Tradução: Amme
Capítulo 28
Aquilo deve ter ocorrido alguns meses antes do seu décimo sexto aniversário.
Ansiosa com o fato de que em breve se tornaria adulta, havia estado importunando Varkas mais do que o habitual, exigindo que escolhesse roupas e acessórios para ela. Eram tentativas lamentáveis de chamar sua atenção.
Normalmente, ele tendia a ignorar tais exigências, mas talvez exausto por seu importunar persistente, obedientemente ofereceu sua opinião. Talvez o pensamento de que estaria livre dela em poucos meses o tivesse tornado mais generoso.
Talvez exatamente por isso, ela sentia tanto ódio a ponto de querer matá-lo. Mesmo assim, estava desesperada o suficiente para fazer qualquer coisa se significasse manter Varkas preso a ela. Porque o fim que uma vez parecia que nunca chegaria estava se aproximando.
— O que acha deste como o vestido que usarei na cerimônia de maioridade?
Ela vestiu um esplêndido vestido de seda trazido do sul e deliberadamente projetou o torso para a frente diante dele.
Varkas apenas lançou um olhar impassível, como sempre. Diante da indiferença, ela sentiu o rosto ficar cada vez mais quente.
Ele estava agora passando dos dezenove para os vinte anos, e o corpo que acabara de se desfazer dos traços da adolescência havia amadurecido firmemente e começado a exibir uma masculinidade evidente. Se não fossem os olhos, tão sem emoção quanto os de um morto, poderia parecer um anjo descido dos céus.
Thalia deliberadamente ergueu a voz para esconder a tola palpitação em seu peito.
— Perguntei o que acha!
— ...Parece uma criança que roubou a roupa de um adulto e a colocou.— Por fim, os lábios outrora fechados se abriram e se pronunciaram. Ela levantou os cantos dos olhos bruscamente. O homem acrescentou mais uma frase como se irritado. — Cai terrivelmente mal em você.
Ela o fuzilou com o olhar, o rosto avermelhando. Mas como havia sido ela quem pedira a opinião daquele homem direto, não tinha exatamente como rebatê-lo. Após lançar outro olhar venenoso contra ele, Thalia marchou atrás do biombo e revirou a montanha de roupas de forma agitada.
Estava determinada a fazer aquele homem, sempre tão indiferente, corar.
Depois de um longo tempo, escolheu uma roupa ainda mais ousada — um vestido provocante com decote cortado de forma perigosamente profunda.
Thalia hesitou por um momento, pensando se era um pouco demais, depois logo tomou uma decisão e o vestiu rapidamente. Ao olhar para o espelho, viu o reflexo de uma garota cuja beleza era de tirar o fôlego.
Ela se examinou de todos os ângulos com um olhar satisfeito. O corpo, outrora fino como uma vidoeira, havia começado a mudar aos poucos por volta dos seus quatorze anos. O peito liso havia formado pequenos brotos e começado a inchar ao tamanho de maçãs, e a carne havia começado lentamente a preencher os quadris anteriormente sem forma.
Thalia se orgulhava bastante de suas mudanças. O pensamento de que estava se aproximando da beleza perfeita que Senevia possuía a deixava infinitamente exaltada. Uma vez que Varkas soubesse o que ela possuía, também pensaria de forma diferente. Porque em breve se tornaria a mulher mais bela do mundo.
Cheia de esperança, ela irrompeu de trás do biombo.
— E este?
Varkas, que havia estado olhando pela janela com uma expressão entediada, virou a cabeça para si. Por fim, algo que poderia ser chamado de emoção apareceu no rosto dele. Porém, não era uma particularmente positiva.
— O primeiro vestido. — Ele falou de forma um tanto abrupta, após seus olhos percorrerem sua figura, uma leve ruga se fazendo visível entre as belas sobrancelhas
Após uma breve pausa, ele inspirou fundo e acrescentou bruscamente:
— Escolha aquele.
A voz era seca, sem o menor traço da admiração ou agitação que ela havia buscado. Mesmo assim, Thalia sentiu como se o coração fosse explodir simplesmente porque ele se lembrava do primeiro vestido entre as dezenas de roupas que havia mostrado.
Deliberadamente exibiu um sorriso estranho e sensual.
— O que é isso? Fingiu não se importar... mas parece que estava prestando atenção, afinal.
Ele não deu resposta. Fosse o que fosse, parecia apenas querer que aquela demonstração tediosa terminasse o mais rápido possível. A atitude arrogante a irritou por um momento, mas Thalia decidiu relevar, generosamente. Afinal, não havia decidido mostrar a ele aos poucos que havia melhorado, mesmo que fosse difícil mudar a atitude dele imediatamente?
Thalia cantarolou enquanto pegava o primeiro vestido que havia usado. Este era feito de um veludo delicada e elegante, densamente bordado por fadas. Aquele vestido nunca sairia do armário dela de agora em diante — porque era o que havia chamado a atenção de Varkas.
Ela se trocou rapidamente e saiu, depois girou ostensivamente na frente do rapaz.
— Este, certo?
Ele a encarou em silêncio. Como se não fosse nada de estranho que uma mulher que havia estado fazendo birra o dia todo estivesse de repente sorrindo como uma tola. Talvez para ele não houvesse diferença real entre ela enraivecida como um monstro ou rindo à toa como uma louca.
Mas Thalia queria acreditar que a atitude dele em relação a ela havia mudado. Afinal, o olhar que antes era indiferente havia em algum momento começado a pousar em seu rosto por longos períodos. E não era apenas isso — a forma como lhe falava também parecia mais suave do que antes.
Thalia, que havia notado agudamente aquelas mudanças sutis, sentiu uma esperança, tênue como um fio quebradiço, surgir no coração. Poderia ser que Varkas também estivesse triste com a separação que se aproximava? Haviam ficado juntos por tanto tempo que talvez ele houvesse criado um apego a ela, mesmo que fosse apenas pelo ressentimento.
Ela se agarrava lamentavelmente àquela esperança vã.
— Se eu dançar com este vestido, não vou parecer uma rainha das fadas?
Com a pergunta, uma fissura fina apareceu entre as sobrancelhas do rapaz. Ele estava cansado de suas perguntas intermináveis? Não. Talvez estivesse pensando numa resposta. Ela decidiu pensar da forma mais favorável.
— Não fique aí parado. Pratique comigo.
Antes que Varkas pudesse responder, Thalia agarrou seu braço e o puxou. O mesmo que jamais teria cedido no passado, deixou-se ser arrastado relutantemente, cedendo.
Está vendo?
Thalia ficou triunfante.
Algo realmente mudou.
Ela o puxou com mais força, pois permanecia rígido como se não tivesse intenção de cooperar ativamente, e girou em torno de si mesma. Então o pé tropeçou numa arca no chão e ela perdeu o equilíbrio.
Thalia instintivamente agarrou-se ao braço que já segurava. Varkas falou algo ininteligível e enrolou apressadamente um braço ao redor de sua cintura. Mas como o quarto estava uma bagunça, não havia onde pisar adequadamente — as roupas empilhadas em desordem se enrolaram também no tornozelo dele, e os dois caíram juntos sobre o tapete.
Thalia soltou uma pequena praga.
— Eu disse que deveria ter arrumado o quarto imediatamente!
Varkas, que havia sofrido esse infortúnio enquanto tentava protegê-la, levantou uma sobrancelha. Era apenas um cavaleiro e guarda, não um criado — ela não podia forçá-lo a fazer tarefas triviais como limpar e organizar. Mesmo sabendo disso perfeitamente, Thalia resfolegou com ele, sem razão. — Se o meu traseiro ficar roxo, não irei perdoá-lo, seu guarda inútil!
Enquanto resmungava e tentava se levantar, sentiu uma dor ardente no couro cabeludo.
Thalia o encarou incrédula.
— Você acabou de puxar meu cabelo?
Um suspiro curto escapou dos lábios dele.
— Parece que seu cabelo ficou preso no botão da minha manga.
Então ele puxou levemente para a frente o braço que havia estado enrolado atrás das costas dela. Quando uma dor aguda irrompeu no couro cabeludo, Thalia gritou e bateu em seu peito.
— Isso dói, seu idiota!
Ele parou de se mover e a olhou silenciosamente, notando que os orbes azuis haviam ficado marejados de lágrimas. Embora o contato visual direto a fizesse estremecer internamente, Thalia deliberadamente sustentou o olhar. Depois de soltar outro suspiro baixo, Varkas enrolou o braço pelas costas dela novamente e começou a mover a mão com cuidado, como se tentando desenrolar a madeixa presa no botão.
Thalia sentada entre os joelhos do rapaz, desviou os olhos ansiosamente. Só então percebeu, com imenso atraso, o quão imprópria era a distância entre seus corpos, assim como a posição em que se encontravam.
O leve cheiro de sabão e menta que emanava do corpo dele fizeram com que seu coração batesse violentamente, a ponto de parecer prestes a explodir a qualquer momento.
Sentiu medo que Varkas também pudesse ouvi-lo.
