Tradução: Emma
Capítulo 39
Num instante, Varkas chegou diante da carruagem e a colocou no assento como se a tivesse jogado.
Thalia esfregou o traseiro dolorido e lançou-lhe um olhar cheio de ressentimento.
Então congelou ao ver seu rosto endurecido de maneira perigosa.
Varkas, que a observava de cima com uma expressão como se sua paciência tivesse chegado ao limite, falou como se estivesse rangendo as palavras entre os dentes.
— Eu não avisei para que você não causasse mais problemas desnecessários?
Após hesitar por um momento, Thalia lançou-lhe um olhar desafiador.
— E por que eu deveria te ouvir? Quem você pensa que é?
— Certamente sou algo mais do que alguém que uma princesa apenas no nome. — Essa resposta de Varkas foi acompanhada por um sorriso frio e sarcástico.
Thalia se enfureceu e levantou em um salto.
Sentia que não conseguiria suportar aquilo sem estapear aquele rosto arrogante.
Mas Varkas foi mais rápido.
Inclinando-se sobre ela, Varkas bloqueou o movimento de ambos os seus braços e a encarou com olhos frios.
Aquele olhar gélido, sem o menor traço de pena, percorreu sua bochecha, onde vasos sanguíneos haviam se rompido, e seu pescoço, que certamente estava coberto de hematomas escuros.
Um suspiro escapou de seus lábios, como se estivesse exausto dela.
— Realmente está agindo assim porque não entende nada? Ninguém aqui irá protegê-la ativamente. Se Sua Alteza Imperial, o Príncipe Herdeiro, realmente decidir tirar sua vida, ninguém poderá garantir sua proteção.
— Por que se importa? — Thalia gritou de forma cortante. — Você não é a pessoa que mais ficaria aliviada se eu desaparecesse desse mundo?!
— Sou incapaz de negar isso.
Mesmo esta sendo exatamente a resposta que esperava, Thalia sentiu dor florecer em seu peito, como se seu coração estivesse sangrando.
Ele continuou com uma voz cruelmente calma.
— Mas não posso permitir que a posição de Sua Alteza Imperial, o Príncipe Herdeiro, seja colocada em risco por sua causa. Então, se deseja se machucar, faça isso com suas próprias mãos.
Thalia forçou firmeza em seus olhos, que começavam a arder.
Ele se endireitou lentamente.
O rosto que estava tenso voltou a ser coberto pela máscara sólida de um cavaleiro.
Ele acrescentou em um tom profissional:
— Por enquanto, chamarei um curandeiro. Recupere-se e depois descanse.
Thalia respondeu pegando a taça que estava caída no chão e arremessando-a nele.
A taça de prata atingiu seu peito e rolou pelo chão.
Depois de lançar-lhe um olhar frio, como se estivesse enojado, Varkas deixou a carruagem.
Thalia bateu a porta com força.
As lágrimas que ela havia se esforçado tanto para conter finalmente escorreram por suas bochechas.
Com medo de que até mesmo o som de seus soluços escapasse para fora, ela rapidamente cobriu a boca.
O soluço preso em sua garganta parecia capaz de sufocá-la.
Ela desejava que isso fosse o suficiente para que sufocasse de uma vez por todas.
No topo da Colina Ulgraam, erguia-se solitário apenas o templo branco que, diziam ter sido construído pelo imperador Darian para comemorar a independência de Osiria.
Os peregrinos paravam diante dele e contemplavam o magnífico edifício, brilhando em um branco puro, com admiração nos olhos.
Mesmo após tantos anos, o templo permanecia preservado quase perfeitamente.
Eles caíam em êxtase religioso ao observar as orações gravadas nas paredes e as estátuas de diversos heróis.
No entanto, o príncipe herdeiro parecia não sentir emoção alguma diante da relíquia deixada por seu ancestral.
Gareth saltou da sela e lançou um olhar indiferente para a entrada arqueada.
— Este é o segundo local sagrado?
— Sim, sua alteza imperial, o príncipe herdeiro.
Um dos atendentes respondeu em uma voz tensa.
Os atendentes, que sabiam muito bem que o humor dele havia atingido o seu ápice desde o dia anterior, observavam sua expressão com rostos intimidados.
Apenas Varkas mantinha sua habitual calma.
— Dizem que não há sacerdotes residentes aqui. Nós mesmos prepararemos a cerimônia.
Varkas aproximou-se do príncipe herdeiro e falou.
O príncipe herdeiro, que o encarava com uma estranha hostilidade nos olhos, virou-se bruscamente e respondeu:
— Então pare de enrolar e termine isso logo.
Assim que a ordem foi dada, os atendentes estacionaram as carruagens perto do templo e começaram a descarregar os volumes.
Os servos da primeira princesa e da segunda princesa, que haviam chegado depois, também se juntaram ao trabalho.
Enquanto os soldados montavam rapidamente as tendas, os criados retiravam dos baús os incensários, pratos sagrados, jarros de prata e castiçais que seriam usados na cerimônia e começavam a poli-los até que brilhassem.
Quando os preparativos gerais terminaram, as criadas imediatamente ajudaram o príncipe herdeiro e a primeira princesa a se vestirem.
Edric, que observava a cena de certa distância, aproximou-se da carruagem onde Thalia permanecia trancada.
Se ela fosse participar da cerimônia, já era hora de sugerir que também começasse a se preparar.
Mas, estranhamente, as palavras não saíam.
Ele encarou a porta firmemente fechada e coçou a nuca de maneira um tanto brusca.
Quando se lembrou da segunda princesa como a tinha visto na noite anterior, seu estômago se revirou desconfortavelmente.
Edric deixou o braço que havia levantado para bater, cair sem forças e olhou para a tenda do príncipe herdeiro, montada a certa distância.
Enquanto os criados colocavam uma grande tina diante da tenda, enchiam-na de água e acendiam uma fogueira, o príncipe herdeiro estava recostado em uma cadeira, bebendo vinho tranquilamente.
Aquela visão pacífica deixou um gosto amargo em sua boca.
Ele espancou a própria irmã daquele jeito e, ainda assim, não parece sentir a menor culpa.
Ele já tinha ouvido rumores de que o príncipe herdeiro batia na segunda princesa, mas jamais imaginara que fosse naquele nível.
Cerrou o punho ao recordar a visão daquela mulher de corpo frágil, que mal passava de um punhado de ossos, sendo atingida no rosto por um homem tão grande quanto uma montanha e lutando enquanto era estrangulada.
Foi uma sorte que Sir Siarkan estivesse por perto naquele momento, ou uma tragédia terrível poderia ter acontecido.
Edric olhou para a palma da mão úmida de suor frio e logo se virou.
De qualquer forma, Thalia Roem Gurta obviamente insistiria em não participar da cerimônia.
Não havia motivo para desperdiçar energia à toa.
Quando engoliu um suspiro pesado e estava prestes a seguir em direção ao templo, um som de chacoalhar veio atrás dele.
— Ei, você.
Edric se sobressaltou e virou a cabeça, arregalando os olhos ao ver Thalia parada na entrada da carruagem, com os braços cruzados.
A mulher, usando a mesma expressão arrogante de sempre, como se nada tivesse acontecido, desceu da carruagem e ergueu o queixo.
— Chame as criadas.
— ...Perdão?
Enquanto ele apenas piscava sem entender, a mulher lançou-lhe um olhar irritado.
— É feio, burro e surdo também? Eu vou me preparar, então chame as criadas imediatamente!
Edric ficou parado, atônito diante dos insultos verbais que jamais havia ouvido em toda a sua vida, mas logo se virou e reuniu as criadas pessoais que a imperatriz havia designado para ela.
Por algum motivo, ver Thalia dando-lhe ordens com tanta arrogância fez um suspiro de alívio escapar dele.
O curandeiro havia tratado seus ferimentos perfeitamente na noite anterior, mas como ela passara por uma provação tão dura depois de praticamente passar o dia inteiro sem comer, ele temera que ela acabasse doente na cama.
Felizmente, ela parecia bem.
Bem, claro.
Ela era uma mulher que sobrevivera por pouco e ainda assim zombara do príncipe herdeiro sem demonstrar o menor sinal de que iria recuar.
Não havia como seu espírito se quebrar tão facilmente.
Edric soltou uma risada vazia, depois ordenou aos criados que trouxessem água e disse aos seus subordinados para endireitarem os seus uniformes.
Já que a segunda princesa finalmente parecia disposta a participar da cerimônia tradicional da família imperial, ele pretendia servi-la adequadamente como seu guarda pessoal.
