Tradução: Emma
Capítulo 66
— Você voltou a queimar aquelas velas de incenso?— Varkas falou como se estivesse a repreendendo.
Encarando fixamente as suas pupilas dilatadas. Em um instante, as bochechas de Thalia esquentaram. Ela só havia usado o remédio porque estava sentindo dor. Ela não tinha feito nada de errado, mas não conseguia entender por que se sentia como uma criança levando bronca. Quando ela abaixou o olhar para evitar o dele, ela sentiu um suspiro em sua testa.
— ……Talvez seja o melhor a ser feito.— Varkas resmungou com amargura.
Ele se ajoelhou no chão e envolveu um braço ao redor das costas dela. Thalia olhou para cima com olhos assustados para a linha definida do maxilar bem na sua frente.
Ele deslizou o outro braço para baixo das pernas dela e se levantou devagar. Thalia segurou a saia por instinto. Um calafrio subiu por sua espinha com o pensamento de que seu vestido pudesse subir.
— E—Eu posso andar sozinha.
— Apenas continue intoxicada pelo remédio.
Varkas falou de forma seca enquanto saía da carruagem.
— Será mais fácil para você aguentar o dia de hoje dessa forma.
Detectando o cinismo em sua voz, Thalia estremeceu. Para ele, parecia que hoje era um dia que simplesmente precisava ser suportado. Enquanto ela baixava a cabeça desanimada, uma voz desconhecida falou de perto.
— Comandante, Sua Majestade, o imperador, aparentar estar um pouco atrasado.
Thalia encolheu-se e se escondeu ainda mais nos braços dele. Varkas abriu o sobretudo para cobri-la e deu uma instrução direta ao homem que se aproximara. — Vá até o Alto Sacerdote e informe-o sobre isso .
Então, ele deu passos largos em direção ao arco esculpido em mármore. Thalia segurou a camisa dele inconscientemente. Além da borda do casaco fino impregnado com o cheiro de hortelã-pimenta, ela podia ver um céu pesado de nuvens. Uma luz cinzenta e sombria, como se acenasse para seu futuro sombrio, lançava um brilho misterioso nos rostos dos santos esculpidos nas paredes de pedra e pilares.
À medida que aqueles rostos se aproximavam, o medo acumulado em seu estômago subiu pela garganta. Num impulso, ela falou. — O tempo está muito nublado hoje.
Olhos azuis salpicados de fragmentos prateados caíram sobre a testa dela. Evitando o olhar dele, ela gaguejou. — Ninguém se casa num dia como este.
Então, não deveríamos o realizar hoje, afinal. Ela estava prestes a dizer isso quando os lábios dele se abriram. — Então, seremos os primeiros.
Com a voz suave dele, Thalia engoliu as palavras que subiram à sua garganta. Ele era um homem completamente exausto pelos caprichos dela. Aquelas eram apenas palavras ditas para acalmá-la. Ela tentou se controlar com esse pensamento, mas seu coração, desprovido de qualquer orgulho, disparou incontrolavelmente. Ela abaixou a cabeça para esconder o rosto ardente.
Logo, a grande porta da catedral os engoliu por inteiro. O ar frio e pesado pressionou seu corpo, usando um vestido fino. Thalia encolheu os ombros e espiou por entre as dobras do casaco de Varkas. Ela viu centenas de pessoas lotando a nave. A visão de mais convidados do que esperava fez sua boca secar.
Não havia como eles terem se reunido para celebrar este casamento. Eles provavelmente foram todos forçados a comparecer por medo de Senevia. Ou talvez tivessem vindo para ver o que tinha acontecido com a princesa bastarda.
Ela olhou para baixo para se certificar de que suas pernas estavam bem escondidas sob o tecido. Mesmo depois de ver várias vezes que o pano volumoso a cobria até os dedos dos pés, sua ansiedade não se dissipou facilmente. Com as mãos úmidas de suor frio, segurou a bainha da saia e a puxou para baixo, varrendo os bancos para ver se alguém estava encarando suas pernas. Em vez disso, ela viu centenas de pares de olhos bem abertos.
Perguntando-se se parecia tão horrorosa assim, sentiu a espinha rígida, mas um casaco de cor escura bloqueou sua visão.
— Teremos que esperar até que a Sua Majestade, o imperador, chegue.— A voz dele era estranhamente suave. Ele se virou para o transepto relativamente silencioso, passando pelo cruzamento, e acrescentou. — Tente dormir um pouco até lá.
Thalia olhou para o queixo dele com os olhos vagos. Ele estava dizendo muitas coisas estranhas hoje. Onde raios haveria uma noiva que dormia no próprio casamento?
Prestes a dizer isso, uma voz um pouco familiar veio de trás deles.— Lorde Siarkan.
Thalia lançou o olhar por cima do ombro dele. O cavaleiro que seguia Varkas como uma sombra corria na direção deles. — O Marquês Oristein está procurando pelo senhor. Ele disse que deseja falar brevemente com o senhor antes da cerimônia.
O Marquês Oristein era o avô materno de Gareth e Ayla. Por que tal homem viria ao local do casamento? Olhando para cima confusa, ela viu o rosto dele endurecer ligeiramente. Após um momento de silêncio, como se contemplasse algo, Varkas a colocou em um assento do coro. Retirou o casaco, cobriu os ombros dela e falou.
— Espere aqui por um momento. Volto logo.
Thalia estendeu a mão para agarrá-lo, mas rapidamente a puxou de volta. Ele só a tinha aceitado por causa da ordem do Imperador. Ela tinha que se acostumar a ser empurrada para o segundo plano.
— Vigie-a bem.
Varkas lançou a instrução ao cavaleiro e saiu do transepto com um passo elegante. Thalia mordeu o lábio com ansiedade enquanto observava suas costas se afastarem. O Marquês Oristein sem dúvida viera para impedir este casamento. Que palavras ele usaria para persuadir Varkas?
Enquanto se sentava ali sem reação com esses pensamentos, sentiu um olhar ardente em sua bochecha. Assustada, Thalia virou a cabeça rapidamente e encontrou um par de olhos castanhos escuros encarando-a. O cavaleiro, que espiava para ela com um olhar peculiar, estremeceu e virou a cabeça. Suor frio brotou em suas costas.
Por que ele a olhava daquela forma? Havia algo de errado com sua aparência além de suas pernas? Ela olhou para o próprio corpo, envolvido pelo vestido delicado. Suspeitou que o contorno de suas pernas tortas pudesse estar visível através do tecido.
— A senhora gostaria de algo para beber enquanto espera?
O cavaleiro limpou a garganta e perguntou com uma voz sem jeito. Thalia escondeu sua ansiedade e falou com uma arrogância forçada.
— Eu… Não preciso de nada.
No entanto, sua língua, solta pelo remédio, não se moveu como pretendia. Ela umedeceu os lábios secos e girou os olhos para examinar os arredores. Além do cavaleiro montando guarda sobre ela, sacerdotes e servos, aparentemente esperando pela cerimônia, estavam alinhados ao longo das paredes do transepto. Eles, assim como os reunidos no cruzamento, estavam todos olhando para ela.
Aqueles olhares pegajosos irritavam seus nervos. Ela mordeu o lábio. Queria gritar, perguntando para o que estavam encarando. A voz de Senevia, dizendo que coisas horrorosas são zombadas e pisoteadas sem motivo, ecoou em seus ouvidos.
Ela queria sair correndo do salão de casamento naquele instante. Mas se fizesse isso, apenas cairia vergonhosamente na frente de todos. A zombaria desabaria sobre ela como uma tempestade. Bastarda. Aleijada. A pior das noivas.
— A Vossa Alteza, parece pálida. Devo chamar um sacerdote?— O cavaleiro se aproximou dela com o rosto preocupado. Thalia balançou a cabeça.
— Esqueça.
— Até mesmo um feitiço simples de recuperação poderia ajudar……
— Há algo de errado com sua audição? Eu disse para esquecer.
Quando ela respondeu com irritação, o homem incômodo se calou. Mas ele não retirou aquele olhar estranho. Lentamente, a presença desse homem começou a parecer insuportavelmente irritante. Cada olhar preso a ela era horroroso.
Ela encarou o lugar de onde Varkas havia saído com olhos ansiosos. Quando diabos ele vai voltar? O que eles poderiam estar conversando para demorar tanto?
De repente, a voz de Ayla, dizendo que ela se arrependeria disso, ecoou em sua mente. Talvez aquela mulher tivesse incitado o avô a pregar alguma peça. Sim, deve ser isso. Um casamento entre Varkas e ela — era um absurdo para começo de conversa. Será que tudo isso era uma peça desenhada para fazer dela uma tola desde o início?
Varkas já poderia ter deixado a catedral. E ela se tornaria não apenas uma bastarda e uma aleijada, mas uma noiva miserável abandonada no altar.
— Eu vou voltar.
Disse essas palavras de forma repentina que o cavaleiro lançou-lhe um olhar perplexo. Thalia pegou o casaco que Varkas colocara sobre ela, jogou-o no chão e se levantou vacilante. Para escapar dos olhos odiosos que a observavam, ela deu um passo em direção a uma pequena porta lateral no final do transepto.
O cavaleiro, observando-a com uma expressão em pânico, apressadamente bloqueou seu caminho. — Onde a senhora vai? A cerimônia está prestes a começar……
— Saia do caminho!
Ela estendeu a mão para empurrar o homem. Mas não havia como um cavaleiro de armadura ser movido por sua força insignificante. Ela lançou um olhar cheio de hostilidade para o homem.
— Não me ouviu? Eu disse para sair!
Quando ela estendeu a mão novamente para empurrá-lo, a força deixou suas pernas e seu corpo se inclinou para um lado. Thalia segurou o braço dele por instinto. Ela sentiu o corpo do cavaleiro enrijecer. Era igualmente horroroso para ela. O toque de um homem era repulsivo. Um corpo grande contra o qual ela não podia fazer nada fazia sua pele arrepiar. O único em quem era aceitável tocar era Varkas. Mas aquele homem a tinha deixado no altar.
De repente, lágrimas brotaram.
— Me solte!
Enquanto ela sacudia violentamente a mão que se estendeu para apoiar seu ombro, seu corpo foi de repente erguido no ar. Thalia olhou para trás com olhos assustados. Viu o olhar frio de Varkas. Ele encarou o rosto dela como se estivesse prestes a desmoronar, depois virou o olhar para o subordinado.
O cavaleiro curvou a cabeça, o rosto ficando vermelho como uma beterraba. Depois de encará-lo em silêncio por um longo tempo, Varkas se virou enquanto segurava a cintura dela.
— Todos os convidados chegaram. A cerimônia começará agora.
Sua voz fria ressoou claramente acima da cabeça dela.
— É tarde demais para voltar atrás.
