Tradução: Amme
Capítulo 30
Depois daquele dia, Thalia começou a lutar para se libertar do amor que havia se tornado uma espécie de hábito dentro de si.
Não que já não houvesse tentado arrancar os sentimentos por ele pela raiz, mas nunca com tamanho ímpeto.
Ela começou a frequentar banquetes. Enfiou o vestido que ele havia escolhido bem no fundo do armário e tirou o vestido para o qual ele havia franzido a testa.
E começou a frequentar os banquetes realizados regularmente no Palácio da Imperatriz.
Naturalmente, Varkas, seu cavaleiro guarda, também não tinha escolha a não ser segui-la para aquele festim de diversões noturnas desordenadas. Para ele, que havia recebido uma educação quase monástica até os quatorze anos, devia ser uma cena digna apenas de desprezo.
Na realidade, também não era um lugar confortável para a própria Thalia. Dentro do salão cheio dos adoradores da mãe, era tratada como uma versão menor de Senevia. Eles a viam — uma menina que possuia o rosto da Imperatriz no corpo de uma jovem fresca — como um brinquedo interessante. Entre eles, não eram poucos os que demonstravam interesse ativo.
A forma como a tratavam como substituta da mãe a enchia de intensa humilhação, mas Thalia fingia apreciar a atenção que lhe era despejada.
Queria mostrar a Varkas.
Veja o que perdeu.
Vou me tornar uma mulher mais bela do que a Ayla, ou até mesmo que a própria Senevia.
Queria mostrar a ele quantas pessoas a desejavam. Em algum lugar do coração, talvez quisesse que ele a detivesse. Mas Varkas, como sempre, apenas cumpria silenciosamente seu dever de guarda. Fosse se misturando com homens e se embriagando até perder o juízo, ou flertando com um homem duas vezes mais velho, ele não aparentava se importar sequer minimamente.
Aquela atitude indiferente alimentou ainda mais o impulso perigoso que havia se apoderado dela.
Ele havia ficado ao lado dela por sete anos inteiros. Então não poderia se preocupar com ela, nem que fosse um pouco? Não poderia sequer tentar detê-la?
Esses pensamentos infantis se agarravam à sua mente e não desapareciam.
Sentia que se destruísse a si mesma completamente em vez disso, talvez conseguisse sacudir esse apego tolo que persistia. Com o coração de quem havia desistido de si mesma, ela concedeu seu tempo a desconhecidos. Permitia o comportamento incômodo deles quando tocavam sua mão, rosto ou cabelo em admiração, ou aproximavam o nariz de sua nuca. Ser tratada como se fosse uma boneca de porcelana era desagradável, mas não desgostava dos olhares encantados que recebia, como se estivessem intoxicados por sua mera existência. Às vezes, a euforia resultante a fazia se sentir como uma deusa.
Quando era arrebatada por aquela sensação, não conseguir possuir um mero homem qualquer como o Varkas parecia uma questão trivial. Quando esse pensamento surgia em seu coração, ela o agarrava com unhas e dentes, vendo que se continuasse a enterrar-se-] naquelas horas embriagantes, certamente aquele amor verde e infantil secaria e morreria rapidamente.
Thalia se imergiu ainda mais nos jogos tolos e desordenados entre homens e mulheres. Gradualmente foi se acostumando a trocar provocações sugestivas, a permitir carícias leves - e a se envolver num cabo de guerra perigoso.
Por quanto tempo havia passado submersa em dias tão precários?
Certo dia, um nobre do sul chamado Margus se aproximou. A princípio, ela não lhe deu qualquer atenção especial. Afinal, todas as noites ela saía para o salão de banquetes e se misturava com diversos homens, mas não guardava sequer um único nome destes na memória. Mas em algum momento, o nome daquele homem em específico começou a permanecer, familiar, em sua mente.
Ele havia despertado seu interesse de uma maneira bastante peculiar — a tratava como se fosse uma sobrinha nova ou uma criança imatura. Às vezes, até dava conselhos como se estivesse sinceramente preocupado com ela.
Depois de se sentir brevemente ofendida com aquela atitude arrogante, Thalia foi gradualmente abrindo o coração para ele. Isso ocorria porque, diferente dos homens que tentavam tocá-la a qualquer oportunidade, ele sempre mantinha uma distância adequada e atitude amigável. E não era apenas isso — agia como se não tivesse nenhuma intenção oculta, brincando como se seu único interesse fosse fazê-la rir, ou trazendo brinquedos e bonecas como presentes em vez de joias ou roupas reveladoras.
Thalia foi gradualmente se sentindo confortável com sua proximidade. Talvez aquele homem tivesse percebido a criança faminta de afeto que se escondia dentro dela e, assim, escorregou com muita facilidade para dentro de sua fraqueza.
A noite em que destruiu o castelo de confiança que havia construído foi quatro dias antes de sua cerimônia de maioridade. Numa hora tardia em que Varkas estava ausente, aquele homem foi ao palácio isolado.
Por um momento, ela sentiu desconfiança com sua chegada sem aviso em horário impróprio, mas ao vê-lo conversar alegremente com o rosto despreocupado de sempre, sua cautela derreteu como neve.
— Olhe isso, Vossa Alteza. Finalmente encontrei o quebra-cabeça que mencionei antes! — O homem falava animadamente, enquanto estendia uma grande caixa contendo o dito cujo. — Não imagina como trabalhei duro para conseguir isso! Não teria me esforçado tanto nem em um presente para Sua Majestade, o Imperador!
O homem, que havia erguido o nariz triunfante, de repente coçou a nuca com embaraço. Parecia ter afinal percebido a descortesia de aparecer em uma hora tão tardia.
— Originalmente, pretendia dar o presente no aniversário de Vossa Alteza, mas... preciso deixar a capital com urgência amanhã, então vim mesmo sabendo que era um tanto inapropriado. Poderia perdoar este relapso de julgamento de minha parte?
Diante da cena do homem, seus olhos caídos, como um filhote de cachorro pego na chuva, Thalia sacudiu a cabeça com um certo humor.
— Parece que não tem jeito. Entre.
Ele sorriu radiantemente e entrou no palácio isolado. Era a primeira vez que permitia que alguém além de um cavaleiro guarda ou criada entrasse. Portanto, de repente, sentiu vergonha do estado de seu palácio, que era vazio, com muitos cômodos inutilizados.
Ela passou direto pelo salão de recepções, que nunca havia sido usado e estava coberto apenas de poeira, e o levou ao escritório no segundo andar. Afora seu quarto, este era o lugar mais limpo e organizado.
Ali, desdobraram a mesa de xadrez, sentaram frente a frente e começaram a montar as peças do quebra-cabeça. Ela estava tão absorta que nem percebeu que os joelhos do homem sentado à sua frente estavam posicionados de cada lado de seus próprios.
Thalia focou toda a atenção em juntar as peças pequenas para formar uma torre de castelo pontiaguda. Para ajudá-la, ele aproximou a cabeça e fixou os pequenos pilares no lugar. Por fim, uma torre havia tomado forma.
A princesa sorriu com orgulho diante do feito. Então, subitamente, percebeu que o homem estava perto demais e fez uma expressão desconfortável. Ele havia se aproximado tanto que seu hálito com cheiro de vinho fez cócegas em sua testa.
Ela se remexeu desconfortavelmente. Sentia-se incerta; se recuasse abruptamente, o clima ficaria estranho e poderia ser visto como ofensa. Então, Thalia cuidadosamente girou o corpo para o lado, fingindo procurar outra peça do quebra-cabeça dentro da caixa que o homem havia trazido.
Então, de súbito, ele se aproximou por trás de si e, como se a abraçando, estendeu os dois braços ao redor da sua cintura e começou a revirar as peças na caixa.
— Aqui está.
O corpo de Thalia enrijeceu. Os braços longos e musculosos havima mudado de direção e, ao invés de pegarem a peça na caixa, apertaram firmemente sua cintura. Sentindo o hálito quente e úmido sobre a nuca, ela arqueou as costas o máximo que conseguia, tentando criar distância.
Seu coração batia desenfreadamente de medo diante da situação abaladora. Mas, estranhamente, nenhum som saiu de sua boca.
Ele apertou os braços mais firmemente e pressionou o corpo contra o dela.
— S-solte-me... — O som era baixo, como se Thalia mal houvesse conseguido espremer a voz.
— Só um momento... Só um momento. O corpo de Vossa Alteza... tem um cheiro tão doce.
Ele pressionou o nariz em sua nuca e inspirou fundo.
Thalia sentiu cada nervo do corpo se fragmentar. Sua pele ficou úmida de suor frio, e arrepios correram através de sua espinha.
