Tradução: Emma
Capítulo 67
Ele atravessou a lateral do prédio, praticamente carregando-a nos braços. Thalia entreabriu os lábios, que ardiam de tanto que ela os vinha mordendo. Você realmente pretende se casar comigo assim? De verdade? Ela pensou em perguntar, mas sua boca se fechou novamente. Ele estava certo. Talvez eles já tivessem ido longe demais para voltar atrás.
Ela abaixou o olhar e observou os convidados que lotavam a capela. Inúmeros rostos se desfocavam em sua visão embaçada pelas lágrimas. Os confidentes da Imperatriz, altos funcionários e nobres de várias famílias prestigiadas… Figuras influentes que ela reconhecia os observavam em um silêncio pesado.
Ela sentiu que entendia agora por que Varkas não a havia simplesmente abandonado e saído do salão. Por mais grandioso que fosse o herdeiro de um Grão-Duque, ele não poderia arruinar um casamento sediado pelo Imperador diante de tantos nobres.
— A cerimônia começará em breve. A noiva e o noivo poderiam, por favor, se dirigir à área de espera?
Assim que chegaram ao transepto, um sacerdote que esperava falou com eles cautelosamente. Varkas imediatamente seguiu o sacerdote em direção à área de assentos ao lado do altar. Thalia o seguiu com passos vacilantes, seus olhos se movendo incessantemente. Além de sua visão embaçada, que parecia envolta em névoa, ela vislumbrava rostos que pareciam assistir a uma peça emocionante. Aqueles rostos frios e pálidos pareciam todos zombar dela em uníssono.
— Suas pernas estão doendo?
Notando que o corpo dela havia enrijecido, Varkas estendeu a mão e segurou o queixo dela com uma das mãos enquanto perguntava. Thalia o encarou com uma expressão atordoada. Varkas esfregou levemente os olhos úmidos dela com o polegar. O toque dele era tão suave que a fez se perguntar se tudo aquilo não passava de uma alucinação provocada pelo remédio para dormir.
Ele olhou fixamente nos olhos dela e sussurrou em voz baixa.— Apenas aguente mais um pouco. Vou garantir que você possa descansar assim que a cerimônia terminar.
O tom, que soava como se ele estivesse acalmando uma criança, fez a garganta dela apertar. Este homem só está fazendo isso porque tem medo que eu faça um escândalo na frente de todas essas pessoas.
Ele só está me acalmando para que eu não dê um chilique.
Ela repetiu isso para si mesma, tentando desesperadamente acalmar seu coração disparado, quando uma voz que jamais esperava ouvir naquele lugar ecoou em seus ouvidos.
— Mal consigo olhar. Olhando para vocês dois, alguém sequer pensaria que este é um casamento por amor.
Com os ombros estremecendo e enrijecendo, Thalia virou a cabeça devagar. Gareth, vestido com um dublete vermelho, caminhava entre os bancos acompanhado por meia dúzia de guardas imperiais. Em um instante, o sangue no corpo dela parecia congelar.
— Por que essa cara feia para o irmão que veio parabenizá-la?
Gareth parou na frente dela, seus lábios se torcendo em um deboche. Thalia olhou para ele com olhos cheios de terror. Será que era catártico para ele ver sua meia-irmã — que sempre fora uma pedra no sapato — tão pálida a ponto de nem conseguir falar? Um sorriso estranho passou pelo rosto rude de Gareth. Ele se inclinou na direção dela e sussurrou de forma gélida.
— Você trocou uma perna pelo título de Grã-Duquesa. Deveria estar sorrindo abertamente.
Thalia o encarou com o rosto endurecido. Normalmente, ela teria deixado marcas de unhas naquele rosto dissimulado e presunçoso. Mas, naquele momento, não conseguia nem abrir os lábios. Sua mente, já confusa, parecia ter parado de funcionar completamente com a aparição inesperada dele. Ela só conseguia tremer, as pálpebras piscando como as de alguém enfrentando um pesadelo, quando sua cabeça foi repentinamente puxada.
— Vossa Alteza, o príncipe herdeiro.
Varkas, que havia puxado a cabeça dela para esconder o rosto contra seu peito, falou como se estivesse fazendo uma advertência.
— Se veio como convidado, por favor, demonstre a cortesia apropriada. Realmente causaria uma comoção no dia do casamento de um velho amigo?
Um silêncio pesado caiu sobre eles. Thalia engoliu em seco, a testa pressionada contra o traje formal dele. Ela não conseguia entender por que Varkas estava tentando protegê-la de Gareth. Originalmente, deveria ter sido o contrário. Não era o papel dele proteger Gareth e Ayla da filha ilegítima e perversa?
— Não há necessidade de estar tão na defensiva. Enquanto mantiver sua promessa, eu manterei a minha.
A voz fria de Gareth parecia vim de trás dela. Ela queria virar a cabeça para checar a expressão dele, mas não conseguia se mover por causa da mão que pressionava a sua cabeça. Varkas apertou o abraço na cintura dela e resmungou friamente.
— Se pretende assistir à cerimônia, por favor, tome seu assento.
O som de dentes se rangendo chegou aos ouvidos dela antes que a presença de Gareth finalmente se afastasse. Só então Varkas relaxou o aperto. Thalia torceu a cabeça para observar as costas de Gareth enquanto ele caminhava em direção aos assentos de honra. Ao se sentar, um homem idoso sentado logo ao lado dele falou com ele. Não foi difícil reconhecê-lo como o Marquês Oristein. Será que os dois haviam discutido algo de antemão?
Thalia estreitou os olhos, e então os arregalou ao perceber de repente que muitos dos convidados que lotavam os assentos eram nobres conservadores que apoiavam o Príncipe Herdeiro. O que diabos estava acontecendo?
Ela estava olhando ao redor da capela com uma expressão perplexa quando uma mão firme puxou sua cabeça de volta.
— Você não precisa se preocupar com nada.
Olhos gélidos se fixaram em seu olhar.
— Estes são rostos que você nunca mais terá que ver depois de hoje. Não perca sua atenção com eles.
Ele falou com firmeza, como se gravasse as palavras na mente dela, e caminhou em direção ao altar sem um momento de hesitação. Thalia mordeu o lábio rachado enquanto era guiada por ele. Varkas não parecia particularmente surpreso com a situação atual. Vendo a reação calma dele, seus pensamentos confusos começaram a se ajeitar aos poucos.
Talvez Gareth quisesse mostrar a todos que seu relacionamento com a família Siarkan não havia sido prejudicada por conta deste casamento. E Varkas deve ter concordado com isso. Desde o início, este casamento não passava de uma peça teatral encenada pelas exigências do Imperador, pelo senso de responsabilidade de Varkas e pelo próprio desejo de vingança dela. Ele ainda estava ao lado de Ayla e Gareth.
— Sua Majestade Imperial, o Imperador, e Sua Majestade Imperial, a Imperatriz, estão chegando!
Um momento depois, uma voz estrondosa ecoou do alto das escadas que levavam aos assentos elevados. Thalia desviou o olhar de Varkas e olhou para cima. O Imperador e a Imperatriz caminharam graciosamente em direção aos tronos localizados no segundo andar. Eles pareciam os verdadeiros protagonistas deste palco.
Thalia observou o Imperador, que irradiava uma dignidade solene, por um momento antes de voltar os olhos para Senevia, parada ao lado dele. Como sempre, ela estava radiante, emitindo um brilho que era quase cegante. Traços requintados em perfeita harmonia com cabelos de um dourado profundo que pareciam ouro puro derretido, e um corpo voluptuoso que desenhava curvas perfeitas… A beleza que ela um dia acreditou que poderia obter perfurava suas retinas como agulhas.
— Daremos início à cerimônia agora.
Assim que o Imperador e a Imperatriz se sentaram em seus respectivos tronos, o Alto Sacerdote subiu ao altar e anunciou em voz solene. Thalia foi conduzida por Varkas para se colocar diante do sacerdote. Atrás do rosto solene e enrugado, ela podia ver o céu negro pesado de chuva. Com as nuvens escuras às suas costas, o sacerdote começou a recitar as escrituras escritas em uma língua antiga.
Tudo aquilo parecia uma piada ridícula. Senevia com seu sorriso vago, o Imperador que parecia um tanto desconfortável, o sacerdote monologando com palavras formais de bênção, e os convidados assistindo ao seu falso ritual com deboche no rosto.
— Varkas Laedgo Siarkan, você jura tomar Thalia Roem Gurta como sua esposa e permanecer com ela pelo resto da sua vida?
Tendo terminado de ler as longas escrituras, o sacerdote finalmente fez a pergunta final. Thalia umedeceu os lábios secos, seu olhar fixo no chão. Após alguns segundos de silêncio, ele falou.
— Aceito.
Foi uma resposta tão seca que pareceu quase insincera. O sacerdote se virou para ela com a mesma pergunta.
— Thalia Roem Gurta, você jura tomar Varkas Laedgo Siarkan como seu marido e permanecer com ele pelo resto da sua vida?
Thalia olhou para o rosto do sacerdote com olhos vítreos. Ela queria responder de forma tão despretensiosa quanto Varkas, mas apenas o som de sua respiração arfante escapou, como se alguém a estivesse estrangulando. Como o silêncio dela se prolongava, a mão ao redor de sua cintura se apertou. Thalia virou a cabeça para olhar para ele. Seus olhos azuis silenciosamente a incentivavam por uma resposta. Como se não tivesse intenção de arrastar aquele momento, seu olhar firme a pressionou a finalmente arrancar uma única palavra.
— …Aceito.
— Pelo poder a mim concedido por Deus e por Sua Majestade Imperial, o Imperador, eu os declaro marido e mulher.
O sacerdote, tendo feito a proclamação em um tom monocórdico, acrescentou uma última frase para marcar o fim do ritual.
— Agora, celebrem essa união com um beijo.
