O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 64

Capítulo 64

Tradução: Amme

Capítulo 64

— Sabe por que decidi isso?

Varkas a encarou em silêncio. Diante daquele rosto impassível, ela foi pressionando cada palavra como se quisesse gravá-las em pedra.

— Porque quero te ver infeliz. É por isso que vou aceitar me casar com você.

— ……

— Quero que você sofra. Muito, muito mesmo.

Os olhos dele se estreitaram.

Prendendo a respiração, ela aguardou sua resposta. Esperava que aquele rosto indiferente se despedaçasse, que demonstrasse fúria, que estremecesse e a repelisse.

Que dissesse que afinal não era possível, que ele não faria isso.

Que jamais poderia tomar uma mulher como ela como esposa.

Embora isso faria com que seu próprio coração se estilhaçasse até que sequer um fragmento existisse, ao menos o resto de suas vidas poderia ser poupado.

Mas, como sempre, ele traiu suas expectativas.

Como se tivesse ouvido algo insignificante, Varkas soltou um breve suspiro, afastou as mãos dela que se agarravam à sua roupa e endireitou o corpo.

— O casamento será realizado o quanto antes. — Falou, com simplicidade. Em seguida, caminhou até a janela e abriu o painel de vidro.

Ela sentiu o vento, atravessando o homem à sua frente e alcançando sua própria pele, fazendo seus cabelos se moverem.

Thalia contemplou em silêncio a figura que agora estava mergulhada na luz do pôr do sol. A voz grave e pesada soou como se viesse de muito longe.

— Isso será o melhor para nós dois.

O que ele queria dizer com isso?

Que assuntos inconvenientes ele queria resolver desta forma?

Thalia buscou a resposta nos olhos dele, mas logo sentiu um cansaço profundo e fechou as pálpebras.

Nada disso importava mais. Não tentaria mais desvendar os verdadeiros sentimentos daquele homem.

Se ele a estava aceitando devido ao seu senso de responsabilidade, ela escolhia ficar ao seu lado para devolver as feridas que recebera através dos anos. Portanto, não cometeria a tolice de esperar qualquer coisa dele.

Repetiu para si mesma o mesmo voto que fizera infinitas vezes.

Que aquela seria a última noite, e que colocaria um fim naquele amor maldito.

No entanto, no seu âmago, ela sabia a verdade.

Que o amor que buscava matar hoje, voltaria a encontrá-la amanhã.



O Palácio Imperial estava em polvorosa com o casamento da Segunda Princesa, que aconteceria em breve.

Por ordem direta da Imperatriz, as criadas do Palácio Principal começaram a decorar esplendidamente o salão da cerimônia, enquanto os servos iam e vinham sem parar entre a despensa e a cozinha, ocupados a preparar vinhos e iguarias para os convidados.

Apesar de toda aquela agitação, porém, uma atmosfera pesada e inquieta pairava em outras áreas do palácio.

Edric, ao sair da base de logística, deparou-se com um grupo de aprendizes reunidos num canto do pátio de treinamento e franziu as sobrancelhas quando uma conversa profundamente desagradável alcançou seus ouvidos.

— No fim das contas, mãe e filha tiveram seus homens roubados, duas gerações seguidas.

Observou com atenção o rapaz que ria de forma leviana. Era o filho do Visconde Kendon e um baderneiro que formara uma facção entre os escudeiros.

O rapaz apoiou uma arma de treino no suporte e continuou:

— Dizem que a Segunda Princesa é uma réplica de Sua Majestade, a Imperatriz. Com aquele rosto, não é de se espantar que o Sir Siarkan se apaixonasse por ela.

— Acha que o Comandante é igual a você? — Um rapaz mais corpulento sacudiu a cabeça. — Para começo de conversa, esse era um casamento que jamais teria acontecido sem a ordem de Sua Majestade, o Imperador. Só tenho pena de Sua Alteza, a Primeira Princesa.

— Ah, que ingenuidade. Acaso tem noção da verdadeira influência da família Siarkan? Acha que o herdeiro trocaria de noiva apenas por causa de uma única ordem de Sua Majestade? — O rapaz estalou a língua. — É óbvio que ele aceitou porque quis! Além do mais, dizem que o Sir Siarkan era o cavaleiro-guarda da Segunda Princesa, não é? Quem sabe os dois não tinham olhos um para o outro faz tempo? De acordo com pessoas que participaram da peregrinação, dizem que havia uma estranha proximidade entre eles…

— Você não sabe do que está falando. Nunca ouviu sobre o quanto a Segunda Princesa atormentou o Comandante quando era seu cavaleiro-guarda? De que adianta ser bela? Ele presenciou aquele temperamento abominável de perto por anos a fio. Quem se apaixonaria por alguém assim?

Um aprendiz que organizava flechas para o treino de arco bufou alto.

— Fora que a Segunda Princesa ficou aleijada após seu acidente. Quem se casaria de boa vontade com uma mulher deficiente, podendo ficar com Sua Alteza, a Primeira Princesa? Com certeza ela executou algum plano ardiloso por trás dos panos…

— Parece que o treino hoje está sendo feito com a boca. — Sem aguentar mais ouvir aquilo, Edric interrompeu abruptamente, e os escudeiros se assustaram e endireitaram a postura.

Percorreu os rapazes com um olhar frio.

— Sabem que a conversa que acabaram de ter poderia ser considerada um crime, o de ultrajar a família imperial?

As faces dos rapazes empalideceram imediatamente.

Edric examinou o rosto de cada um com cuidado e acrescentou com severidade:

— Os Cavaleiros Roem são uma organização formada para proteger a família imperial. Se pretendem fazer parte dela, o mínimo que precisam entender é que não se fala levianamente sobre a família imperial, muito menos publicamente.

— Pe-pedimos desculpas, Sit Rubon.

Os rapazes se curvaram nervosamente.

Depois de os encarar em silêncio por um momento, Edric virou-se devagar e começou a caminhar em direção ao alojamento da ordem dos cavaleiros.

Naquele instante, um antebraço pesado pousou sobre seu ombro.

Edric virou a cabeça e arregalou os olhos ao reconhecer o cavaleiro sênior Sir Theoric Hart.

Este sorriu e disse:

— Você os disciplinou perfeitamente.

— O que o traz ao pátio de treino a esta hora? — Edric perguntou, olhando para a torre do sino com expressão perplexa.

Ainda não era sequer meio-dia. Não era esse o horário mais movimentado, quando todos os cavaleiros experientes estavam ocupados com seus deveres no Palácio Principal?

Diante de seu olhar interrogativo, Sir Hart soltou uma risada robusta e despenteou seu cabelo com a mão larga.

— Vim correndo em um único fôlego apenas para lhe trazer a boa notícia. Sua suspensão foi finalmente encerrada. A partir de amanhã, você voltará a servir na minha unidade direta.

Edric pausou e olhou para o homem. Embora fosse de fato uma notícia bem-vinda, por um instante sentimentos complexos vieram à tona.

— Então quem ficará responsável pela guarda de Sua Alteza a Segunda Princesa? — Perguntou, com certa hesitação.

Os olhos de seu superior estreitaram-se levemente e, tirando o braço do ombro de Edric, soltou um suspiro pesado.

— Os Cavaleiros Roem foram completamente excluídos da guarda da Segunda Princesa. Sua Majestade, a Imperatriz, levantou a questão de se tínhamos deliberadamente negligenciado a escolta de Sua Alteza. Deixou claro, inclusive, que não mais confiaria aos Cavaleiros Roem a escolta de Sua Alteza, o Segundo Príncipe, tampouco.

O rosto de Edric endureceu. Aquele tratamento não era diferente de arrastar a honra dos Cavaleiros Roem pela lama.

Desde a fundação do Império, os Cavaleiros Roem haviam assistido e protegido a família imperial. E agora aquilo que definia suas identidades lhes era negado.

Edric baixou a cabeça, abatido.

— Lamento. Por não ter cumprido meu papel, a ordem sofreu tamanha humilhação…

— A culpa não é sua. Isto foi um acidente que ninguém poderia ter previsto. Não há razão para se flagelar. — Theoric deu-lhe um tapinha no ombro em consolo.

Mesmo assim, como a expressão de Edric não pareceu nada aliviada, Theoric, que esfregava a nuca como se ponderasse algo, de repente conduziu o subordinado para fora do pátio de treino. Edric o seguiu com uma expressão abatida.

Depois de caminharem em silêncio por um momento, somente ao alcançarem uma área deserta, Theoric abriu a boca.

— Sei que tem um forte senso de responsabilidade. Mas isso realmente não é caso nesta instância, então não desgaste seu coração com isso.

Edric franzou as sobrancelhas.

— Eu era seu cavaleiro-guarda. Visto dessa forma, a responsabilidade primária pela falha na escolta recai sobre mim. Então como posso-?!

— O ataque naquele dia aconteceu por maquinação da Imperatriz.

Edric ficou paralisado e fitou o rosto do superior com um olhar vazio.

Theoric, que olhava para o chão com uma expressão sombria, continuou em tom calmo:

— Não lhe parece estranho? Que wyverns tenham atacado a comitiva em bando, justamente naquele momento…? Normalmente, bestas mágicas de grande porte como os wyverns não atacam um exército armado a menos que seu habitat seja invadido. Além disso, nosso acampamento estava bastante longe de seu território.

— Bem, eu também achei estranho, mas… ainda assim não podemos concluir que a Imperatriz tramou isso…

— Houve um relatório de que os atendentes da Segunda Princesa agiram de forma suspeita antes do ataque. — Theoric falou, em tom endurecido. — Além disso, vestígios de magia de alto nível foram encontrados nas proximidades do local do acidente. É muito provável que alguém tenha perturbado deliberadamente o habitat dos wyverns.

Edric abriu a boca, incrédulo.

À medida que o significado das palavras do superior se tornava claro, um suor frio escorreu por suas costas.

— Mas a Segunda Princesa também estava participando da peregrinação. A própria filha dela poderia ter se machucado, que foi o que ocorreu— como ela poderia fazer tal coisa…?

— É exatamente por isso que conseguiu desviar as suspeitas com tanta facilidade.

Edric o encarou sentindo o sangue esvair de seu rosto, sem palavras.

Theoric continuou em tom sombrio:

— A Imperatriz é uma pessoa assustadoramente meticulosa. Conduzimos uma investigação secreta imediatamente após o acidente, mas afora alguns indícios circunstanciais, não encontramos nenhuma prova física decisiva. Além do mais, a maior vítima deste incidente foi a própria filha da Imperatriz. Em tal situação, quem ousaria acusá-la?

Edric baixou o olhar devagar.

A imagem da Princesa soterrada sob as pedras, em lágrimas e sofrimento, veio à sua mente.

Lembrou-se também de como ela se contorcera de dor durante todo o tratamento de emergência.

Aquela jovem mulher havia terminado assim por causa de sua própria mãe biológica.

Sentiu o estômago embrulhar.