O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 65

Capítulo 65

Tradução: Amme

Capítulo 65

— O Palácio Imperial é assim. Monstros capazes de qualquer coisa diante do poder estão por toda parte. Se é aqui que escolheu levar sua vida adiante, é melhor endurecer o coração e aceitar essa realidade. — Theoric disse, dando-lhe um tapinha no ombro.

Edric, que estivera paralisado de choque, ergueu a cabeça devagar e fitou o rosto do superior.

— O Sir Siarkan também sabe disso?

— Claro. Foi ele mesmo quem ordenou e acompanhou esta investigação.

— Então por qu-?

Edric se calou, incapaz de compreender.

O outro homem observou seu rosto em silêncio, depois deu de ombros e disse:

— Bem… Não há como saber o que aquele homem está pensando.

— …

— Mas independente disso, deve haver alguma razão pela qual ele não tem escolha senão aceitar o casamento com a Segunda Princesa.

Edric franziu as sobrancelhas.

Afinal, qual seria esse motivo?

Enquanto asusmia uma expressão séria, remoendo sobre o homem cujos pensamentos eram impossíveis de decifrar, um golpe pesado atingiu suas costas.

Edric se virou com uma expressão assustada.

Sir Hart, que lhe dera uma palmada na costa com sua mão espessa, falou em tom leve, como se tentando mudar o clima:

— De qualquer modo, não há mais razão para se preocupar com qualquer coisa relacionada à Segunda Princesa. — Depois, acrescentou em tom ligeiramente sério, — Em breve, ela deixará o Palácio Imperial. Quando isso acontecer, você não terá mais motivo para encontrá-la. Então sacuda essa sensação desagradável e foque no seu próprio futuro.

As últimas palavras soaram quase como uma repreensão.

Theoric sacudiu a cabeça.

— Você conquistou o ódio do Príncipe Herdeiro de forma bastante contundente durante a peregrinação. Não está em posição de se preocupar com mais ninguém.

A expressão de Edric escureceu.

Ter apontado justamente aquilo com que pesava a consciência de Edric, fez com que seus ombro envergassem.

Ao ver sua aparência abatida, Theoric soltou uma risada incrédula.

— Ora, vamos. Como você sempre age de forma tão impulsiva, pensei que não tivesse ambições de ascensão, mas parece que não é bem assim.

— Bem, naquele momento… achei que precisava cumprir meu dever como guarda pessoa de Sua Alteza, a Segunda Princesa. Era minha responsabilidade.

Diante da resposta rígida, expressões complexas perpassaram o rosto de Sir Hart.

Ele fitou o subordinado com atenção, depois soltou um longo suspiro.

— Direi mais uma vez: esse papel acabou. É hora de você retomar seu lugar.

Edric ergueu o olhar para o rosto firme do superior, depois virou a cabeça e contemplou as muralhas do castelo que se erguiam entre as árvores densas.

Entre as folhagens de um verde profundo, podia-se ver o telhado do palácio anexo onde a Segunda Princesa vivia.

Era alguém que ele servira por meros dois meses.

Se não a tivesse visto se machucar tão gravemente com os próprios olhos, provavelmente seria alguém com quem jamais se importaria.

Sir Hart estava certo.

Seu papel como cavaleiro pessoal dela havia terminado.

O ambiente cruel que cercava aquela mulher era lamentável, mas não havia nada que ele pudesse fazer quanto a isso.

Talvez fosse até para melhor.

Como Sir Hart dissera, o Palácio Imperial era um lugar repleto de monstros cegos por poder.

E além disso, ela não era alguém profundamente odiada?

Caso se casasse com o Sir Siarkan e partisse para o leste, ao menos conseguiria escapar do ambiente hostil que a cercava.

Soltando um suspiro pesado para sacudir a culpa vaga que sentia, Edric logo assentiu com a cabeça.

— Entendo o que quer dizer.

Como se satisfeito com a resposta, um sorriso largo surgiu no rosto do Sir Hart.

Jogou um braço sobre o ombro do subordinado e disse:

— Ótimo. Então vamos logo cuidar do nosso trabalho.

Quase arrastado pelo outro, Edric lançou mais um olhar por sobre o ombro, para o telhado do palácio anexo. Logo, porém, virou-se para frente e seguiu seu caminho a passos largos.



Thalia estava deitada na cama observando as partículas de poeira que flutuavam no ar.

Estas pareciam cintilar, derivando devagar pela corrente oscilante e pousavam suavemente sobre seu corpo.

Ela estendia a mão, as mandava de volta ao ar e as via cair lentamente.

Não sabia por que fazia uma coisa tão estranha.

Sentia-se como uma alga marinha.

Como plantas aquáticas balançando com a correnteza, movimentos sem sentido se sucediam.

Talvez não fossem suas pernas, mas sua cabeça que havia se machucado.

Enquanto divagava com um olhar vazio, ouviu o som da porta se abrindo e fechando.

Thalia virou o rosto na direção da intrusão.

A ama, que irrompera carregando nos braços uma pilha de tecidos, lançou-lhe um olhar feroz.

— Como ainda pode estar deitada aí desse jeito?!

A voz estridente arranhou desagradavelmente seus tímpanos.

Thalia puxou o cobertor até cobrir a cabeça. A ama o arrancou rapidamente e continuou a despejar palavras em tom cortante:

— Levante-se e lave-se agora mesmo! Fez uma birra dizendo que morreria antes de confiar seu corpo a qualquer um, expulsou todas as criadas, e agora o que está fazendo?!

Thalia a fitou com os olhos semicerrados.

Não conseguia entender o que dizia. Até onde lembrava, havia dormido o tempo todo — será que alguém viera enquanto estava inconsciente?

Com os olhos desfocados, olhou ao redor do quarto. Tigelas e objetos quebrados estavam espalhados por todo lado. Pelo visto, havia feito mesmo um estardalhaço.

— Disse para se levantar!

A ama ergueu seu corpo mole à força.

Thalia limitou-se a encarar o rosto avermelhado da ama com olhos embriagados de sonolência.

Talvez frustrada com aquela visão, a ama bateu no próprio peito com o punho.

— Quantas ervas você queimou enquanto eu estava fora? Já não consegue nem andar direito, como pretende entrar no salão da cerimônia assim?!

— Salão da cerimônia?

— Não pretende ir ao casamento?

— Quem está se casando?

O rosto redondo da ama ficou vermelho como um tomate. A visão dela parecendo completamente furiosa era engraçada.

Thalia moveu a língua meio solta sem cerimônia.

— Parabéns pelo seu casamento, Ama.

— A senhorita é quem está se casando hoje!

A ama gritou como um ganso com o pescoço torcido.

— Você disse que faria isso sozinha, então por que está agindo assim?!

Thalia franziu as sobrancelhas.

Agora que pensava nisso, havia decidido se casar com Varkas.

Quando fora isso, mesmo?

Não sabia. Sua noção do tempo parecia ter se dissolvido e desaparecido na fumaça.

Thalia, que piscava devagar com uma expressão atordoada, logo abaixou os pés da cama.

De qualquer forma, hoje é o dia do meu casamento.

Então suponho que não deveria ficar aqui parada.

Caminhou, cambaleando, em direção à parte de trás do biombo.

— Só vou ajudá-la a se banhar e a vestir a roupa íntima. O resto tem de deixar com as criadas do Palácio da Imperatriz.

— …Tudo bem.

— Não pode arranhar nem bater nelas de jeito nenhum.

— O que acha que eu sou, um gato? Por que arranharia pessoas?

A ama fez uma expressão como se tivesse posto na boca algo que não conseguia engolir.

Achando aquela expressão idiota engraçada, Thalia deu uma risadinha, e a ama soltou um suspiro fundo antes de tirar a camisola de seu corpo.

— Lave-se logo.

Thalia entrou na banheira.

Imediatamente depois, uma jorrada de água fria despejou-se sobre sua cabeça.

Thalia afastou o cabelo dos olhos e esfregou os olhos ardidos.

A ama parecia estar com pressa.

Seu toque era mais grosseiro que o usual.

Depois de derramar uma garrafa inteira de óleo aromático sobre ela, a ama começou a esfregar seu corpo inteiro com uma escova grossa. Mais do que servir uma Princesa no banho, era mais próximo de lavar um cachorro.

Mesmo assim, Thalia aceitou o serviço descuidado sem reclamar. Com os sentidos entorpecidos, não doía tanto.

— Pronto, saia.

Após derramar água fria sobre sua cabeça quatro vezes seguidas, a ama a apressou com urgência em seu tom.

Thalia saiu da banheira, pingando água.

A ama enrolou seu corpo numa toalha grande, enxugou a umidade e a vestiu com roupa íntima e anágua num piscar de olhos.

Era a primeira vez que descobria que a ama, normalmente mais lenta do que uma larva, conseguia se mover tão rapidamente.

Enquanto a encarava admirada, ela enxugou o suor da testa com o dorso da mão, depois saiu correndo do quarto e chamou as criadas.

Thalia logo se viu cercada por dezenas de mulheres.

Não. Provavelmente não eram dezenas. Como uma pessoa parecia duas, e duas pareciam três ou quatro, eram certamente menos do que isso na realidade.

De qualquer forma, aos olhos de Thalia, pareciam dezenas.

Piscou os olhos turvos e logo fechou as pálpebras.

Pouco depois, as criadas, tendo concluído todos os preparativos, a conduziram a algum lugar. Era como ser levada pela correnteza e derivar para o mar aberto e vasto.

Quando voltou a si, já estava dentro de uma grande carruagem a caminho de algum destino.

Thalia olhou pela janela com olhos nebulosos.

Um céu tingido de cor de tinta e a enorme capela sob ele vieram à vista.

No momento em que aquela paisagem desfocada entrou em seus olhos, uma ansiedade inexplicável preencheu seu peito.

Fitou a entrada da capela, que estava bem à sua frente, com suor frio escorrendo, e agarrou a maçaneta da porta.

Quando estava prestes a chutar a porta e saltar para fora, a carruagem parou de súbito.

Com a parada repentina, Thalia cambaleou e caiu no chão.

Infelizmente, bateu os joelhos, e uma dor latejante se espalhou até a pelve. Mordeu o lábio e engoliu um gemido.

Naquele instante, a porta da carruagem se abriu de repente, e uma sombra profunda se derramou sobre seu corpo.

Thalia ergueu os olhos abruptamente e prendeu a respiração ao ver Varkas, que parecia envolto por uma cortina cinzenta.

O homem, vestido com trajes cerimoniais brancos puros e um casaco bordado com o brasão de sua família jogado elegantemente sobre os ombros, inclinou-se em sua direção.

Sentiu os olhos azuis dele a percorrerem lentamente, especialmente seu rosto e olhar.