O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 35

Capítulo 35

Tradução: Amme

Capítulo 35


Edric pulou para dentro da carruagem sem ter tempo nem de pensar e ergueu a mulher nos braços.

O corpo era assustadoramente leve — e estava encharcado de suor. Ele afastou com urgência o cabelo dourado grudado no rosto da mulher e bateu levemente na bochecha terrivelmente sem cor.

Naquele momento, as pestanas douradas que lançavam longas sombras sobre as bochechas se ergueram bruscamente, revelando olhos de um azul profundo.

Sem perceber, ele prendeu a respiração. Aqueles olhos azuis eram como um oceano, sugando-o para os confins da terra.

Enquanto os encarava com uma expressão atordoada, uma sensação de ardor de repente se espalhou em sua bochecha direita.

Ele cobriu o rosto com uma mão e piscou, em choque.

A mulher, que havia escorregado para longe de seus braços em um instante, lançou-lhe um olhar como se estivesse encarando um vilão sem vergonha.

— Como se atreve a pôr suas mãos sujas em mim?!

— Pensei que Vossa Alteza havia perdido a consciência...! — Edric, com a boca aberta, ergueu a voz com ressentimento.

— Então você pensou que eu havia perdido a consciência, e portanto planejava fazer alguma indecência?

— Do que está falando...?!

Edric, que havia se levantado subitamente em indignação, bateu a cabeça com tudo no teto da carruagem e se abaixou de volta.

As lágrimas quase brotaram em seus olhos, tanto da raiva causada pelas palavras insultantes da princesa quanto da dor na cabeça. Ele apertou a área afetada e gemeu.

A princesa, que o observava como se fosse lamentável, esfregou a têmpora e apontou o queixo.

— Chega. Pare de me importunar e vá embora.

— Em vez disso, por favor saia por um momento e pelo menos tome um pouco de ar. Ainda temos que viajar mais metade do dia, até quando pretende ficar trancada nesse forno? — Edric murmurou com um rosto emburrado, enquanto esfregava o alto da cabeça. Era um conselho direto que jogou fora, já preparado para levar mais um tapa.

A princesa o fuzilou com uma expressão incrédula. Parecia atordoada com o fato de que ele conseguia importuná-la tão incansavelmente sem se cansar.

Edric mal conteve o impulso de praguejar e perguntar se ela achava que ele se intrometia porque gostava. Não era uma tarefa que havia escolhido por vontade própria, mas de qualquer forma, aquela princesa imprudente estava sob sua responsabilidade. Se ela desmaiasse durante a viagem, lidar com as consequências também cairia sobre ele.

Pronto para arrastá-la para fora à força se necessário, ele encarou diretamente o rosto enfurecido.

Como se farta de sua atitude, a mulher finalmente se levantou. Isso o animou, e ele desceu da carruagem primeiro. Então estendeu uma mão para escoltá-la, mas a princesa bateu a porta em seu rosto.

Edric encarou a porta firmemente fechada com uma expressão pasma, depois finalmente desistiu e se virou.

O que exatamente a faz agir com tanto desgosto?

Ele soltou um suspiro pesado e se arrastou em direção à margem do lago. Mesmo enquanto lavava o rosto encharcado de suor com a água gelada e sentava sob a sombra de uma árvore para descansar, a teimosa princesa não mostrou nem a ponta do nariz.

Ela estaria sendo cautelosa para caso alguém tentasse lhe fazer mal? A forma como estava sempre excessivamente em alerta o fazia pensar num animal preso numa armadilha. Ele olhou para a carruagem com olhos confusos, depois logo sacudiu a cabeça e espantou o pensamento inútil.

Que necessidade havia de tentar entender uma mulher assim? Se aguentasse até o fim da viagem, também ficaria livre daquele dever cansativo. A Segunda Princesa trocava os cavaleiros guardas lhe designados constantemente, então ele provavelmente seria substituído no mais tardar. Apenas precisava aguentar até lá.

Com este pensamento encorajador, Edric se sentou com os cavaleiros na sombra da árvore. Depois de um descanso breve com uma refeição simples de vinho e pão, voltou para a sela.

Depois do meio-dia, o ar foi gradualmente esfriando. Os peregrinos, que haviam recuperado as energias, continuaram sua marcha vigorosa ao longo das Montanhas Gaisa, que dividiam as regiões oeste e nordeste. Graças à viagem diligente, ao pôr do sol conseguiram chegar à Planície de Sinai, território do antigo Reino de Balto.

— Acamparemos aqui hoje. — Varkas, que havia estado percorrendo o cortejo com o olhar, deu a ordem em voz baixa.

Edric o olhou com incredulidade. Mesmo tendo cavalgado o dia inteiro, Varkas não parecia nada diferente de quando haviam partido. O superior, que desmontou sem o menor sinal de desordem, olhou ao redor com olhos frios e disse:

— Montem barricadas ao redor do acampamento e postem guardas.

Os cavaleiros obedeceram imediatamente. Edric também começou a trabalhar na montagem de uma cerca ao redor do acampamento. Por um momento, ele se perguntou se era um cuidado um tanto excessivo, mas muitos monstros habitavam a Planície de Sinai. Dizia-se que ataques a uma força tão grande eram raros, mas não havia mal em serem cuidadosos.

Ele tirou tábuas cravejadas de espigões de ferro da carroça de bagagem e as fixou no chão, e então enrolou cordas com pequenos sinos ao redor destas. Depois de um tempo de trabalho diligente, conseguiram completar uma barreira defensiva temporária ao redor do acampamento.

Ele sacudiu a sujeira das mãos e se moveu em direção ao lugar onde a fogueira havia sido acesa. Enquanto montavam a barricada, as acompanhantes da princesa haviam terminado de preparar o jantar. Ele apertou o estômago faminto e se aproximou da fogueira onde a carne estava sendo grelhada. Então pegou um pequeno pedaço de bacon cortado e o comeu enquanto fazia uma pergunta a uma das criadas.

— A refeição de Sua Alteza, a Segunda Princesa, foi preparada?

A criada de rosto jovem, que havia estado mexendo uma panela grande com uma concha, o olhou confusa.

— Bom... ela disse que não tinha apetite...

Edric, que havia estado enxugando a gordura das mãos com uma toalha, franziu as sobrancelhas. Thalia havia pulado o almoço, e agora ia também não jantaria?

Sentiu uma súbita irritação com a princesa, que mais lhe parecia se comportar como uma criança a cada oportunidade. jogando a toalha de mão descuidadamente no chão, pegou uma cesta vazia. — Encha isso com algo adequado para comer. — Demandou à criada.

Esta imediatamente encheu a cesta com um pedaço grande de torta, ensopado com bacon, vinho, fruta em conserva e tudo mais, sem deixar nada de fora. Ele colocou a cesta, agora transbordando de opções, sob o braço e se dirigiu para a pequena fortaleza da princesa.

Sabia que não havia necessidade de forçar comida em alguém que insistia em não se alimentar. Mas ao se lembrar de quão desagradavelmente leve havia sido o corpo da mulher mais cedo, simplesmente não conseguia ficar parado.

Praguejando contra a própria natureza intrometida, bateu na porta da carruagem.

— Vossa Alteza, trouxe o jantar.

— Eu já disse que não tenho fome.

— Ficou praticamente em jejum o dia todo. Como pretende suportar essa viagem difícil sem comer direito? Por favor, tente comer algo, mesmo que não tenha apetite.

— Eu disse que estou bem, então suma!

Edric fez uma careta. Nem um ouriço era tão espinhento a este ponto. Reunindo toda a paciência à sua disposição, tentou falar com calma.

— Então vou deixar aqui, e se mudar de ideia...

Edric, que havia se abaixado para pousar a cesta do lado de fora da carruagem, estremeceu e recuou.

A porta havia sido aberta de repente, e um rosto branco endurecido por uma raiva feroz preencheu sua visão.

Ele engoliu em seco ao encarar aqueles olhos azuis brilhando vividamente sob a luz do pôr do sol.