O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 57

Capítulo 57

Tradução: Emma

Capítulo 57


Enxugando o suor do rosto com a manga, Arthros subiu correndo os degraus de pedra de uma vez só e puxou a maçaneta firmemente fechada.

Pela fresta da porta aberta, revelou-se a visão de um grande salão silencioso como a morte.

Arthros olhou ao redor do espaço escuro, onde nem mesmo uma criada, muito menos um guarda, podiam ser vistos, então moveu os pés silenciosamente e subiu as escadas.

Ele não sabia por que estava abafando os próprios passos.

Também tinha sentido isso da última vez que veio, mas aquele castelo era exatamente como um cemitério. A atmosfera sinistra o fazia prender a respiração sem perceber.

Lançando um olhar para as janelas cobertas por cortinas, Arthros subiu as escadas de dois em dois degraus e alcançou o terceiro andar em um único fôlego.

Por fim, a porta do quarto de sua irmã mais velha surgiu à vista.

Depois de parar diante da grande porta de mogno e recuperar o fôlego por um instante, Arthros bateu cuidadosamente.

Mas, mesmo após esperar por muito tempo, não houve nenhuma pergunta querendo saber quem era, nem qualquer resposta mandando-o entrar.

Será que ela estava dormindo?

Arthros encostou o ouvido na porta e então bateu um pouco mais forte desta vez. Então, de dentro, ouviu um estrondo.

Depois de hesitar por um momento, ele logo puxou a maçaneta e olhou para dentro do quarto.

Uma fumaça pálida ondulava dentro do quarto desorganizado.

Arthros soltou uma tosse seca por causa do ar abafado e então arregalou os olhos de repente. Uma cena como se uma tempestade tivesse passado pelo local se desenrolou diante dele.

Piscando em choque, de boca aberta, entrou naquela bagunça como se fosse atraído por algo.

Fragmentos de vidro quebrado estavam espalhados pelo quarto.

Como se uma garrafa de vinho tivesse sido arremessada, o carpete cheirava fortemente a vinho, e sobre ele havia longas tiras de tecido rasgadas e penas que pareciam ter saído de um travesseiro, espalhadas em desordem.

Arthros, que observava tudo aquilo com olhos vazios, de repente descobriu o espelho de corpo inteiro estilhaçado em pedaços e recuou assustado.

Na superfície do espelho, rachada como uma teia de aranha, sua própria figura se refletia em dezenas de fragmentos.

Sentindo um arrepio, ele deu um passo para trás desajeitadamente, mas então ouviu um som de farfalhar atrás dele.

Arthros se virou assustado e congelou ao descobrir Thalia largada descuidadamente sobre o carpete.

Por um instante, sua respiração ficou presa na garganta.

Ela vestia apenas uma camisola fina, encarando o teto com olhos vazios. Seu rosto, como se toda a vitalidade tivesse sido drenada, fez um calafrio percorrer sua espinha.

Ela moveu um braço fino como um galho de bétula, pegou um punhado de penas espalhadas pelo chão e as lançou no ar.

Penas brancas flutuaram como poeira no ar turvo.

A mulher, que observava aquilo sem foco algum no olhar, moveu lentamente os olhos e o olhou.

Arthros recuou um passo sem perceber.

Ela moveu os lábios, nos quais crostas de sangue seco se agarravam, e deixou escapar uma voz seca.

— …Veio assistir?

— E-Eu só… vim fazer uma visita para ver se estava bem…

Os olhos desolados dela se fixaram no buquê de flores em seus braços.

Arthros sentiu as orelhas esquentarem. Por algum motivo, sentia como se estivesse fazendo algo terrível com ela.

Thalia abaixou as pálpebras como alguém exausto.

— …Deixe isso aí e vá embora.

Arthros hesitou, então colocou o buquê na prateleira ao lado da cama.

Ele já não sabia mais o que deveria fazer.

Olhando para sua irmã mais velha com olhos impotentes, Arthros logo deixou o quarto.

Berens, que esperava no corredor, franziu a testa ao ver seu rosto pálido. Parecia suspeitar que Arthros tivesse sido ferido de alguma forma.

Sem explicar nada, Arthros agarrou sua mão e o puxou consigo.

— Vamos voltar logo para o palácio principal.

Então correu pelo corredor silencioso como uma tumba.

Nem sabia do que estava fugindo. Apenas queria deixar aquele lugar estranhamente frio e úmido o mais rápido possível.

Arthros olhou uma última vez por cima do ombro para a porta do quarto entreaberta e então desceu correndo as escadas.

Depois, como uma fera escapando de uma armadilha, fugiu do palácio anexo em um único fôlego.

***

Era como se uma formiga estivesse rastejando por seus vasos sanguíneos.

Uma dor que espetava seus nervos subia por suas canelas e roía seus joelhos, coxas, quadril e cintura.

Não era uma dor tão intensa quanto antes, mas era igualmente irritante.

Thalia ergueu as unhas e arranhou persistentemente os joelhos deformados. Então a formiga rastejando sob sua pele começou a cavar seus ossos, como se estivesse se rebelando.

Para arrancar aquele inseto nojento, Thalia rasgou a casca dura, que parecia pele morta.

Sangue escorreu do ferimento aberto. Ignorando a dor ardente, afundava as unhas na carne vermelha exposta quando a ama, que acabara de entrar no quarto, viu a cena e soltou um grito agudo.

— Já te disse, por favor, pare de fazer isso!

A ama colocou a bandeja que carregava sobre a mesa quase como se a tivesse jogado e segurou a mão de Thalia.

Thalia olhou para ela com olhos sem força e então colocou a outra mão sobre a cicatriz.

— Por que está mesmo fazendo isso?!

A ama segurou também a outra mão dela e soltou profundos suspiros.

— O que pretende fazer se a cicatriz, que já é feia o bastante, ficar ainda pior?

Thalia a olhou com os olhos vazios.

Aquela era a ama que sempre a elogiara sem parar, dizendo que era linda. O quanto havia sido devotada, afirmando que Thalia parecia uma reprodução perfeita de Senevia criança.

Até nos olhos daquela ama, parecia que sua aparência atual era horrível.

Thalia torceu os pulsos violentamente para se libertar e empurrou o ombro da ama.

— Saia! Nem quero olhar para você!

A ama lançou-lhe um olhar emburrado e caminhou pesadamente até a prateleira. Então pegou a tigela de mingau e o frasco de remédio colocados na bandeja e os estendeu.

— Não se preocupe. Assim que comer isso, irei embora mesmo que tente me impedir.

Thalia estendeu a mão para jogar a tigela.

Mas parecia que até a ama mais lerda desenvolvia algum senso depois de sofrer a mesma coisa várias vezes.

A ama rapidamente deu um passo para trás e lançou-lhe um olhar severo.

— Se não comer, não vou acender a erva do sono para você.

Thalia a encarou com ressentimento nos olhos, mas acabou aceitando a tigela. Já não tinha forças para discutir.

Pegou a colher e enfiou mecanicamente a comida pastosa na boca. Parecia exatamente como comer lama.

Depois de se forçar a terminar o mingau enquanto segurava a náusea e até engolir o remédio desconhecido, a ama colocou um novo feixe de ervas medicinais no incensário e o acendeu para ela.

Thalia inalou profundamente a fumaça acre e desabou sobre a cama.

À medida que sua consciência se tornava nebulosa, a sonolência a dominava. Soltando um suspiro de alívio ao sentir seus sentidos cada vez mais turvos, voltou o olhar para fora da janela. Além do vidro transparente, o céu do entardecer estava ficando vermelho.

Quando o sol se pusesse, uma escuridão espessa logo viria cobri-la. Mesmo com a mente enevoada, o medo rastejava sobre ela.

Tinha medo da chegada da noite. A memória de esperar eternamente na escuridão por alguém parecia sufocá-la.

Mas tinha ainda mais medo da chegada do amanhecer. Não queria viver mais um dia naquele corpo miserável.

Fechou os olhos com força e murmurou palavras de oração desesperada.

Por favor, deixe todo o tempo que lhe foi dado desaparecer de uma vez enquanto dorme.

Para que pudesse ser libertada daquela dor para sempre.

Mas, como sempre, seu desejo não se realizou.

Despertada por uma mão sacudindo seu ombro, Thalia olhou para a alta janela por onde a luz do sol entrava e soltou um suspiro vazio.

No fim, parecia que outro dia terrível estava prestes a começar. Ela segurou a testa latejante.

Naquele momento, uma voz desconhecida alcançou seus ouvidos.

— A senhorita precisa se levantar agora, sua alteza.

Assustada, Thalia virou a cabeça e descobriu uma sombra negra alta ao lado da cama, então se ergueu de repente.

Uma mulher muito alta e de constituição forte a observava com olhos da cor do aço.

Com movimentos disciplinados, a mulher fez uma reverência elegante e falou.

— Por favor, perdoe generosamente a descortesia de entrar em seu quarto sem permissão, sua alteza. Eu sou Trania Meldren, a chefe das criadas responsável pelo palácio da imperatriz. Por ordem de sua majestade, a imperatriz, vim auxiliar sua alteza hoje.

Thalia, com uma expressão confusa, moveu os olhos lentamente ao redor do quarto.

Em algum momento, de um lado, do agora, quarto limpo, cerca de quinze criadas usando vestidos marcados com o selo do palácio da imperatriz estavam alinhadas.

Ao ver os montes de roupas em suas mãos, Thalia endureceu rigidamente.

Um pressentimento ruim apertou sua garganta.

— Me auxiliar? Por quê faria isso…

— Hoje, sua alteza terá uma audiência com sua majestade, o imperador.