O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 5

Capítulo 5

Tradução: Emma

Capítulo 05


— Realmente parece incapaz de entender que existem limites que não devem ser ultrapassados.

Varkas falou com sua habitual voz monótona.

Mas seu belo rosto havia endurecido de forma feroz, como se sua paciência tivesse sido completamente esgotada.

Thalia tentou soltar o seu braço da mão dele.

Mas o aperto forte do cavaleiro treinado era como uma algema.

Varkas, parado diante do príncipe herdeiro e de Ayla como um escudo fiel, puxou Thalia ainda mais para perto e cuspiu as palavras em seu rosto como se as mastigasse.

— O quão fundo pretende ir, até estar satisfeita? Mostrar a todos o seu pior lado ainda não foi o bastante para você?

— Mostrei a todos o meu pior lado?

Thalia ergueu o queixo o mais alto que conseguiu e soltou um riso sarcástico.

— Nobre lorde Siarkan, acha mesmo que tem o menor conhecimento sobre o fundo do poço da alma humana? Não aja como se fosse superior.

Ela se aproximou dele e exibiu um sorriso estranho e sensual.

Diferente dos outros homens, que ficavam desnorteados apenas com seu olhar e perfume, Varkas não demonstrou sequer o menor sinal de perturbação.

Os olhos dele apenas pareciam cansados e enojados dela.

Thalia sentiu vontade de cravar as unhas que cuidadosamente afiava todas as noites naqueles olhos gelados.

— Do lugar de onde está, devo parecer muito miserável. Mas ainda estou longe de alcançar o pior.

Ela falou olhando diretamente nos olhos do homem.

Um abismo profundo parecia estar oculto dentro deles.

Aquele homem logo a empurraria para dentro dele.

Se fosse assim, antes de cair, ao menos deixaria marcas de unhas profundas em seus futuros.

Somente assim seria justo.

Os olhos azul-escuros de Thalia brilhavam ferozmente cheios de veneno.

Uma luz perigosa também surgiu nos olhos de Varkas enquanto observava aquele rosto malicioso.

Enquanto se encaravam como se fossem matar um ao outro, uma voz extremamente frágil surgiu atrás dele.

— Varkas.

O homem, que encarava Thalia como se fosse atravessá-la com o olhar, imediatamente se virou para sua noiva.

Ayla tinha uma expressão tão triste que fazia o coração de qualquer um apertar.

Ela puxou cuidadosamente a manga do casaco de Varkas com as pontas dos dedos e falou em tom suplicante:

— Eu… quero trocar de roupa. Pode me tirar daqui?

— …Como desejar.

Varkas envolveu os ombros de Ayla com um braço e simplesmente se afastou.

Como se a existência de Thalia tivesse sido completamente apagada de sua mente, ele sequer olhou para trás enquanto deixava o salão de banquetes ao lado da noiva.

Thalia sentiu a loucura que a dominava desaparecer de uma só vez.

Desespero, dor e ciúme preencheram o vazio deixado por ela.

Mas mesmo em meio à dor que parecia apodrecer suas entranhas, ela fingiu estar composta.

Com um sorriso triunfante convincente, como se tivesse vencido, Thalia caminhou até o terraço onde vinho e comida estavam dispostos.

Então as pessoas se afastaram às pressas, como se evitassem algo desagradável.

Ela não lhes deu atenção e pegou outra taça de vinho com um movimento elegante.

Mas antes que pudesse dar sequer dois goles, conde Serian, que observava a confusão de longe, aproximou-se apressadamente e arrancou a taça de sua mão.

— É melhor que sua alteza deixe o salão imediatamente.

— Por quê?

Perguntou calmamente enquanto alcançava um prato de romãs.

— Por acaso não ouviu a sua alteza, a primeira princesa, me dizer para aproveitar o banquete à vontade? Ainda não me diverti o suficiente.

— Realmente admiro a coragem de sua alteza, mas atrás da senhorita há uma besta perigosa encarando-a como se estivesse prestes a avançar a qualquer momento.

O conde indicou o príncipe herdeiro com os olhos.

Como ele dissera, Gareth parecia prestes a sacar uma espada a qualquer instante.

Veias grossas saltavam tensas em seu pescoço bronzeado pelo sol, e os músculos cerrados de sua mandíbula tremiam levemente.

Era evidente que ele estava se segurando no limite para não explodir.

Normalmente, Thalia teria provocado ainda mais aquele irmão até fazê-lo cometer alguma atrocidade terrível, mas agora ela não tinha energia para isso.

Thalia abandonou a pose corajosa e segurou o braço de conde Serian.

Numa velocidade rápida o bastante para não parecer que estavam fugindo, ele a conduziu rapidamente para fora do salão.

Uma carruagem já a aguardava diante do jardim.

Quando o cavaleiro da guarda abriu a porta como se estivesse esperando por aquilo, Thalia subiu no estribo e entrou.

Então, justamente quando ia afundar no assento macio, alguém a empurrou brutalmente o seu corpo.

Thalia caiu no chão da carruagem e ergueu o olhar.

Gareth, que havia empurrado o cavaleiro da guarda e enfiado a cabeça dentro da carruagem, a encarava com um olhar assassino.

— Estamos suportando sua existência por muito tempo.

Ele rosnou enquanto envolvia sua garganta com uma mão áspera e calejada.

O cavaleiro da guarda não conseguia tocar no príncipe herdeiro e apenas gritava perguntando o que ele estava fazendo.

Gareth ignorou completamente o cavaleiro desesperado e apertou ainda mais o pescoço dela com as duas mãos.

Instintivamente, Thalia debateu as pernas e cravou as unhas no dorso das mãos do irmão, onde os tendões saltavam.

Mas, tomado pela raiva, ele parecia incapaz até mesmo de sentir dor.

Gareth cuspiu as palavras em seu ouvido como se as mastigasse.

— Por muito tempo. Nós suportamos, de novo e de novo.

Os olhos verde-vivos do príncipe herdeiro brilhavam como chamas.

— Então não precisa continuar nos importunando, irmãzinha. Nós já a odiamos o bastante…

Por fim, Gareth soltou sua garganta e se endireitou.

Thalia levou ambas as mãos ao pescoço e puxou o ar violentamente.

Como a tosse não parava de escapar, respirar não era fácil.

Enquanto arfava com o rosto completamente vermelho, a voz sinistra do príncipe herdeiro perfurou seus ouvidos.

— Lembre-se disso. Sua mãe desfilando por aí, e uma bastarda imunda como você causando confusão pelo palácio imperial, tudo isso é apenas temporário.

Então, gentil o bastante, fechou a porta por conta própria da carruagem antes de partir.

Quando Thalia tentou se levantar cambaleando, percebeu que duas das unhas que cuidadosamente afiava haviam quebrado, e franziu a testa.

Sangue viscoso havia se acumulado nas pontas rachadas das unhas.

Acariciou-as com carinho e murmurou com a voz rouca:

— …Vou ter que deixá-las crescer novamente.

Desta vez, vou afiá-las ainda mais.

Até que possam perfurar os ossos.

Uma risada ofegante escapou de seus lábios com o ar vazando.

Nem ela mesma sabia por que estava rindo.

O inútil cavaleiro da guarda, que havia aberto apressadamente a porta para verificar se estava bem, a olhou com uma expressão atônita.

Aos olhos dele, ela parecia completamente insana.

Talvez aquilo estivesse correto.

Eu devo ter enlouquecido há muito tempo.

Ela se deitou no chão escuro da carruagem e ficou rindo baixinho por um longo tempo.

Todo o palácio imperial estava em alvoroço.

Dentro de alguns dias, a primeira princesa e o príncipe herdeiro partiriam em peregrinação.

Era um costume que os descendentes de Darian, o grande imperador que unificou os Dez Reinos em um só, precisavam cumprir após alcançarem a vida adulta.

Normalmente, as mulheres partiam antes do casamento, e os homens após completarem vinte anos.

Mas, por insistência do príncipe herdeiro — que afirmava ser natural que duas pessoas nascidas no mesmo dia e na mesma hora recebessem a bênção divina juntas —, bagagens para ambos foram preparadas.

E, para escoltar as duas pessoas de maior posição no Império depois do imperador e da imperatriz, uma unidade de elite dos cavaleiros do palácio imperial foi mobilizada.

Naturalmente, quem recebeu o comando geral da expedição foi Varkas, que ocupava a posição de comandante da guarda.

Graças a isso, Thalia frequentemente conseguia vê-lo se movimentando atarefado pelo pátio do castelo através da janela do palácio isolado.

Hoje também, ele verificava o estado das armas, dos cavalos e dos diversos equipamentos de viagem enquanto era molhado pela chuva fina.

Thalia permaneceu debruçada sobre a janela observando-o sem sequer piscar.

Varkas ergueu a cabeça e olhou para o céu, como se tentasse calcular as horas.

A visão da chuva prateada cobrindo suavemente seu rosto preencheu completamente os olhos dela.

O dia em que se apaixonou por ele também havia sido chuvoso assim.

Thalia relembrou aquele dia.