Tradução: Emma
Capítulo 49
O que havia de tão estranho em acordar no meio da noite para que ela tivesse se assustado daquela forma?
Respirou fundo, tentando desesperadamente acalmar o coração que batia violentamente.
Mas a sensação de sufocamento só se tornava mais intensa.
Thalia, que forçava o ar a passar por suas vias respiratórias estreitas com dificuldade, não suportou o abafamento e se levantou.
A perna imobilizada latejava de dor, mas ela estava à beira de perder o fôlego, então não tinha espaço para pensar em mais nada.
Thalia desceu da carruagem quase tropeçando, abriu a boca para puxar ar e cambaleou para frente.
Não demorou muito até avistar uma luz de fogueira tremeluzindo não muito longe.
Sentindo um profundo alívio se percorrer o seu peito, arrastou a perna rígida e trêmula e se aproximou da grande tenda diante da qual uma fogueira havia sido acesa.
Foi então que uma voz animada, carregada de zombaria, veio junto com o vento.
— Ela foi atingida por punição divina.
Thalia parou abruptamente.
Uma mulher sentada diante do fogo cutucava a lenha com um galho comprido enquanto tagarelava alto.
— Todos sabem, não sabem? Aquela mulher amaldiçoou sua alteza, a primeira princesa. E ainda por cima invadiu o banquete de aniversário de sua alteza e causou um escândalo!
A voz da criada se elevou em excitação.
Thalia observou cuidadosamente o rosto iluminado pelas chamas.
Como as feições da mulher não lhe eram familiares, ela parecia ser alguém que servia Ayla ou Gareth.
A criada, que havia erguido uma taça de vinho e umedeceu os lábios por um instante, voltou a falar animadamente.
— Certamente Deus a puniu. A própria maldição se voltou contra ela, então é a única causadora disso com consigo mesma!
— Ouvi dizer que ela pode ficar aleijada. É verdade?
— Dizem que é muito provável! Ouvi de uma criada que serve a segunda princesa. Aparentemente, os ossos da sua perna foram completamente despedaçados, então tiveram que juntá-los por horas como um quebra-cabeça.
Thalia vacilou e baixou o olhar para a própria perna.
A voz da mulher diminuiu um pouco.
— Ouvi dizer que também ficou com uma cicatriz horrível no corpo. Dizem que a pele ficou completamente deformada, então nem magia consegue remover direito. Está toda vermelha e manchada, e aparentemente é horrivelmente nojento.
— Então não teremos mais que ver aquela mulher andando pelo palácio imperial como se pudesse fazer o que quisesse.
— Acho que não. A única coisa da qual se orgulhava foi destruída! Como poderá agir arrogantemente igual antes com um corpo desse jeito?
Risadas debochadas explodiram aqui e ali, como se achassem que ela merecia aquilo.
Thalia, que estava parada ali congelada, arrastou a perna e se aproximou por trás da mulher.
Os rostos daqueles que notaram sua sombra ficaram mortalmente pálidos.
Mas a mulher, que continuava tagarelando animadamente, ainda não havia percebido sua presença.
A mulher continuou falando sem parar.
— Agora as chances dela se casar praticamente acabaram também. Que família aceitaria uma mulher nascida bastarda e ainda por cima aleijada... Aaah!
A mulher, que teve os cabelos agarrados de repente, soltou um grito estridente.
Thalia não deu atenção e puxou cruelmente a trança apertada.
A pele da mulher ficou branca de choque e terror quando reconheceu o rosto de Thalia.
Olhando para ela de cima, Thalia ergueu levemente o canto da boca.
— Por quê? Por que não continua falando?
— V-Vossa alteza...
— O que há de tão assustador em uma mulher nascida bastarda e ainda por cima aleijada para você estar tremendo tanto?
Os olhos da mulher se arregalaram.
Um soluço áspero escapou dos lábios que até poucos instantes atrás sorriam.
— E-Eu estava errada, sua alteza. C-cometi um pecado muito grave...
— Que pecado cometeu?
— E-Eu...
A mulher, com os lábios trêmulos, lutou para continuar falando.
— D-disse palavras de blasfêmia e i-insultei sua alteza, a princesa. P-por favor, com sua generosidade, m-me perdoe...
— Se fez algo errado, deve ser punida. Por que está pensando primeiro em ser perdoada?
A pele da mulher agora estava quase pálida.
Thalia encarou aquele rosto pálido, então virou a cabeça e passou lentamente o olhar sobre os reunidos ao redor da fogueira.
As criadas, congeladas como ratos diante de uma cobra, se prostraram no chão.
Entre elas, Thalia avistou um cavaleiro rigidamente tenso e fez um leve gesto com o queixo.
— Você, venha aqui.
O cavaleiro, que hesitou por um momento, aproximou-se com passos relutantes.
Thalia puxou os cabelos que segurava para baixo e fez a mulher se ajoelhar diante do cavaleiro.
— Ela insultou um membro da família imperial com essa língua, então deve pagar o preço. Agora, apresse-se, saque sua espada e cumpra seu dever.
Os ombros do cavaleiro endureceram visivelmente.
A mulher agora soluçava como se fosse parar de respirar.
O cavaleiro, que a observava com uma expressão sombria, colocou uma mão sobre o peito e se curvou profundamente.
— Sua alteza, no momento estamos com falta de pessoal apenas preparando os funerais e cuidando dos feridos. Se realizarmos uma execução em um momento como este, surgirão tumultos e inquietações desnecessárias. Então, por favor, acalme sua ira e...
— Está dizendo que vai desobedecer minha ordem agora mesmo?
O cavaleiro, mantendo a boca firmemente fechada, abaixou ainda mais a cabeça.
Diante daquele silêncio de concordância, Thalia soltou uma risada incrédula antes de distorcer o rosto.
— Se não consegue fazer isso, então o farei.
Thalia jogou os cabelos da mulher para o lado como se os arremessasse e avançou contra o cavaleiro.
Assustado pela ação inesperada, o homem segurou seus ombros por reflexo.
Thalia lançou-lhe um olhar cheio de fúria.
— Como ousa tocar no meu corpo como bem entende!
O homem soltou as mãos rapidamente, como se tivesse tocado fogo.
Sem perder aquela abertura, Thalia agarrou a empunhadura da espada presa à cintura dele.
No entanto, a espada longa usada pelos cavaleiros era mais pesada do que ela esperava, e sua perna havia ficado tão fraca que já não conseguia sustentar completamente o próprio peso.
Quando Thalia puxou a espada, perdeu o equilíbrio e caiu no chão.
Um silêncio terrível caiu sobre aquela desgraça humilhante.
Thalia agarrou a perna trêmula e ergueu o olhar.
Os rostos rígidos do cavaleiro e das criadas preenchiam sua visão.
Velhas memórias atravessaram sua mente.
Dezenas de pares de olhos frios a olhando enquanto permanecia caída sobre o próprio vômito.
A vergonha, a humilhação e o medo primitivo daquele dia reviveram e queimaram seu cérebro.
Ela apoiou as mãos trêmulas no chão e ergueu abruptamente a parte superior do corpo.
Queria se levantar dali e recuperar sua dignidade e autoridade como princesa, mas sua perna não se movia.
Thalia, que tentava desesperadamente endireitar a perna que não a obedecia como desejava, encontrou a mulher a olhando fixamente bem ao seu lado e endureceu o rosto.
A mulher que havia zombado dela agora a observava rastejando pelo chão.
Ela não podia tolerar aquilo.
Thalia apalpou o chão e pegou um pedaço de lenha da fogueira.
O calor ardente parecia queimar seus dedos, mas a dor física jamais poderia ser maior do que a dor causada pelo orgulho esmagado.
Ela golpeou o rosto da mulher com a lenha em brasa.
Um grito agudo explodiu.
Não satisfeita com isso, estava prestes a balançar a lenha mais uma vez quando uma sombra negra saltou da escuridão e tomou seu corpo nos braços.
Thalia lutou como uma fera enfurecida.
Então sentiu um cheiro familiar e interrompeu todos os movimentos.
Varkas, que a havia erguido facilmente com um braço, a olhava com olhos frios.
Presa por aquele olhar, ela arfou pesadamente, e ele tomou a lenha de sua mão e a lançou para longe.
Assim como havia tirado a faca dela antes, mais uma vez roubara sua arma.
O ressentimento transbordou.
Aquele homem nunca ficava do seu lado.
Não lutaria por ela, mas também não a deixaria sequer se proteger sozinha.
