Tradução: Emma
Capítulo 51
Ela se lembrava dos dias em que reunia cada palavra que saía da boca dele como se fossem joias, virando-as repetidas vezes dentro da própria mente.
Até mesmo palavras afiadas como adagas, ela gravava no coração e as acariciava varias vezes.
Mas agora não queria mais se machucar. Estava cansada de atribuir significados especiais às suas ações e palavras triviais, apenas para acabar decepcionada.
Já não era mais uma adolescente tola e havia aprendido completamente que Thalia Roem Gurta não significava nada para ele.
Lutando para não se agarrar aos braços firmes que a erguiam cuidadosamente, ela cortou impiedosamente as asas daquela esperança tola.
No fim, a razão dele fazer aquilo por ela não passava de um senso de responsabilidade.
Ele era um homem que ela havia observado e analisado por mais de dez anos, dissecando-o centenas de vezes dentro da própria cabeça. Sabia perfeitamente por quais princípios ele se guiava.
Independentemente do quanto estivesse cansado e farto de Thalia Roem Gurta, para ele, ela ainda era alguém que precisava ser protegida. Mesmo que não fosse tão importante quanto Gareth ou Ayla, não era alguém que pudesse simplesmente deixar se destruir completamente.
Para um homem que vivia apenas para cumprir os deveres impostos a ele, fracassar em suas responsabilidades naturalmente o faria sentir-se em dívida.
— Vou mandar prepararem uma refeição.
Varkas, que em algum momento havia entrado na tenda escura, disse isso enquanto a deitava sobre a cama.
Thalia, que estava perdida em pensamentos, abaixou os olhos para as próprias pernas. Talvez o efeito do remédio já estivesse passando, porque uma sensação de formigamento começou a se espalhar das suas canelas até a pélvis.
— Esqueça a comida. Apenas acenda o incenso.
— Depois que comer.
Uma voz firme soou acima da sua cabeça.
Ela colocou força nos olhos embaçados e lançou um olhar furioso para ele. Mas Varkas já havia se virado e dava alguma instrução a um escudeiro.
Queria jogar um travesseiro naquela costa irritante, mas seus braços e pernas pareciam algodão encharcado de água, pesados demais para mover sequer um centímetro. No fim, desistiu de ficar irritada e enterrou o rosto no cobertor que cheirava a madeira aromática e folhas de hortelã.
Pouco tempo depois, Varkas retornou carregando uma tigela de mingau. Thalia pegou a colher de má vontade. O simples ato de forçar algo para dentro do estômago parecia uma tortura, mas se não fingisse ao menos comer um pouco, aquele homem detestável jamais permitiria que o incenso fosse aceso.
Incapaz de suportar a dor que piorava cada vez mais, ela empurrou para dentro da boca a mistura azul-esverdeada cheia de ervas e ingredientes estranhos.
— Agora já basta, não é?
Quando largou a tigela meio vazia como se estivesse arremessando, o homem que permanecera parado como um guarda observando-a comer analisou a tigela como se estivesse inspecionando algo.
Thalia acrescentou impaciente:
— Eu comi. O que mais quer de mim?!
Varkas observou por um instante o seu rosto, onde suor frio já começava a surgir por causa da dor, então se virou e ordenou ao atendente que trouxesse o queimador de incenso.
Mais uma vez, a fumaça pálida invadiu sua mente. Sentindo a dor diminuir gradualmente, Thalia relaxou o corpo.
Era como se tivesse entrado dentro de uma nuvem fria. Até mesmo a presença do homem, que arranhava seus nervos como uma lâmina, foi desaparecendo lentamente.
Quanto tempo ficou deitada ali, embriagada por aquela sensação entorpecedora, até que uma sombra desagradável surgiu em sua visão borrada?
Thalia colocou força nos olhos desfocados e a olhou atentamente. A elegante silhueta de uma mulher parada contra a luz do pôr do sol marcou sua retina. Apenas um instante depois percebeu que aquela figura era sua nobre meia-irmã.
Thalia observou o rosto rígido dela como se encarasse um ornamento dentro de um armário. Talvez algo desagradável tivesse acontecido, pois pequenas rachaduras haviam surgido naquela expressão impecável, refinada como porcelana.
Uma leve curiosidade despertou nela. Aquela era uma mulher que raramente perdia a compostura, não importava o quanto Thalia tentasse atormentá-la. O que poderia tê-la deixado tão pálida?
— Eu sei que se sente responsável por esta situação. Mas é o meu noivo. Não é apropriado manter aquela criança hospedada na sua tenda assim...
A voz suave de Ayla infiltrou-se nos ouvidos abafados de Thalia, como se eles estivessem cheios de água.
Thalia franziu a testa. Mais do que o conteúdo das palavras, era a suavidade daquela voz que irritava seus nervos.
Aquela mulher conseguia parecer refinada até mesmo quando estava irritada?
Para Thalia, que só conseguia se sentir satisfeita depois de despejar todas as emoções para fora, aquilo era um nível de contenção impossível de imitar. Talvez seja exatamente por isso que odiava Ayla ainda mais.
Era terrível que aquela mulher, dona de virtudes que ela sequer conseguia reproduzir, fosse sua meia-irmã. Se não tivesse sido colocada numa posição onde precisava ser constantemente comparada a ela, talvez pudesse odiá-la menos do que agora.
Ela continuou falando:
— Se é porque está preocupado em deixar aquela criança sozinha, eu posso levá-la para meus aposentos. Assim não precisará mais se preocupar...
— Existe alguém que colocaria uma cobra e um gato selvagem na mesma jaula?
Uma voz seca, carregada de cansaço, interrompeu as palavras da princesa.
Thalia moveu os olhos e encarou Varkas, que estava apoiado com um ombro contra uma das colunas da tenda.
Para alguém que sempre mantinha a postura perfeitamente ereta, era raro vê-lo apoiado daquele jeito. Será que ele ficou ali dentro todo o tempo em que ela inalava o remédio? Se fosse isso, era surpreendente que continuasse parecendo tão perfeitamente normal. Ela mesma mal conseguia manter os olhos abertos.
— Está me comparando a animais tão inferiores? — a voz de Ayla tornou-se um pouco mais afiada.
Thalia colocou mais força nos olhos. Queria ver pessoalmente a expressão de Ayla se distorcer. Mas Varkas, que havia endireitado a postura, bloqueou sua visão com os ombros largos.
Logo depois, uma voz fria soou:
— Não é óbvio o que acontecerá se sua alteza, a segunda princesa, ficar nos seus aposentos?
Depois de soltar um baixo suspiro, acrescentou em um tom levemente cínico:
— Ou deseja ver todas aquelas criadas que tanto preza terem suas cabeças arrancadas?
Como se tivesse ficado sem palavras, Ayla fechou a boca.
Thalia encarou distraidamente as costas dele, mergulhadas em sombras profundas.
Então ele realmente estava me observando. Me manteve por perto para que eu não causasse mais problemas.
Ela não esperava nada desde o começo. Então não deveria haver decepção alguma.
Então por que estava sentindo dor outra vez?
Enojada de si mesma, fechou os olhos.
No instante em que soltou o fio de consciência ao qual vinha se agarrando desesperadamente, os sons irritantes desapareceram rapidamente. Parecia que estava afundando em águas profundas. Voluntariamente, deixou-se afundar naquele mundo de inconsciência.
Durante vários dias, o calor sufocante continuou.
Para aqueles que precisavam viajar carregando dezenas de cadáveres, aquilo era nada menos do que um desastre.
Para impedir a decomposição, sal de purificação e ervas secas eram colocados dentro dos corpos, enquanto mirra e esmalte eram aplicados sobre a pele acinzentada. Ainda assim, conforme os dias passavam, um odor estranho começou a escapar dos caixões.
Naturalmente, os rostos daqueles que participavam da marcha tornaram-se sombrios como os de mortos. Apoiando-se na carruagem enquanto observava aquela cena, Thalia de repente se lembrou da oração que fizera ao deixar o palácio imperial: que aquela procissão seguisse rumo ao inferno.
Será que Deus ouviu a minha oração?
Ou Ele me puniu?
Enquanto se perdia nesses pensamentos, acariciando distraidamente os joelhos doloridos, o som de um apito ecoou ao longe.
Estreitou os olhos ofuscados e olhou além da colina. Sob a suave inclinação iluminada pela luz escaldante do sol, podia ver grandes muralhas cinzentas se erguendo ao longe.
Aquela jornada miserável e sombria, que parecia nunca ter fim, finalmente havia chegado ao fim.
