Tradução: Yumi
Capítulo 36
Os olhos da mulher faiscaram de raiva enquanto ela mastigava cada palavra com ódio.
— Minhas palavras também parecem ridículas para você?
Diante da aura feroz que ela emanava, ele inconscientemente recuou mais um passo.
A princesa, com seu corpo esguio tremendo, ergueu a voz abruptamente.
— Quantas vezes preciso dizer para me deixar em paz antes de você entender? Minhas palavras lhe parecem tão engraçadas assim?
— Trouxe comida apenas porque estava preocupado que Vossa Alteza pudesse desmaiar.
Edric, que havia se encolhido diante da enxurrada de palavras, protestou com uma expressão magoada.
A princesa bufou abertamente em seu rosto.
— Por que alguém como você se preocuparia comigo?
— Sou o cavaleiro de guarda de Vossa Alteza. Tenho o dever de auxiliá-la...!
A mulher de repente irrompeu em gargalhadas.
Seu rosto ficou vermelho.
Era a primeira vez na vida que havia sido ridicularizado assim na sua cara, então não fazia ideia de como reagir.
A mulher o olhou como se estivesse escarnecendo dele e continuou lentamente.
— Você deve me achar uma completa idiota... Acha que não sei que os Cavaleiros Roem não são nada diferente dos cães fiéis do Príncipe Herdeiro?
Seu rosto endureceu.
Ela olhou com desdém para a cesta em sua mão e acrescentou friamente,
— Como eu saberia o que tem dentro dessa cesta? Que coisa imunda você está tentando me fazer sofrer ao dizer para eu comer isso?
— Sou um cavaleiro!
Sem mais conseguir suportar, Edric ergueu a voz.
Diante do primeiro insulto desse tipo em sua vida, até suas orelhas ardiam.
— As palavras de Vossa Alteza são um insulto não apenas a mim, mas a toda a Guarda Imperial! Juramos diante de Deus proteger a família imperial. Jamais faríamos qualquer coisa que pudesse prejudicar Vossa Alteza...!
— Acha que vou acreditar nisso?
Ele ficou em silêncio e fitou o rosto da princesa, que parecia um bloco de gelo.
Ela apagou o sorriso dos lábios e retrucou friamente,
— Se quiser bajular alguém, vá fazer isso com meus meio-irmãos. Não preciso disso.
Então ela encerrou a conversa fechando a porta com uma pancada.
Ele apertou com força a alça da cesta.
Se não o fizesse, sentia que imediatamente arrombaria a porta e gritaria com ela para parar de ser tão teimosa.
Edric encarou a porta da carruagem com olhos em brasa, depois logo se virou.
Havia feito o suficiente.
Não tinha a menor intenção de se esforçar para persuadir uma mulher que o insultava abertamente e o tratava com hostilidade.
Edric pousou a cesta quase como se a arremessasse na prateleira montada diante da tenda comum, depois caminhou em direção ao local onde a comida estava sendo distribuída.
Os cavaleiros já estavam reunidos no campo e comendo.
Edric sentou-se entre seus companheiros, empilhou comida generosamente em seu prato e começou a devorar tudo.
Repetindo para si mesmo que não lhe importava se aquela mulher terrível morria de fome ou não...
Thalia, que havia ficado virando e revirando sem parar na escuridão, cuidadosamente se sentou.
Quando puxou a cortina da janela, viu algumas lanternas carregadas pelos cavaleiros de guarda brilhando fracamente na escuridão.
Todo o resto estava submerso na noite de breu.
Thalia ergueu a cabeça e olhou para o céu negro sem lua, depois saiu cuidadosamente da carruagem.
Por vários dias, havia sobrevivido com apenas alguns pedaços de pão e algumas frutas conservadas em mel, então não havia força alguma em seus braços e pernas.
Talvez tivesse sido melhor comer a comida que aquele cavaleiro tolo havia lhe trazido.
Ele não parecia inteligente o suficiente para tramar algum esquema — será que havia sido paranoia da sua parte?
Thalia recordou o rosto ingênuo do cavaleiro, mas logo apagou esse pensamento de sua mente.
Acaso não havia aprendido bem que as pessoas que se aproximavam com rostos inofensivos eram exatamente o tipo em que jamais se deveria confiar?
Talvez ele estivesse planejando baixar sua guarda antes de fazer algo horrível.
Ela lançou um olhar desconfiado aos cavaleiros de guarda perto da cerca, depois avançou com cautela.
À medida que seus olhos se adaptavam à escuridão, os telhados triangulares das tendas, a longa fileira de carroças de bagagem e as silhuetas dos cavalos foram se tornando vagamente visíveis.
Ela caminhou com cuidado entre as tendas, tomando cuidado para não tropeçar nas pedras.
Sentiu o vento descendo da colina se infiltrar entre as dobras de suas roupas.
Junto com o forte cheiro de erva molhada, o aroma de lenha semiquemada fez cócegas em seu nariz.
Thalia confiou nos seus sentidos e se arrastou pela escuridão.
Por fim, conseguiu encontrar os aposentos de suas atendentes.
Depois de semicerrar os olhos e confirmar por um longo tempo que havia encontrado o lugar certo, Thalia se agarrou e subiu na carroça de bagagem mais próxima.
Então se encolheu em uma bola entre as pilhas de fardos e fitou intentemente a entrada da tenda.
Seu plano era observar se a agente de inteligência que a Senevia havia plantado começaria a agir naquela noite.
Ela abraçou os próprios joelhos e encarou a escuridão sem piscar.
De vez em quando, ouvia soldados roncando ou rangendo os dentes.
Ouviu também cavalos bufando e o canto dos insetos.
Ela não sabia que a noite podia ser tão barulhenta.
Contou dolorosamente cada minuto e segundo enquanto tentava acalmar os nervos, que estavam à flor da pele a ponto de doer.
Por quanto tempo havia ficado assim, prendendo a respiração?
O céu negro começou a clarear lentamente para um azul-marinho.
Aparentemente, aquela noite passaria em silêncio.
Ela moveu com cuidado o corpo entorpecido e esticou as articulações.
Cada osso parecia estalar e gritar.
Bem quando estava massageando os braços e as pernas que formigavam e mal conseguindo engolir um gemido, viu uma sombra escura sair de dentro da tenda.
Ela semicerrou os olhos.
Como os arredores estavam escuros, não conseguia ver o rosto, mas podia dizer claramente que era uma mulher esguia.
Thalia forçou o corpo rangente a se levantar e seguiu a sombra.
Depois de caminhar por um longo tempo ao longo da fila de carruagens, a carruagem de Ayla surgiu à vista.
Ela esfregou as palmas das mãos, úmidas de suor frio, na barra de suas roupas.
Como seria maravilhoso se aquela mulher se esgueirasse para dentro daquela carruagem.
Se fizesse o que Thalia precisava fazer em seu lugar.
Thalia fixou o olhar nas costas da mulher com aquele desejo desesperado.
Mas a mulher passou direto pela carruagem de Ayla e se moveu em direção ao fim do longo acampamento.
Quando Thalia deslocou o olhar para lá, seu rosto endureceu.
A bandeira da Casa Siarkan, bordada com o emblema de um cavalo negro, esvoaçava diante de uma tenda.
Ela correu até lá às pressas.
Mas no breve momento em que havia desviado o olhar, a mulher já havia desaparecido sem deixar rastro.
Thalia buscou urgentemente entre as tendas, depois olhou para a entrada da tenda com um pavor crescente.
Será que ela havia entrado lá dentro?
Seu coração afundou.
Se Ayla e Varkas se unissem dessa forma, a posição de Gareth ficaria ainda mais sólida.
A Casa Siarkan era uma família que exercia poderosa influência não apenas no Leste, mas também no Norte.
Se Ayla se tornasse a Grã-duquesa Siarkan, Gareth teria a aliança nobre às suas costas.
Havia toda a possibilidade de que a Senevia tivesse decidido eliminar Varkas para impedir essa situação.
Tendo pensado até aí, Thalia se precipitou para dentro da tenda de Varkas como se estivesse sendo perseguida por algo.
Ela não conseguia pensar de forma racional.
Thalia olhou urgentemente ao redor da tenda, onde a escuridão estava espessa, e então puxou a divisória no centro.
A cama estava vazia.
Ele era alguém que começava o dia antes mesmo do amanhecer, então provavelmente estava inspecionando o acampamento ou verificando a condição de Tork.
Esse raciocínio lhe atravessou a mente, mas sua ansiedade não se aplacava com facilidade.
Ela tateou pela cama vazia, verificando se havia manchas de sangue.
Então, ouvindo passos pesados, ergueu a cabeça de repente.
Na entrada da tenda estava um homem corpulento.
Pensando que Varkas havia chegado, Thalia se apressou em direção a ele, mas então estremeceu e parou de caminhar.
Gareth, vestido levemente, a olhava com olhos surpresos.
— O que você está fazendo aqui?
Ele ergueu os cantos dos olhos agressivamente e a examinou de cima a baixo.
