O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 37

Capítulo 37

Tradução: Yumi

Capítulo 37


Thalia não conseguiu encontrar uma desculpa e apenas mexeu os lábios.

Queria adotar sua habitual postura descarada, mas, fisicamente e mentalmente, havia chegado ao limite e sua cabeça simplesmente não funcionava direito.

Puxou o capuz e escondeu rapidamente o rosto, que havia se desfeito da agitação.

Então, bem quando tentou passar pelo irmão que bloqueava a entrada, Gareth agarrou seu pulso com rapidez.

— Perguntei por que você estava vasculhando a tenda do Varkas.

— Me solta!

Ela sacudiu o braço com violência, mas a mão de Gareth grudou como cola e não se soltou.

Ele a puxou com brutalidade e rosnou como um lobo furioso.

— Me diz que tipo de truque sujo você estava tentando aprontar!

Diante do aperto que parecia esmagar seus ossos, Thalia mordeu o lábio.

Que bruto estúpido, bom só para a força.

Ela chutou a canela do irmão sem misericórdia.

Talvez ele ainda não estivesse usando armadura, pois Gareth murmurou uma praga e deu um pulo.

Sem desperdiçar a oportunidade, Thalia arrancou o braço rapidamente.

Então disparou para fora da tenda de Varkas e saiu correndo a toda.

Atrás dela, ouviu o barulho de coisas se quebrando sem parar, como se Gareth estivesse a perseguindo.

Mas Thalia não olhou para trás e correu freneticamente entre as tendas.

Logo, sua carruagem surgiu à vista.

Ela saltou para dentro, trancou a porta com firmeza e se encolheu no canto da carruagem.

A preocupação a invadiu de que Gareth, com a raiva borbulhando até a cabeça, tentasse destruir a carruagem.

No entanto, mesmo depois de um longo tempo, não havia nenhum sinal de alvoroço.

Parecia que ele havia parado de persegui-la por causa dos olhares ao redor.

Thalia soltou um suspiro de alívio e enterrou o rosto nos joelhos.

Então, de repente, tomada por repulsa, contorceu o rosto.

Estava farta de si mesma por agir como a maior tola do mundo.

Por que havia perdido a razão e ido verificar se ele estava bem?

Também a incomodava ter mostrado a Gareth um lado tão abalado emocionalmente.

Aquele homem não havia percebido nada, havia?

Thalia mordiscou os lábios e então espiou com cuidado pela janela.

Viu os cavaleiros desmontando as tendas.

Não pareciam ter notado o alvoroço que ela havia causado.

Thalia colou o rosto no vidro da janela e varreu o ambiente com os olhos, depois fechou a cortina novamente.

À medida que o céu clareava, os cavaleiros montaram nos cavalos e começaram a formar o cortejo.

Entre eles, ela conseguia ver Varkas também.

Thalia o observou às escondidas pela fresta da cortina enquanto ele inspecionava a linha de frente, como sempre fazia, mas se escondeu às pressas quando ele se aproximou da carruagem em que ela estava.

Será que Gareth havia lhe contado algo e ele estava vindo questioná-la?

Enquanto espremia todo tipo de desculpa na cabeça, Varkas parou perto da carruagem, deu algumas instruções aos cavaleiros e então voltou para a frente.

Os ombros de Thalia caíram de alívio.

Naquele instante, a voz retumbante do cavaleiro de guarda ecoou.

— Partiremos em breve.

Ela não respondeu.

Como se não esperasse uma resposta desde o início, o cavaleiro cavalgou à frente sem dizer mais nada.

Logo, a carruagem em que ela estava também começou a se mover.

Thalia afundou as costas no assento e olhou para o céu que embranquecia pela fresta das cortinas.

No fim das contas, parecia que mais um dia tedioso estava prestes a começar sem que nada acontecesse.

A marcha que havia começado ao amanhecer parou antes mesmo do sol se inclinar completamente para o oeste.

Gareth, cuja paciência havia chegado ao limite, declarou unilateralmente que não avançariam mais naquele dia.

A rigor, o cronograma da jornada estava sob a autoridade de Varkas, o comandante geral.

No entanto, não eram muitos os que ousariam desafiar a ordem do futuro imperador.

No fim, com a aprovação tácita de Varkas, tiveram de montar acampamento em um campo aberto com o segundo local sagrado, a Colina Ulgraam, bem diante dos seus olhos.

Era uma situação frustrante para os soldados, que queriam deixar a planície para trás o mais rápido possível, mas para Thalia foi um alívio.

Depois de passar o dia inteiro trancada dentro da carruagem balançante sem comer nem dormir direito, seu ânimo havia chegado ao fundo do poço.

Ela se deitou no assento e piscou os olhos tontos.

Naquele momento, uma voz dolorosamente cansativa veio de fora.

— Vossa Alteza, trouxe um pouco de fruta.

Thalia franziu as sobrancelhas.

O comportamento do cavaleiro lhe parecia incompreensível — vir incomodá-la de novo depois de ter sido humilhado daquele jeito no dia anterior.

A não ser que tivesse algum esquema escondido, havia algum motivo para ele se esforçar tanto para bajulá-la?

Ela retrucou asperamente,

— Suma daqui.

— Vossa Alteza disse que não conseguia comer porque não sabia o que poderia ter na comida, não foi? Fruta fresca e natural não deve ter problema.

Cansada demais até para responder, ela fechou a boca.

Então o cavaleiro abriu a porta da carruagem sem cerimônia e estendeu uma bandeja de frutas diante do seu rosto.

— Tô preocupado que isso vire um cortejo fúnebre nesse ritmo. Por favor, pare de ser tão teimosa e coma ao menos isso.

Ela o encarou incrédula, depois baixou o olhar para a bandeja de prata.

Havia maçãs vermelhas maduras, ameixas, uvas verdes e afins.

Thalia as encarou fixamente, depois murmurou em voz apagada, como se não lhe restasse energia sequer para se irritar.

— Como eu saberia se não esfregaram veneno nas cascas?

A essa altura, ele poderia ter desistido, mas o cavaleiro não se moveu.

Ele soltou um suspiro pesado, e pegou uma maçã da bandeja.

Então, deu uma mordida grande e estendeu a maçã com a marca da dentada em sua direção.

— Agora está satisfeita?

— Está me mandando comer algo que você já mordeu? Que nojo. Tira isso de perto mim!

O cavaleiro parecia querer estrangulá-la.

Independentemente de como fosse, Thalia lhe deu as costas.

Na verdade, estava com uma fome terrível, mas não queria colocar na boca comida tocada por outra pessoa.

Mesmo que forçasse para dentro do estômago, era óbvio que vomitaria tudo.

— Eu disse que estou bem, então pare de me incomodar e, por favor, suma daqui.

— As palavras "suma daqui" são as únicas que Vossa Alteza sabe dizer?

Diante das palavras e do comportamento cada vez mais atrevidos do cavaleiro, a irritação borbulhou dentro dela.

Thalia se levantou de um salto.

Por um momento, a tontura a varreu, mas ela firmou as pernas, recusando-se a demonstrar fraqueza.

Quando a visão logo se clareou, ela saiu da carruagem, ignorando o cavaleiro que observava sua expressão.

O céu já havia mudado de um azul profundo para um laranja pálido.

Depois de contemplá-lo por um momento, Thalia desviou-se dos olhares lançados em sua direção e caminhou para a borda do acampamento.

Queria ir para algum lugar onde não houvesse ninguém e descansar em silêncio.

Mas se se afastasse do grupo, cavaleiros a seguiriam imediatamente.

Depois de hesitar por um momento, Thalia se dirigiu para a densa floresta situada um pouco além de onde as carroças de bagagem haviam sido estacionadas.

A essa distância, conseguiriam confirmar sua localização a olho nu, então provavelmente não ficariam rondando sob a desculpa de guardá-la.

Thalia sentou-se com as costas apoiadas em uma árvore grande e inalou profundamente o ar fresco da tarde.

Por quanto tempo ficou assim?

Uma risada suave veio de perto.

Os olhos de Thalia se abriram de repente.

Parecia que ela não era a única que havia procurado um lugar deserto para descansar, pois entre os pinheiros esparsamente distribuídos, ela viu Ayla caminhando tranquilamente.

O rosto de Thalia se contorceu.

Seu corpo e sua mente estavam completamente exaustos.

Ela não achava que conseguiria suportar aquele rosto cheio de felicidade.

Ela se levantou de um salto.

Bem quando estava prestes a ir embora, outra pessoa que havia estado escondida atrás das árvores surgiu à vista.

Era o homem por quem, ainda naquela manhã, ela havia rezado para que estivesse vivo.

Thalia o encarou com olhos vazios.

Com as rédeas de Tork em uma mão e seguindo Ayla em silêncio, Varkas parecia mais tranquilo do que ela jamais o havia visto.

Havia se cansado de ver apenas sua expressão fria ou a ruga entre as sobrancelhas, então, aquele rosto sereno lhe pareceu estranho.

Será que ele sempre fazia aquela expressão diante de Ayla?

Enquanto o encarava fixamente, Ayla puxou o braço de Varkas, ficou na ponta dos pés e ergueu a cabeça.

Ao perceber o que ela estava pedindo, Thalia parou de respirar.

Ela não queria ver aquilo.

Não queria guardar nos olhos uma cena que jamais conseguiria apagar da mente pelo resto da vida, uma cena que ruminaria vez após vez.

Mesmo gritando isso interiormente, Thalia não conseguia arrancar o olhar dos dois.

Talvez quisesse vê-lo recusar friamente.

Mas Varkas atendeu ao desejo de Ayla como um cão de caça fiel.

No momento em que o viu inclinar a cabeça em direção a ela, Thalia se virou e saiu correndo.

Mas logo alguém a alcançou.

Ela ergueu os olhos surpresa.

Gareth, com as bochechas coradas como se tivesse bebido, segurava seu braço e olhava para ela de cima.

Diante de seu olhar, que parecia observá-la, Thalia baixou a cabeça às pressas.

Mas ele já havia notado a umidade acumulada ao redor de seus olhos.

— Não me diga que você...

Gareth soltou uma risada oca e murmurou.

Thalia torceu o braço com violência para se soltar dele.

Mas o Príncipe Herdeiro não se moveu.

Gareth olhou para o rosto dela, onde a agitação emocional ainda não havia sido completamente apagada, como se fosse um espetáculo raro.

Então, por fim, irrompeu em gargalhadas.

— Então era isso?