olhou para ele com os olhos paralisados.
