O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 62

Capítulo 62

Tradução: Amme

Capítulo 62



Com certeza uma formiga havia rastejado para dentro de suas pálpebras enquanto dormia.

Atormentada pela sensação desagradável de ardor dentro dos olhos, Thalia fixou o olhar na meia-irmã.

Como sempre, Ayla a olhava de cima, com uma aparência elegante sem o menor traço de desordem. Encarar aquele rosto altivo fazia com que seus olhos já ardentes parecerem estar em chamas.

Thalia apertou o cobertor firmemente, como um escudo, e lançou-lhe um olhar afiado.

— Está aqui só para assistir ao entretenimento gratuito, por acaso? Se tiver algo a dizer, diga logo e vá embora.

— ...Como está o seu corpo?

— Como parece estar? — Com a resposta sarcástica, os olhos verde-pálidos a percorreram lentamente, analíticos.

— Não parece bem.

A boca de Thalia se enrijeceu em uma linha. As pontas dos dedos começaram a tremer. Não fosse por suas pernas a impedindo, teria agarrado a mulher pelos cabelos e a jogado porta afora imediatamente.

— Se pode ver isso, por que não vai embora? Por sua causa, irmã, meu corpo está prestes a piorar ainda mais. — Contendo a raiva que fervia dentro de si, manter a voz calma ocorreu com considerável esforço.

Os lábios de Ayla se fecharam com firmeza. Quanto mais o silêncio se estendia, mais afiados ficavam os nervos de Thalia. À medida que a dor que subia gradualmente pelos ossos, ela ergueu a voz.

— Eu sou atacada, mas de alguma forma você ficou surda? Eu disse para ir embora.

— Eu disse que tinha algo que queria conversar com você sobre. — Ayla falou, com certa ansiedade. Thalia a fuzilou com olhos semicerrados.

— Então diga logo e saia. Meu estômago revira apenas em ver o seu rosto. E ainda por cima tenho que te suportar e esperar? Não me faça rir. Ou fale agora mesmo o que veio fazer aqui, ou desapareça da minha vista!

Como se horrorizada com a hostilidade feroz que transbordava, o rosto de Ayla endureceu visivelmente. Ela lançou um olhar frio e disse:

— Certo. Então direi claramente. Estou curiosa sobre o que você planeja fazer daqui para frente.

— O que quer dizer com o que planejo fazer?

Thalia retrucou sem sinceridade. A dor de cabeça estava cada vez pior — a formiga que havia estado roendo a parte de trás dos globos oculares agora parecia ter se enfiado no crânio, e a dor ardente se espalhava até a nuca. Enquanto todos os seus nervos estavam concentrados nisso, Ayla continuava tagarelando sobre algo.

— Não finja desentendimento. Você sabe exatamente do que estou falando.

— Sou vidente e leio mentes, agora? Como saberia o que você sequer disse?

— Sua...! — A voz de Ayla subiu ligeiramente. Thalia virou a cabeça e franziu a testa ao ver o rosto da meia-irmã torcido em humilhação.

Depois de respirar por um momento, como se tentando manter a compostura, a primeira princesa continuou em voz mais calma.

— Quero perguntar se você realmente pretende se casar com ele.

Thalia não respondeu e apenas a encarou. Agora parecia que quem achava difícil suportar o silêncio não era Thalia, e sim a própria Ayla.

— Você odeia o Varkas. O atormentou continuamente desde a infância, e agora está dizendo que vai se tornar sua esposa?

Diante do olhar que parecia buscar sua concordância, uma risada vazia escapou.

A boca de Ayla enrijeceu. Ao ver aquela expressão miserável, o riso que havia estado vazando intermitentemente foi gradualmente ficando mais convulsivo. A hilaridade era tamanha que até mesmo a fez esquecer tanto a dor de cabeça - que parecia capaz de fazer o crânio se partir - quanto a dor latejante que subia pelas pernas. Thalia apertou o estômago e irrompeu em gargalhadas.

— Então você veio correndo aqui porque está com medo? — O semblante de Ayla havia ficado quase tão branco quanto gesso. Olhando para aquilo como que em admiração, Thalia continuou, quase gentilmente. — Está ardendo por dentro, apavorada de que seu noivo seja roubado por mim?

— ...

— Mas o que devo fazer? Te ver assim me deixa doida para realmente roubá-lo, de qualquer jeito.

O rosto adorável de Ayla se torceu ainda mais severamente. Veneno subiu aos olhos que outrora lembravam a Thalia de pinheiros frescos.

Tal visão a varreu com uma euforia estranha. Era a irmã mais velha que sempre a havia olhado de cima com um rosto impecável — e essa irmã mais velha estava finalmente revelando uma emoção crua.

— Ele só disse que se casaria com você por sentir responsabilidade. — Ela gritou, de forma urgente. — Ele apenas sente culpa por você ter acabado com esse tipo de corpo! Mas Varkas não é o culpado que você tenha se ferido. Então por que precisaria fazer esse sacrifício?

Thalia apagou o sorriso dos lábios. A emoção agradável desapareceu num instante, e uma raiva gelada tomou seu lugar. Os dedos formigavam com a vontade de arrancar a língua que tagarelava como se Ayla fosse a porta-voz de Varkas.

Ela mastigou e engoliu as pragas que rastejavam por sua garganta, depois deliberadamente espremeu uma voz gentil.

— Pensei que você fosse uma pessoa mais inteligente, irmã. Mas é realmente tola, pelo visto.

Os lábios de Ayla congelaram.

Thalia continuou, devagar.

— Não é dessa forma que deveria estar me pedindo algo agora. Deveria estar me implorando, de forma educada e sincera. Me implorando para que eu não me case com Varkas Laedgo Siarkan.

Os olhos de Ayla se contraíram. Enquanto Thalia observava aquele rosto torcido de humilhação com um olhar malicioso, a outra umedeceu os lábios e lutou para falar.

— Se eu implorar, você vai recusar o casamento com ele?

— Bem, — Thalia respondeu de forma distraída. — Isso não vai depender de quão bem será feito o ato de implorar e a sinceridade da pessoa o fazendo?

Ayla apertou os lábios e olhou para o chão. Parecia que não conseguia se obrigar a falar. Depois que o silêncio sufocante se arrastou por algum tempo, ela finalmente lançou-lhe um olhar resoluto. E então, uma voz lamentável escorreu de entre os belos lábios cor-de-rosa.

— Eu imploro. Recuse o casamento com o Varkas. Se você não concordar, Sua Majestade, o Imperador, não irá persistir no assunto. Então, por favor...

Como se não conseguisse continuar, a voz se estilhaçou e se dispersou.

Thalia ergueu os olhos para aquele rosto pesaroso e engoliu um sorriso amargo.

Agora mesmo, essa mulher provavelmente pensava que havia lhe dado algo grandioso — no caso, seu orgulho como Princesa. Estaria imaginando que como ela, uma infinitamente nobre Princesa, havia se rebaixado diante de uma bastarda indigna, com certeza merecia ser recompensada.

Thalia baixou o olhar para as próprias pernas escondidas sob o cobertor. Apenas depois de ter acabado nesse estado conseguia sequer ser mencionada como noiva dele. E mesmo assim, sua própria irmã acreditava que bastava oferecer um punhado de seu orgulho patético e que isso seria o suficiente para ter tudo de novo.

Para aquela mulher, uma mísera fração de seu precioso orgulho tinha um valor equivalente às pernas de Thalia Roem Gurta.

— Certo. — Falou abruptamente. A cor voltou ao rosto de Ayla. Thalia a olhou em silêncio, depois acrescentou com calma. — Mas tenho uma condição.

— Uma condição? — Perguntou, cautela em sua expressão.

Thalia virou a cabeça e olhou para a prateleira. Na bandeja onde frutas, pão, manteiga e similares haviam sido colocados, vários utensílios de prata estavam deitados. Ela pegou a pequena faca usada para cortar manteiga e a jogou na frente da meia-irmã.

A lâmina prateada deslizou até os pés da primeira princesa. Para Ayla, que observou isso sem entender, Thalia explicou suavemente.

— Use isso para esfaquear a própria perna.

— ...O quê?

Ayla a olhou como se duvidasse dos próprios ouvidos. Encarando diretamente aqueles olhos vazios de comsideração, Thalia enfatizou cada palavra.

— Disse para usar isso para esfaquear a própria perna. Assim… — Puxou lentamente o cobertor para o lado. Os olhos arregalados de Ayla percorreram as horripilantes cicatrizes inchadas que cobriam sua pele. Thalia deslizou as pontas dos dedos ao longo da marca longa e grotesca que começava na canela, indo até a coxa. — Daqui... até aqui, se corte com essa faca. Então farei o que você pedeu.

Ayla olhou alternadamente para a faca no chão e para as próprias pernas envoltas no vestido de veludo. As pálpebras tremeram.

Logo, um sorriso frio escorreu dos lábios maquiados.

— Você nunca teve a mínima intenção de me ouvir desde o início.

Thalia respondeu.

Em seguida, a máscara altiva de Princesa retornou ao rosto de Ayla. Como se nunca tivesse mostrado uma aparência tão baixa, ela ergueu a cabeça com rigidez e deu um passo em direção à porta. Caminhou calmamente até a porta, até que parou abruptamente na entrada do quarto.

Ayla agarrou a maçaneta e olhou para trás. Os olhos parecidos com um pântano emitiam um brilho arrepiante.

— Irei garantir com que se arrependa do que aconteceu hoje, Thalia Roem Gurta.

Ayla cuspiu as palavras como uma maldição e saiu pela porta, acrescentando friamente:

— Custe o que custar.