Tradução: Emma
Capítulo 59
— Parece que os magos da corte compraram outra besta mágica.
A chefe das criadas, que a seguia silenciosamente, respondeu como se soltasse um suspiro.
Thalia se aproximou da criatura como se estivesse sendo atraída por algo. Então a criatura, que mantinha o corpo envolto em asas negras, ergueu a cabeça.
Thalia recuou e encolheu os ombros.
No corpo de uma grande ave estranha coberta por penas castanho-escuras, havia a cabeça de uma mulher humana. Mas, em vez do rosto de uma pessoa viva, parecia que um cadáver havia sido costurado ali.
Enquanto observava sem expressão aquele rosto pálido, onde veias azuladas apareciam sob a pele, uma voz viscosa como peixe podre chegou aos seus ouvidos.
— Sente alguma simpatia porque vocês estão no mesmo barco?
Thalia virou a cabeça abruptamente.
Gareth, vestido com uma túnica vermelha, estava parado logo atrás dela.
Com um sorriso debochado nos lábios, ele continuou lentamente.
— O rosto de uma mulher preso ao corpo de um monstro… Isso não te lembra alguém?
Os olhos semicerrados dele desceram pelo corpo dela e pararam em suas pernas escondidas sob a barra do vestido.
O sorriso de seu meio-irmão se aprofundou.
— Ouvi dizer que ganhou cicatrizes realmente horríveis… Ainda assim, diferente daquele monstro, pelo menos pode esconder o corpo. Que sorte.
Naquele instante, um líquido amargo como bile subiu por sua garganta.
Thalia se virou e acertou o nobre príncipe herdeiro no rosto.
Bem ao lado dela, ecoou um som parecido com o grito de um porco sendo abatido. Provavelmente era a chefe das criadas, que a seguia como uma guarda, espumando pela boca. Na beira de sua visão, Thalia viu vagamente a mulher desabar para trás.
Importando-se ou não com isso, Thalia arranhou o rosto bronzeado do meio-irmão com unhas ainda marcadas pelos hematomas.
Quatro linhas vermelho-vivas surgiram do canto do olho dele até a ponta do queixo. Mas não era um ferimento grande o bastante para satisfazê-la.
Ela estendeu o braço outra vez. Ao ver isso, os guardas correram imediatamente e seguraram seu corpo pelos dois lados.
Thalia lutou como uma fera presa numa armadilha. Mas não conseguiu se soltar de jeito nenhum.
Lágrimas explodiram de impotência. Com os olhos injetados de sangue, ela encarou o meio-irmão.
Um corpo perfeito, de constituição forte.
Não. Já não era mais perfeito.
Ao ver o sangue escorrendo pelo rosto dele, Thalia caiu na gargalhada.
— Tente dizer isso de novo. Vou fazer esse seu rosto nunca mais conseguir rir. Não tenho mais nada a perder agora. Então também não tenho mais nada a temer.
Gareth, que segurava a bochecha enquanto a encarava com olhos atônitos, torceu o rosto de forma assustadora.
Logo, uma mão áspera agarrou seus cabelos.
Ele segurou os fios que haviam levado horas para serem trançados e puxou com violência, como se fosse arrancar sua cabeça.
— Como ousa… Como ousa alguém como você tocar no meu rosto?
Seu rosto manchado de sangue ficou absurdamente vermelho.
Thalia riu ainda mais alto.
Ela conseguia ver a razão desaparecendo dos olhos do irmão mais velho.
Com a outra mão, ele agarrou o rosto dela e apertou com força suficiente para esmagar seus ossos. Mesmo sentindo a dor de que sua cabeça parecia prestes a explodir, Thalia não parou de rir.
Naquele momento, uma mão forte surgiu de repente e afastou Gareth dela.
Thalia desabou no chão como se estivesse se despedaçando. Quando a pressão que parecia querer partir seu crânio desapareceu, sua visão turva clareou e uma silhueta familiar entrou em sua retina.
Thalia piscou sem expressão e então ergueu abruptamente a parte superior do corpo. O som violento de seu coração batendo parecia prestes a rasgar seus tímpanos.
Com mãos trêmulas, ela puxou apressadamente a barra da saia até os pés, e uma voz reprimida soou acima de sua cabeça.
— Ha, sim. Já estava na hora de você aparecer.
Gareth afastou bruscamente a mão que segurava seu pulso e rangeu os dentes. Seus olhos verde-escuros queimavam negros como as chamas do inferno.
— Então finalmente vai nos trair por causa daquela vadia?
— …Sua majestade ordenou que eu trouxesse sua alteza, a segunda princesa.
— Sempre usa esse tipo de desculpa…!
— Darei minha resposta à pergunta de sua alteza depois que eu tiver a audiência com sua majestade.
Com as palavras incompreensíveis de Varkas, o rosto ensanguentado de Gareth se contorceu horrivelmente.
Um som arrepiante escapou entre seus dentes cerrados.
Gareth, que rangia os dentes como se sua mandíbula fosse se despedaçar, logo agarrou o futuro Grão-Duque pelo ombro e rosnou.
— Ótimo. Vou aguardar ansiosamente para ver que resposta você dará.
Então ele atravessou a multidão reunida e foi embora.
Varkas observou suas costas se afastando por um momento antes de abaixar o olhar para ela.
Thalia sentiu todos os pelos do corpo se arrepiarem.
Refletida naqueles olhos profundos como um abismo, que sempre a faziam se sentir infinitamente pequena, estava sua figura miserável. Aqueles olhos pareciam despedaçá-la.
Thalia apoiou as mãos trêmulas no chão. Enquanto forçava as pernas vacilantes e tentava se levantar, sentiu uma mão firme sustentar suas costas.
Assustada com a proximidade do corpo dele, ela o empurrou.
— N-Não…!
Mas aquela resistência fraca foi facilmente ignorada.
Varkas deslizou um braço por trás de seus joelhos e a ergueu com facilidade.
Engolindo um grito, Thalia puxou a saia para baixo, temendo que suas pernas ficassem expostas. Mesmo depois de confirmar que a longa barra cobria tudo até os pés, sua ansiedade não desapareceu facilmente.
Segurando a ponta da saia com força, falou com uma voz que parecia encolher para dentro.
— C-consigo andar sozinha, então me coloque no chão.
Varkas não respondeu.
Thalia engoliu em seco. O silêncio dele a fazia sentir como se estivesse sendo estrangulada.
— Eu disse para me colocar no chão!
Quando elevou mais a voz, sentiu os braços ao redor dela se apertarem levemente.
Thalia ergueu a cabeça e percebeu que ele estava contendo alguma coisa, então fechou a boca.
Varkas, mantendo os olhos fixos à frente, falou em voz baixa.
— Você não iria querer chamar ainda mais atenção. Se me suportar só por um pouco, poderá evitar a humilhação de cambalear sob os olhares deles.
Thalia ergueu o olhar para o rosto dele sem expressão, então moveu os olhos ao redor.
Viu dezenas de pares de olhos arregalados em choque e espanto.
Baixou profundamente a cabeça, como se tentasse se esconder daqueles olhares. Um leve suspiro saiu sobre o topo de sua cabeça. Sentindo que as lágrimas estavam prestes a explodir de novo, Thalia cerrou os dentes.
— Por favor, suporte só mais um pouco.
Depois de sussurrar baixinho, ele acelerou ainda mais o passo.
Logo, a enorme porta que levava à sala de audiência do imperador apareceu diante deles.
O camareiro que estava diante dela arregalou os olhos ao ver Varkas surgir carregando a segunda princesa nos braços.
Ignorando sua reação, Varkas fez um leve gesto com a cabeça.
— Viemos por convocação de sua majestade. Abra a porta.
Quando o camareiro abriu a porta apressadamente, surgiu um vasto salão brilhante e um trono dourado.
Thalia ergueu a cabeça e olhou para o assento de honra.
Um homem de corpo imenso, que parecia ter sido forjado a partir do próprio poder, observava um documento de pergaminho com expressão entediada.
Senevia, sentada ao lado dele e sussurrando algo, inclinou levemente a cabeça e encarou Thalia. Um sorriso elegante surgiu em seu belo rosto brilhante como uma pérola.
— Finalmente chegou.
Só então o olhar do imperador se fixou nela.
Thalia umedeceu os lábios ressecados. Sentiu os olhos sombrios dele percorrerem lentamente sua aparência. Incapaz de suportar mais a vergonha, se debateu com braços e pernas.
— Me coloque no chão agora.
Ignorando seu protesto, Varkas caminhou até o trono.
Ergueu os olhos para ele, confusa. Não conseguia entender de jeito nenhum, porque aquele homem estava agindo daquela maneira.
Sendo o noivo de Ayla, realmente estava tudo bem para ele mostrar uma cena dessas diante do imperador?
Enquanto observava novamente o assento de honra com olhos tensos, uma voz repreensiva atravessou seus ouvidos.
— Ouvi que não tinha nenhum problema em andar…
Thalia enrijeceu os ombros e, antes que percebesse, começou a despejar desculpas.
— Eu caí no caminho até aqui, e Sir Siarkan apenas me ajudou.
Então, quando empurrou com firmeza o peito dele, Varkas, que permanecia rígido como uma estátua de pedra, finalmente a colocou no chão.
