O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 49

Capítulo 49

Tradução: Emma

Capítulo 49


O que havia de tão estranho em acordar no meio da noite para que ela tivesse se assustado daquela forma?

Respirou fundo, tentando desesperadamente acalmar o coração que batia violentamente.

Mas a sensação de sufocamento só se tornava mais intensa.

Thalia, que forçava o ar a passar por suas vias respiratórias estreitas com dificuldade, não suportou o abafamento e se levantou.

A perna imobilizada latejava de dor, mas ela estava à beira de perder o fôlego, então não tinha espaço para pensar em mais nada.

Thalia desceu da carruagem quase tropeçando, abriu a boca para puxar ar e cambaleou para frente.

Não demorou muito até avistar uma luz de fogueira tremeluzindo não muito longe.

Sentindo um profundo alívio se percorrer o seu peito, arrastou a perna rígida e trêmula e se aproximou da grande tenda diante da qual uma fogueira havia sido acesa.

Foi então que uma voz animada, carregada de zombaria, veio junto com o vento.

— Ela foi atingida por punição divina.

Thalia parou abruptamente.

Uma mulher sentada diante do fogo cutucava a lenha com um galho comprido enquanto tagarelava alto.

— Todos sabem, não sabem? Aquela mulher amaldiçoou sua alteza, a primeira princesa. E ainda por cima invadiu o banquete de aniversário de sua alteza e causou um escândalo!

A voz da criada se elevou em excitação.

Thalia observou cuidadosamente o rosto iluminado pelas chamas.

Como as feições da mulher não lhe eram familiares, ela parecia ser alguém que servia Ayla ou Gareth.

A criada, que havia erguido uma taça de vinho e umedeceu os lábios por um instante, voltou a falar animadamente.

— Certamente Deus a puniu. A própria maldição se voltou contra ela, então é a única causadora disso com consigo mesma!

— Ouvi dizer que ela pode ficar aleijada. É verdade?

— Dizem que é muito provável! Ouvi de uma criada que serve a segunda princesa. Aparentemente, os ossos da sua perna foram completamente despedaçados, então tiveram que juntá-los por horas como um quebra-cabeça.

Thalia vacilou e baixou o olhar para a própria perna.

A voz da mulher diminuiu um pouco.

— Ouvi dizer que também ficou com uma cicatriz horrível no corpo. Dizem que a pele ficou completamente deformada, então nem magia consegue remover direito. Está toda vermelha e manchada, e aparentemente é horrivelmente nojento.

— Então não teremos mais que ver aquela mulher andando pelo palácio imperial como se pudesse fazer o que quisesse.

— Acho que não. A única coisa da qual se orgulhava foi destruída! Como poderá agir arrogantemente igual antes com um corpo desse jeito?

Risadas debochadas explodiram aqui e ali, como se achassem que ela merecia aquilo.

Thalia, que estava parada ali congelada, arrastou a perna e se aproximou por trás da mulher.

Os rostos daqueles que notaram sua sombra ficaram mortalmente pálidos.

Mas a mulher, que continuava tagarelando animadamente, ainda não havia percebido sua presença.

A mulher continuou falando sem parar.

— Agora as chances dela se casar praticamente acabaram também. Que família aceitaria uma mulher nascida bastarda e ainda por cima aleijada... Aaah!

A mulher, que teve os cabelos agarrados de repente, soltou um grito estridente.

Thalia não deu atenção e puxou cruelmente a trança apertada.

A pele da mulher ficou branca de choque e terror quando reconheceu o rosto de Thalia.

Olhando para ela de cima, Thalia ergueu levemente o canto da boca.

— Por quê? Por que não continua falando?

— V-Vossa alteza...

— O que há de tão assustador em uma mulher nascida bastarda e ainda por cima aleijada para você estar tremendo tanto?

Os olhos da mulher se arregalaram.

Um soluço áspero escapou dos lábios que até poucos instantes atrás sorriam.

— E-Eu estava errada, sua alteza. C-cometi um pecado muito grave...

— Que pecado cometeu?

— E-Eu...

A mulher, com os lábios trêmulos, lutou para continuar falando.

— D-disse palavras de blasfêmia e i-insultei sua alteza, a princesa. P-por favor, com sua generosidade, m-me perdoe...

— Se fez algo errado, deve ser punida. Por que está pensando primeiro em ser perdoada?

A pele da mulher agora estava quase pálida.

Thalia encarou aquele rosto pálido, então virou a cabeça e passou lentamente o olhar sobre os reunidos ao redor da fogueira.

As criadas, congeladas como ratos diante de uma cobra, se prostraram no chão.

Entre elas, Thalia avistou um cavaleiro rigidamente tenso e fez um leve gesto com o queixo.

— Você, venha aqui.

O cavaleiro, que hesitou por um momento, aproximou-se com passos relutantes.

Thalia puxou os cabelos que segurava para baixo e fez a mulher se ajoelhar diante do cavaleiro.

— Ela insultou um membro da família imperial com essa língua, então deve pagar o preço. Agora, apresse-se, saque sua espada e cumpra seu dever.

Os ombros do cavaleiro endureceram visivelmente.

A mulher agora soluçava como se fosse parar de respirar.

O cavaleiro, que a observava com uma expressão sombria, colocou uma mão sobre o peito e se curvou profundamente.

— Sua alteza, no momento estamos com falta de pessoal apenas preparando os funerais e cuidando dos feridos. Se realizarmos uma execução em um momento como este, surgirão tumultos e inquietações desnecessárias. Então, por favor, acalme sua ira e...

— Está dizendo que vai desobedecer minha ordem agora mesmo?

O cavaleiro, mantendo a boca firmemente fechada, abaixou ainda mais a cabeça.

Diante daquele silêncio de concordância, Thalia soltou uma risada incrédula antes de distorcer o rosto.

— Se não consegue fazer isso, então o farei.

Thalia jogou os cabelos da mulher para o lado como se os arremessasse e avançou contra o cavaleiro.

Assustado pela ação inesperada, o homem segurou seus ombros por reflexo.

Thalia lançou-lhe um olhar cheio de fúria.

— Como ousa tocar no meu corpo como bem entende!

O homem soltou as mãos rapidamente, como se tivesse tocado fogo.

Sem perder aquela abertura, Thalia agarrou a empunhadura da espada presa à cintura dele.

No entanto, a espada longa usada pelos cavaleiros era mais pesada do que ela esperava, e sua perna havia ficado tão fraca que já não conseguia sustentar completamente o próprio peso.

Quando Thalia puxou a espada, perdeu o equilíbrio e caiu no chão.

Um silêncio terrível caiu sobre aquela desgraça humilhante.

Thalia agarrou a perna trêmula e ergueu o olhar.

Os rostos rígidos do cavaleiro e das criadas preenchiam sua visão.

Velhas memórias atravessaram sua mente.

Dezenas de pares de olhos frios a olhando enquanto permanecia caída sobre o próprio vômito.

A vergonha, a humilhação e o medo primitivo daquele dia reviveram e queimaram seu cérebro.

Ela apoiou as mãos trêmulas no chão e ergueu abruptamente a parte superior do corpo.

Queria se levantar dali e recuperar sua dignidade e autoridade como princesa, mas sua perna não se movia.

Thalia, que tentava desesperadamente endireitar a perna que não a obedecia como desejava, encontrou a mulher a olhando fixamente bem ao seu lado e endureceu o rosto.

A mulher que havia zombado dela agora a observava rastejando pelo chão.

Ela não podia tolerar aquilo.

Thalia apalpou o chão e pegou um pedaço de lenha da fogueira.

O calor ardente parecia queimar seus dedos, mas a dor física jamais poderia ser maior do que a dor causada pelo orgulho esmagado.

Ela golpeou o rosto da mulher com a lenha em brasa.

Um grito agudo explodiu.

Não satisfeita com isso, estava prestes a balançar a lenha mais uma vez quando uma sombra negra saltou da escuridão e tomou seu corpo nos braços.

Thalia lutou como uma fera enfurecida.

Então sentiu um cheiro familiar e interrompeu todos os movimentos.

Varkas, que a havia erguido facilmente com um braço, a olhava com olhos frios.

Presa por aquele olhar, ela arfou pesadamente, e ele tomou a lenha de sua mão e a lançou para longe.

Assim como havia tirado a faca dela antes, mais uma vez roubara sua arma.

O ressentimento transbordou.

Aquele homem nunca ficava do seu lado.

Não lutaria por ela, mas também não a deixaria sequer se proteger sozinha.