O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 34

Capítulo 34

Tradução: Amme

Capítulo 34


Mas a porta não se mexeu.

Depois de puxar a maçaneta repetidamente, Thalia percebeu que havia sido trancada por dentro, e cerrou os dentes.

Maldita Ayla...

A raiva que havia suprimido a noite toda borbulhava dentro de si, como se fosse explodir a qualquer momento.

Mordendo os lábios já feridos e com crostas de mordidas anteriores, Thalia fuzilou a porta fechada, e então se virou. Talvez fosse o melhor assim. Se agisse impulsivamente sem nenhuma preparação e, por algum acaso, falhasse, seria a única a morrer como um animal. Precisava se preparar mais cuidadosamente antes de colocar sua vontade em prática.

Ainda havia um longo caminho pela frente, então uma oportunidade adequada certamente surgiria.

Acalmando a respiração irregular, deixou o corredor rapidamente.

Justo quando estava descendo as escadas em direção ao próprio quarto, ouviu um barulho vindo de algum lugar, então escondeu-se apressadamente atrás de uma coluna.

Uma sombra tênue se estendia pelo corredor, por onde a luz do amanhecer estava começando a se infiltrar pouco a pouco. Escondida na escuridão, Thalia esticou cuidadosamente o pescoço e olhou de esguelha.

Uma mulher esguia estava parada em frente à porta do quarto bem ao lado do dela.

Thalia estreitou os olhos e estudou seu rosto. Era uma mulher de meia-idade com cabelos castanhos-escuros e feições comuns. Apenas um momento Thalia a reconheceu como uma das acompanhantes que sua mãe lhe havia designado para a peregrinação.

A mulher fechou a porta com cuidado, puxou um capuz marrom-escuro sobre a cabeça e escorregou silenciosamente para fora do corredor.

Thalia encarou fixamente a figura que se afastava, e impulsivamente a seguiu.

A mulher saiu do prédio e caminhou rapidamente pelo caminho lamacento onde poças haviam se acumulado. Pelos movimentos ágeis, parecia ter recebido treinamento de espionagem.

Depois de olhar ao redor com cuidado, a mulher parou perto do pequeno jardim detrás do salão principal. Thalia se escondeu atrás de uma coluna do pórtico e a observou sorrateiramente.

A mulher ficou parada na frente do pavilhão por um longo tempo como se esperando alguém, depois avistou algo e se moveu rapidamente. Acompanhando o movimento com os olhos, Thalia os estreitou ao ver uma pessoa em hábito monástico preto saindo lentamente da escuridão.

O rosto parecia familiar, então era possivelmente um dos sacerdotes que havia comparecido ao banquete. Este, que aparentava ter cerca de quarenta anos, tirou algo parecido com um pequeno frasco de remédio da roupa e o entregou à mulher. Ela o aceitou, abriu a tampa, verificou o conteúdo, depois fechou a rolha novamente e escorregou o frasco para dentro da manga da própria roupa.

Então se virou e começou a refazer o caminho de volta.

Thalia correu apressadamente em direção ao prédio da acomodação. Quando subiu correndo as escadas e se atirou no quarto, as forças drenaram das pernas. Encostou as costas na porta e recobrou o fôlego enquanto ouvia a presença do lado de fora.

Um momento depois, ela ouviu uma porta abrir e fechar, e então tudo ao redor ficou silencioso como a morte.

Thalia engoliu em seco.

Não conseguia saber ao certo o que significava a cena que havia testemunhado.

Quem era aquele sacerdote? Era algum colaborador secreto de Senevia? Se sim, o que havia entregado à mulher? Poderiam estar planejando um assassinato por veneno?

Ela forçou saliva goela abaixo pela garganta apertada. Não, se a mãe quisesse usar veneno para algum fim, poderia ser obtido facilmente o suficiente sem ajuda de um estranho. Para precisar de subtefúrgios arrojados em sua obtenção, significava que era algo que não podia sequer ser trazido para a capital.

O que ela está tramando?

Todo tipo de suposições surgiram em sua mente. Mas nada conclusivo.

A única certeza é que algo enorme está prestes a acontecer.

Senevia sempre realizava tudo a que se propunha a fazer. Se havia decidido remover seus obstáculos de longa data, o Príncipe Herdeiro já estava praticamente morto. Com sorte, Ayla também desapareceria deste mundo.

Sentindo o coração bater violentamente de excitação, Thalia exibiu um sorriso satisfeito.


A longa e tediosa viagem recomeçou.

A força de escolta, composta por centenas de cavaleiros e soldados de infantaria, movia-se em silêncio sob o sol escaldante. Nesse ritmo, conseguiriam cruzar a fronteira do antigo Reino de Osiriya em dez dias.

Edric Rubon, que havia aberto um mapa e estava estimando a distância restante, virou a cabeça e olhou para a carruagem, que estava tão quieta quanto um caixão. Como sempre, a princesa havia fechado as cortinas grossas sobre as janelas e permanecia trancada.

Ele cavalgou ao lado da carruagem e estudou cuidadosamente a sombra tênue refletida na cortina. O calor escaldante estava fazendo até os cavalos ofegarem. Ele se preocupava que ela pudesse ser encontrada cozida viva dentro da carruagem.

— Vossa Alteza, que tal arejar a carruagem por um momento?

— ...Que zumbido irritante é este em meus ouvidos?

Felizmente, parecia que ela ainda estava viva.

Edric soltou um pequeno suspiro e cavalgou em direção à frente. Na extremidade da procissão, como sempre, estava o Príncipe Herdeiro, montado num cavalo dourado das Montanhas Nornec.

Edric examinou cuidadosamente seu rosto. Gareth estava vermelho, e repreendendo irritavelmente Sir Siarkan sobre algo. Pelo que Edric conseguia ouvir, parecia estar exigindo saber quando poderiam descansar.

Pelo visto, esta vai ser uma viagem mais longa e difícil do que o previsto.

Pelos próximos dias, campos ásperos e terrenos montanhosos não muito diferentes de terra árida seriam a única paisagem para os olhos de todos. O Príncipe Herdeiro, infinitamente exigente, conseguiria suportar uma viagem tão dura?

Edric sacudiu a cabeça e se aproximou de Varkas. Seu superior estava deixando as reclamações do Príncipe Herdeiro entrar por um ouvido e sair pelo outro enquanto estudava a estrada com um olhar cauteloso. Não parecia se importar minimamente, independentemente do quanto o futuro governante do Império gritasse ao seu lado.

Sentindo-se novamente impressionado com a postura do superior, Edric abriu a boca com cuidado.

— Sir Siarkan, os soldados parecem muito exaustos pelo calor. É um pouco cedo, mas que tal encontrar um lugar adequado e descansar?

Seu superior, que havia estado cavalgando silenciosamente olhando apenas para a frente, se virou para ele. Sem perceber, Edric tensionou o corpo. Nunca tinha visto aquele homem ficar agitado ou levantar a voz uma única vez. Mesmo assim, sempre sentia uma pressão estranha quando estava diante de Varkas.

— Desculpe se foi uma sugestão impertinente. Parece que a retaguarda continua ficando para trás... — Ele acrescentou às pressas, após engolir em seco.

— Se continuarmos por mais trinta minutos, haverá um lago. Descansaremos lá. — Varkas cortou seus balbucios. Edric o encarou por um momento, atônito, depois curvou a cabeça.

O Príncipe Herdeiro, que havia assistido à cena com desagrado, resmungou alto.

— Quando eu falo, você nem finge ouvir, mas ouve aquele fedelho?

— Fiquei em silêncio apenas porque não pareceu que Vossa Alteza precisava de uma resposta. Garanto que estava ouvindo com atenção cada palavra.

— Quem lhe deu o direito de decidir que eu não precisava de resposta? — O Príncipe Herdeiro berrou. A voz poderosa, condizente com seu grande porte, fez os tímpanos de Edric doerem. Ele mal conteve o impulso de clicar a língua, e se apressou em recuar de volta à retaguarda.

Era um pouco estranho que o Príncipe Herdeiro, famoso por seu temperamento explosivo, não parecesse diferente de uma criança imatura ao lado de Sir Siarkan.

Vai ser preocupante quando o Sir Siarkan deixar a ordem.

Uma vez que Varkas Laedgo Siarkan partisse para o Leste, não sobraria ninguém capaz de conter os descontroles do príncipe. A Primeira Princesa também iria para o leste com Varkas, então apenas Gareth e Thalia Roem Gurta permaneceriam na capital.

Quando pensou no futuro da ordem dos cavaleiros que teria que suportar aqueles dois membros temperamentais da realeza, sentiu sua visão escurecer. Soltando um suspiro pesado, se aproximou da carruagem de Thalia.

Um momento depois, o som de um apito anunciando o momento de descanso soou da frente.

Edric parou o cavalo e ordenou aos subordinados que armassem uma tenda num lugar adequado. Os cavaleiros imediatamente o fizeram, num terreno nivelado, para criar sombra. Ele parou a carruagem perto dela e bateu levemente na janela.

— É hora de descansar. Por favor, saia agora.

— ...

— Até quando pretende continuar agindo teimosamente? Ficou trancada dentro da carruagem o dia inteiro. Se não tomar cuidado, pode acabar desmaiando.

Ele falou deliberadamente com rispidez, pensando que talvez tivesse que arrastá-la para fora mesmo que isso significasse ser estapeado, mas nenhuma resposta veio de dentro.

Edric franziu as sobrancelhas. Será que ela realmente havia desmaiado?

Com uma sensação ominosa, abriu a porta com certa brusquidão. Então, junto com um cheiro doce como uma mistura de mel e leite, um ar quente como água fervendo lhe acertou o rosto.

Edric franziu a testa e espiou o interior sombrio da carruagem. Então congelou ao descobrir a princesa deitada flácida no chão.