Tradução: Amme
Capítulo 63
Assim que a visita indesejada foi embora, Thalia insistiu para que a curandeira acendesse os incensos, preenchendo o quarto com uma fumaça turva.
Enquanto inalava o ar acre que tremulava ao seu redor como uma névoa, os sentidos outrora em ebulição foram lentamente se assentando. Uma profunda sensação de alívio tomou conta de si.
sabia que se esperasse um pouco mais, os efeitos da fumaça alcançariam sua mente, como se preenchessem seu crânio. Então não precisaria pensar em mais nada. Queria simplesmente dormir, como se acordar novamente não fosse importante.
Deitou-se espalhada na cama e fechou os olhos. Mas por mais que esperasse, um único fio de consciência permanecia intacto, prendendo-a à realidade.
Tentando de alguma forma adormecer, ela aproximou o rosto do braseiro e inalou a fumaça áspera profundamente, mas tudo que conseguiu foi causar uma crise de tosse. Seu corpo reagiu violentamente a isso, tremendo, até a leve sonolência que havia começado a tomar conta de sua mente pareceu se dissipar.
Tomada por uma sensação de derrota, Thalia olhou pela janela. Sem que percebesse, o céu havia sido tingido de um vermelho-sangue profundo.
Depois de encarar por algum tempo aquela luz do pôr do sol, a ponto de ficar tonta e arrepiar a espinha, ela saiu da cama como se atraída por algo e tentou ficar de pé nas duas pernas.
Talvez o remédio estivesse funcionando adequadamente, pois não sentiu nenhuma dor em particular. Ela deu alguns passos experimentais. A perna esquerda se movia com um pouco de atraso, o pé arrastando pelo chão. Mas a dor aguda que havia sentido ao dobrar as juntas estava amortecida. Desta forma, parecia que conseguiria caminhar bem o suficiente.
Ela enfiou os pés magros em sapatos leves, e tirou um manto com capuz do armário. Após drapejá-lo frouxamente sobre si, deixou o quarto com um andar vacilante.
A essa altura, a ama já estaria rolando no próprio quarto. A curandeira teria terminado o trabalho e voltado para os próprios aposentos, e as criadas também estariam descansando nos próprios aposentos.
Exatamente como havia pensado, enquanto passava pelo longo corredor e descia as escadas, não encontrou mais ninguém.
Thalia atravessou o amplo salão e deixou o palácio isolado pela porta lateral usada pelos criados. Uma brisa fresca lheroçou gentilmente o rosto. Respirando o ar frio misturado com cheiro de grama e flores, ela moveu os pés lentamente.
Depois de vagar sem rumo por algum tempo, subitamente percebeu que havia chegado perto do campo de treinamento dos cavaleiros.
Uma pergunta tênue surgiu dentro de sua mente entorpecida.
Por que vim até aqui?
Enquanto olhava ao redor para o campo aberto, no momento banhado em uma luz vermelha, com olhos vazios, sentiu a presença de alguém e instintivamente se escondeu atrás dos arbustos. Talvez estivessem travando um duelo, pois ela enxergou alguns cavaleiros brandindo espadas em um lado do campo de treinamento.
Ela os encarou sem expressão por um tempo, depois moveu os pés novamente.
Após caminhar por um longo tempo de forma vacilante, sem saber para onde ia, a visão que antes estava clara começou a ondular. Parecia que o efeito das ervas estava finalmente se manifestando.
Arrastando as pernas bambas quase como se as puxasse atrás de si, Thalia continuou caminhando num ritmo tão lento quanto o de uma lesma. Então, de repente, ao ver a sombra que se estendia comprida a seus pés sendo engolida por uma outra sombra profunda, ergueu a cabeça.Aparentemente, em algum momento, havia entrado num prédio sombrio.
Onde é isso agora?
Enquanto franzia a testa em confusão, uma porta no fim de um longo corredor capturou seu olhar. Ela se arrastou até ela e bateu com cuidado.
Um momento depois, uma voz baixa veio do outro lado.
— Sim?
Thalia piscou lentamente. Só depois de ouvir aquela voz se lembrou do porquê havia vindo até este local.
— Vim porque tenho algo que quero lhe dizer. — Ela falou com uma voz arrastada .
Um silêncio frio se estendeu. Pensando que talvez sua voz tivesse sido muito baixa, Thalia pigarreou e abriu a boca novamente.
Naquele momento, passos pesados soaram, e a porta abriu abruptamente.
Thalia ergueu a cabeça. Talvez estivesse descansando depois de terminar as atividades do dia, pois Varkas estava vestido de forma confortável, em calças de algodão escuro e uma única camisa fina de linho.
Enquanto o percorria com olhos atordoados, uma voz fria a alcançou.
— Veio até aqui vestida assim?
Thalia baixou os olhos e examinou a própria roupa. Entre o manto entreaberto, ela podia ver a camisola de verão com que a ama a havia vestido.
O que há de errado com isso?
Enquanto franzia a testa tentando decifrar o problema, uma peça grande de roupa foi drapejada sobre seus ombros. Thalia olhou o homem à sua frente com uma expressão desconcertada.
Depois de envolver o corpo dela na capa, sem deixar nenhuma fresta, Varkas olhou para ambos os lados do corredor, onde a escuridão havia começado a se assentar espessamente.
— Onde está sua escolta?
— Escolta?
Os olhos dele se aguçaram. Varkas eegurou levemente o seu queixo e o ergueu para cima. Depois se abaixou em direção a ela e a olhou de perto nos olhos.
— Exatamente quantos de ervas analgésicas você inalou?
Thalia teve de forçar os olhos para emxergá-lo direito, visto que sua imagem continuava a se distorcer. Varkas estava com uma expressão estranha que ela nunca havia visto antes. Não — talvez a coisa estranha fosse sua própria cabeça. Quando o mundo inteiro parecia distorcido, não havia razão para que aquele homem parecesse normal.
Ela removeu com certa rispidez a mão que segurava seu rosto e moveu os lábios.
— Disse que vim porque tenho algo a te falar.
Ela viu seus olhos se estreitarem. Parecia que algo o desagradara.
Depois de lhe lançar um olhar frio, Varkas endireitou o corpo e olhou pela janela, para o céu que começava a escurecer. Então virou o olhar por cima do ombro e examinou o próprio quarto, com o ar de quem estava ponderando algo, o que a deixou cada vez mais ansiosa.
Será que falei no idioma élfico ou de anões sem perceber? Por que ele não está respondendo?
— Não consegue ouvir? Falei que tenho algo que quero dizer...
Então, de repente, seu corpo cabaleou para um lado.
Thalia agarrou apressadamente a moldura da porta. Parecia que sua perna estava tendo espasmos e cãibras após tanto caminhar, desde o palácio isolado até os aposentos de Varkas. Ela podia sentir o músculo da coxa esquerda pulsar, a dor um eco distante.
Para não desabar no chão, pressionou as duas mãos contra a parede e transferiu o peso para a outra perna.
Naquele momento, seu corpo foi erguido no ar.
Foi tão repentino que a assustou e a fez erguer os olhos. Um rosto tingido de fadiga preencheu sua visão. Segurando-a nos dois braços, Varkas entrou no amplo quarto iluminado por velas.
Thalia baixou o olhar novamente e percorreu a cena familiar, mas desconhecida. Havia vindo aqui várias vezes para encontrá-lo, mas era a primeira vez que entrava no quarto.
De repente, uma risada vazia escapou. Parecia que só depois de suas pernas terem sido deformadas que havia ganho o direito de entrar no santuário desse homem.
— Diga o que tem a dizer depois que os efeitos das ervas passar. — Ele disse com um suspiro, depois de colocá-la cuidadosamente na própria cama.
Thalia apertou com força a barra de sua camisa, quando ele tentou se afastar. Através do tecido fino, ela sentiu vagamente o torso firme e impecavelmente treinado tensionar.
Ele teria já percebido o que ela pretendia dizer?
Lutou para recuperar qualquer vestígio de foco, Thalia se agarrou à barra das roupas como se fosse uma tábua de salvação.
— Não. Vou falar agora. Se recuperar a consciência plenamente, com certeza não conseguirei dizer...
— ...
— Você disse que se eu concordasse, me tomaria como esposa, certo?
Ele não respondeu e apenas a olhou diretamente nos olhos, sem pestanejar. Thalia mal moveu a língua, que parecia pesada como resto de seu corpo.
— Faça isso. Abandone Ayla Roem Gurta e me tome como esposa.
Um silêncio pesado se assentou entre eles. Com o pôr do sol às costas, algo indecifrável percorreu o rosto do homem.
Estaria aturdido?
Ela pensou que talvez, como aquelas palavras haviam sido ditas sob o pressuposto de que ela o recusaria, e agora estivesse sem saber o que fazer com a resposta dela.
Mas da boca dele veio uma voz assustadoramente calma.
— Farei isso.
Thalia percorreu o rosto dele com olhos embaçados. Diante da expressão seca, na qual nenhuma emoção podia ser encontrada, uma risada vazia escapou de seus lábios.
Por causa daquele homem, a altiva Ayla teve que ir encontrar a meia-irmã que tanto desprezava e engolira o orgulho. A própria Thalia se encontrava atormentada pelo impulso de destruir tudo.
Mas por que aquele homem estava tão calmo?
Ao encarar aquele rosto frio, levemente tocado pelo cansaço, algo se quebrou dentro de si mesma.
