Tradução: Emma
Capítulo 50
Thalia, com o rosto horrivelmente distorcido, golpeou fortemente a bochecha dele.
— Seu desgraçado nojento! Não fica satisfeito a menos que interfira em tudo o que eu faço!
Na escuridão, os olhos azuis dele vacilaram levemente.
Mas o rosto que a olhava permanecia frio e composto, como sempre.
Aquela compostura inabalável era horrível.
Thalia ergueu as unhas e arranhou a sua bochecha.
Varkas, que não demonstrou o menor sinal de recuar, segurou seu pulso e olhou ao redor do acampamento desordenado.
Seu olhar gelado percorreu, um por um, os rostos mortalmente pálidos das criadas, os rostos aflitos dos cavaleiros e a mulher que soluçava enquanto segurava a bochecha queimada.
Um suspiro seco escapou de seus lábios.
— Levem-na para um curandeiro.
Depois de indicar a mulher com um leve gesto do queixo, Varkas logo se virou.
Thalia torceu os braços e as pernas violentamente e gritou.
— Quem disse que podia?! Aquela mulher é uma criminosa! A cabeça dela deve ser cortada imediatamente!
Ela viu as pessoas que haviam corrido até ali ao ouvir a confusão sussurrando quando a viram.
Mas já não lhe restava força para preservar sua dignidade.
Ela gritou alto o bastante para todo o acampamento ouvir.
— Seu maldito bastardo! Que tipo de cavaleiro é?!
Mas Varkas sequer piscou.
Varkas atravessou silenciosamente entre as tendas, entrou direto em uma delas e a colocou sobre uma cama larga.
Thalia, sem nem perceber que havia sido levada ao quarto dele, estava totalmente absorvida em despejar sua raiva fervente.
— Você nunca me protegeu de verdade nem uma única vez! Sempre! Sempre! Deixou que me espancassem até quase eu morrer! Também não tinha intenção de me salvar dessa vez, tinha? Queria que eu morresse. Foi por isso, por esse motivo que me deixou para trás, não foi? Foi por isso que não veio me salvar imediatamente, não foi? Eu sei de tudo!
Ignorando-a enquanto ela gritava a plenos pulmões, ele pressionou seu pulso contra a cama para mantê-lo imóvel e forçou sua mão a se abrir.
Sangue e pus escorreram de sua palma avermelhada pela queimadura.
Varkas abaixou os olhos para ela, estreitando-os levemente, então pegou um pequeno frasco de vidro da prateleira.
Quando o viu derramar um líquido desconhecido sobre sua mão, ela gritou.
— Não! Não faça isso! Disse para me deixar em paz!
Depois de aplicar silenciosamente o remédio em seu ferimento, ele envolveu sua mão várias vezes com uma faixa branca que pegara de algum lugar.
Durante todo esse tempo, Thalia havia golpeado loucamente o ombro dele com a outra mão, mas logo perdeu todas as forças e deixou os membros caírem sem vida.
Varkas, que a observava com olhos secos, levantou-se lentamente.
— Vou trazer um sedativo.
Thalia, que havia enterrado metade do rosto no travesseiro enquanto respirava pesadamente, ergueu os olhos e o olhou.
Varkas caminhou calmamente até a prateleira instalada em um dos lados da tenda e examinou os frascos de remédio.
Sobre suas costas retas, sobrepôs-se a visão dele correndo em direção a Ayla.
Uma dor semelhante a chamas ardentes atravessou seu peito.
Thalia cuspiu as palavras com a voz distorcida.
— Te dá tanto nojo assim que eu ainda esteja viva e respirando?
Viu a mão dele, que vagava pela prateleira, parar e endurecer.
Depois de permanecer imóvel por um tempo, ele virou a cabeça tão lentamente que o movimento pareceu antinatural.
Quando encarou aquele rosto refinado, como se toda emoção tivesse sido destilada para fora dele, algo dentro dela se partiu e desmoronou em pedaços.
Thalia tinha um sorriso arrepiante em seus lábios.
— Deve ser decepcionante. Era a chance de a mulher que era como uma pedra em seu caminho, desaparecer desse mundo.
As lágrimas que finalmente transbordaram molharam suas bochechas.
O rosto frio dele também afundou sob uma fina camada de água e se distorceu.
Ele caminhou até ela e se abaixou diante da cama.
Um frasco gelado tocou seu lábio inferior.
— Beba. Vai fazer você se sentir um pouco melhor.
— Eu não preciso disso.
— ...
— Não preciso mais de nada vindo de você.
Varkas colocou o frasco de lado.
Naquele instante, a luz da lamparina enfraqueceu, lançando uma sombra negra sobre o rosto dele.
Não importava.
Mesmo sem enxergá-lo, ela sabia perfeitamente qual expressão ele estaria fazendo.
Ou estaria com o mesmo rosto indiferente de sempre, ou seu olhar estaria misturado com um pouco de cansaço e irritação.
Virou as costas para ele.
O homem, que a observou silenciosamente por algum tempo, acabou deixando a tenda.
Thalia ouviu os passos dele se afastando e então abaixou a mão até sua perna.
Ao sentir aquela rigidez semelhante a um bloco de madeira, um arrepio percorreu sua espinha.
Aleijada.
Rapidamente expulsou a palavra que havia surgido em sua mente.
Aquilo não podia ser verdade.
Era apenas algo que as pessoas que a odiavam haviam dito descuidadamente.
Existiam inúmeros curandeiros excelentes na família imperial.
Se fosse sua mãe, certamente conheceria muitos praticantes que usavam magia proibida.
Com certeza ela a consertaria, não importa o que custasse.
Naquele momento, exibiria seu corpo perfeito diante daqueles que haviam rido dela, como se lhes dissesse para olharem bem.
Thalia apertou o joelho latejante e logo abaixou as pálpebras.
A solene procissão de peregrinação iniciada pela família imperial havia se transformado em uma sombria procissão fúnebre.
Os acompanhantes da família imperial usavam mantos negros em vez das túnicas vermelhas, e os cavaleiros também carregavam estandartes de cores apagadas sobre suas armaduras.
As carroças de bagagem, que antes transportavam álcool valioso, seda, joias e outros tesouros de ouro e prata, agora estavam carregadas com trinta e quatro corpos cuidadosamente alinhados, enquanto os músicos tocavam canções fúnebres em tons baixos em intervalos regulares.
Thalia, que escutava distraidamente aquele som dentro da carruagem, sentiu a dor antes adormecida começar a piorar novamente e procurou o queimador de incenso.
Dentro do recipiente de latão já frio, havia apenas cinzas acumuladas.
Thalia murmurou um curto palavrão e lutou para erguer o corpo, que estava largado sobre as almofadas.
Então abriu a caixa instalada sob o assento e tirou um novo bastão de incenso.
Era feito de capim-gelo, prímula-da-noite, folhas de mandrágora e flores vermelhas fragmentadas completamente secas e compactadas.
Quando o colocou dentro do recipiente e o acendeu usando uma pedra de mana, uma fumaça pálida subiu densamente.
Thalia deixou o corpo cair novamente sobre o cobertor, sentindo sua mente ser coberta por uma névoa úmida e pesada.
Desde o início da procissão de retorno, Thalia passava a maior parte do tempo entorpecida pelos analgésicos.
Quando estava mergulhada naquela fumaça acre, amanhã se tornava hoje, e hoje se tornava ontem.
Em seu estado semi adormecida, às vezes reconhecia vagamente que o mago vinha verificar sua condição ou que o cavaleiro de guarda trazia comida e a incomodava, mas a existência deles apenas roçava a superfície de sua consciência.
O único que a trazia de volta à dolorosa realidade era Varkas.
Olhando para a sombra que surgiu depois da porta da carruagem se abrir, que em algum momento havia parado, Thalia estreitou os olhos turvos.
Sua carruagem, que ocupava a parte mais traseira da procissão, por algum motivo havia sido movida para a parte da frente e agora estava sob escolta intensiva do comandante dos cavaleiros imperiais.
Talvez ele tivesse sentido necessidade de monitorá-la pessoalmente para que ela não causasse mais problemas.
Varkas entrou na carruagem e se inclinou sobre ela, que estava estirada.
Ela sentiu dedos frios afastarem algumas mechas de cabelo grudadas em sua testa suada.
— Use o incenso com moderação. Se continuar usando assim, desenvolverá tolerância rapidamente.
— ...
Ela olhou para o seu rosto como se encarasse uma tarefa antiga abandonada há muito tempo.
O homem, que permanecera em silêncio como se esperasse sua reação, soltou um leve suspiro.
— Vamos acampar aqui esta noite.
O sol já havia se posto, e a carruagem estava parada, então naturalmente passariam a noite ali.
Ela não fazia ideia do por que ele estava explicando algo que não precisava ser explicado.
Ele não era justamente um homem que permanecia calado até quando precisava falar?
