O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 29

Capítulo 29

Tradução: Amme

Capítulo 29


— Se você quebrar nem que seja um único fio do meu cabelo... não vou te perdoar. — Thalia falou de forma áspera, mexendo as mãos desajeitadamente.

Ele não deu resposta. Mas os movimentos pareceram se tornar um pouco mais cuidadosos.

Com o toque que quase parecia uma carícia no cabelo, Thalia engoliu seco. Entre a gola aberta da camisa, ela podia ver o pomo-de-adão proeminente e as clavículas que se destacavam com graça. Podia sentir vividamente o antebraço forte se movendo de acordo com seus gestos, e tinha hiperconsciência das pernas longas, cobertas pelas calças de lã, posicionadas ao lado das próprias coxas.

Thalia abaixou fundo a cabeça para esconder o rosto corado.

— J-já... já terminou?

Seria mesmo algo que pudesse demorar tanto, simplesmente soltar um cabelo preso num botão? Ou estava tão tensa que o momento parecia irrealisticamente longo?

Sentindo suas palmas suarem, esfregou as mãos na pilha de roupas no chão, depois se assustou ao ver que até o interior dos pulsos estava corado.

Meu corpo inteiro não está vermelho, está?

Que ridícula seria se fosse esse o caso.

A possibilidade a fez erguer a voz com irritação.

— Chega, apenas o corte!

Em claro contraste de seu usual, sempre rápido e ágil em tudo, Varkas tateou por um bom tempo antes de baixar uma mão até a cintura. Ela enrijeceu ao vê-lo sacar um punhal.

Ele enrolou o braço pelas costas dela novamente. Thalia inconscientemente agarrou a barra das roupas dele com força.

— M-mas não corte uma parte muito grande...

Antes de terminar de falar, um estalo suave soou no ar, e a leve pressão em seu couro cabeludo desapareceu. Preocupada que ele pudesse ter cortado uma mecha inteira, Thalia se virou apressadamente. Felizmente, não havia nenhum fio cortado à vista. Em vez disso, viu um botão dourado brilhante rolou no chão.

Ela o pegou e examinou de perto. O brasão dos Cavaleiros Roem estava gravado no botão finamente trabalhado.

Ela virou a cabeça novamente e ergueu os olhos para ele. Varkas já havia se levantado e estava embainhando o punhal na cintura.

— Até quando pretende ficar sentada aí? — Ele falou bruscamente, enquanto ajeitava as roupas desalinhadas. Thalia se levantou desajeitadamente. Por alguma razão, sentiu vergonha.

Para disfarçar, pigarreou deliberadamente e estendeu o botão para ele.

— Aqui, isso.

— Não preciso disso. Jogue fora.

Varkas respondeu de forma distraída e lançou um olhar pela janela. Sem que percebessem, o sol começara a se pôr, tingindo o céu de um tom rubro. Ele virou a cabeça novamente, olhou ao redor do quarto que havia se tornado uma bagunça completa, e falou como cansaço.

— Posso me retirar agora?

Thalia assentiu sem protestar. Ele curvou levemente a cabeça e imediatamente deixou o quarto.

Ela escutou quietamente os passos se afastando, depois correu rapidamente para o lado da cama e pegou a caixa de joias. Em seguida, colocou o botão cuidadosamente dentro desta.

Naquela noite, não conseguiu dormir por causa de uma estranha euforia. Emoções que não conseguia identificar tomavam conta de si, fortes a ponto de fazerem seu peito doer. Pensava nas palavras, nas ações e nos olhos dele repetidamente.

Talvez...

Não.

Isso não era possível.

Mas talvez...

Pensamentos caóticos enchiam sua mente. Parecia que seu cérebro estava prestes a explodir. E mesmo assim, por alguma razão, ela se via sorrindo. Virou e revirou a noite toda, embebida de uma alegria inexplicável.

Mas não demorou muito para que aquelas fantasias absurdas de adolescente se estilhaçassem.

Alguns dias depois, ouviu a notícia do noivado de Varkas e Ayla. Foi como acordar de um devaneio. Não — era pior do que isso. Era como ter flutuado até as nuvens, apenas para mergulhar diretamente para o chão em queda livre.

Ela imediatamente saiu disparada do palácio isolado e foi em direção ao campo de treinamento. Ao meio-dia ele viria até ela para cumprir seu dever como guarda, mas não conseguiria esperar até lá.

Thalia cruzou metade do palácio imperial em um único fôlego e irrompeu no amplo campo aberto onde os cavaleiros treinavam. Podia sentir as pessoas que a viam lançando olhares cautelosos, mas naquele momento não se importava sequer minimamente. Seus olhos se moviam ansiosamente, procurando os cabelos loiros-cinzas pálidos e brilhantes.

Então, ao perceber que as pessoas que enchiam o campo de treinamento não eram cavaleiros regulares mas aprendizes, ela se virou. Se ele não estava no campo de treinamento, havia uma grande chance de estar lidando com relatórios no escritório.

Ela foi em direção ao escritório militar localizado bem ao lado do campo.

Como esperado, Varkas estava lá. Mas não parecia estar escrevendo relatórios.

Thalia, que havia começado a girar a maçaneta, parou de se mover ao ouvir um soluço delicado. Pela fresta da porta aberta, viu Varkas parado de costas para a janela e uma mulher enterrando o rosto em seu peito enquanto chorava copiosamente.

Paralisada pela cena que jamais havia imaginado, a princesa observou enquanto a misteriosa mulher erguia a cabeça e olhava o homem de forma desesperada.

— Você não ama aquela mulher, não é?

Seu tom de voz era tão lamentável que fez Thalia sentir náusea. A mulher se agarrava a ele angustiadamente, como se implorando.

— Está se casando com ela apenas por razões políticas, certo? Por favor, me diga que é esse o caso.

De repente, a garganta de Thalia se apertou. O fato de que existia uma mulher capaz de implorar assim para ele a fez sentir como se tivesse levado uma pancada na cabeça.

Com o coração ansioso, ela examinou o rosto do homem. Por fim, os lábios firmemente fechados se abriram.

— Não consigo entender que significado minha resposta teria para você.

A voz era tão seca que a fez estremecer. Sem perceber, Thalia encolheu os ombros.

Varkas olhou para baixo para a mulher, com um rosto como um boneco de cera sem vida, depois inclinou a cabeça como que demonstrando sua dificuldade em entender.

— Seja por razões políticas ou não, que diferença faz? Prometi tomar Sua Alteza, a Primeira Princesa, como esposa, e pretendo cumprir essa promessa.

As costas esguias da mulher visivelmente enrijeceram. Ela provavelmente sentia uma dor como se seu coração estivesse sendo rasgado. Mas o homem sequer titubeou.

— Não sei o que esperava de mim, mas deixei claro desde o início que não tinha nenhuma intenção de corresponder aos seus sentimentos.

O sangue drenou da face da mulher. Como se não possuísse qualquer empatia, Varkas soltou um suspiro cansado e acrescentou:

— Prefiro não ter encontros tão desconfortáveis no futuro. Como meu noivado foi oficialmente decidido, desejo evitar escândalos desnecessários.

A mulher cambaleou para trás e desabou no chão como se as forças a tivessem abandonado. Um breve olhar de irritação passou pelo rosto do homem à sua frente.

Ao ver aquele rosto sem emoção, onde não se encontrava nem o menor traço de piedade, Thalia sentiu arrepios subirem. Aquela expressão, aqueles olhos... tudo era assustadoramente familiar.

Thalia saiu apressadamente daquele lugar. Se tivesse chegado um pouco mais rápido, a pessoa que estaria desabada no chão soluçando não seria aquela mulher, mas ela mesma. Apenas de imaginar aquela cena, arrepios percorreram sua espinha.

Se Varkas a olhasse daquela forma enquanto ela implorava por seu amor, poderia ter morrido de imediato. Não — definitivamente teria morrido.

Por causa disso, Thalia passou a ter um medo genuíno dele. Um medo sincero, de um homem que sabia ser capaz de levá-la à morte com apenas algumas palavras.

Naturalmente, sua atitude em relação a Varkas ficou ainda mais defensiva do que antes. Mais do que o objeto de seu amor não correspondido, passou a vê-lo como alguém mais próximo de um inimigo mortal.

Se não conseguisse eliminar completamente esse sentimento, viveria em uma dor terrível para resto de sua vida, e sabia disso.