O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 27

Capítulo 27

Tradução: Amme

Capítulo 27


Os olhos do homem, brilhando de expectativa, se colaram pegajosamente à altua de seus seios, antes de deslizarem lentamente para baixo. Ficaram encarando por um longo tempo, como se traçando o contorno revelado através do tecido fino, depois rastejaram de volta para cima e se fixaram nos olhos dela.

Thalia sentiu cada músculo do corpo travar. Sabia que precisava fugir imediatamente, mas as pernas não se moviam.

O homem umedeceu o lábio inferior e se aproximou, tal qual uma cobra, rastejando.

— Se Vossa Alteza me permitisse, eu poderia...

A mão áspera e calejada tocou uma madeixa de seus cabelos, em seus ombros. Ela assistiu em terror quando o estranho enrolou os fios dourados em torno de seus dedos, que mais pareciam toras de madeira.

Sentia que não conseguia respirar direito. Precisava gritar, bradar em como ele ousava tocá-la, mas nenhum som saiu de seus lábios entreabertos.

Talvez tomando a imobilidade dela como permissão, o homem acariciou o cabelo dourado com cuidado, movendo-se afim de ter mais proximidade, e então desta vez estendeu a mão em direção ao seu rosto. A palma, áspera como lixa, roçou contra a pele delicada de sua bochecha, e a fez se encolher.

No exato momento em que o medo a dominou, uma mão grande, envolta numa luva de couro, disparou de repente da escuridão e agarrou o pulso do homem.

Thalia estremeceu e recuou como se acordando de pesadelo.

Ao erguer a cabeça, viu olhos azul-prateados brilhando ferozmente.

Naquele instante, seu coração despencou com um baque.

Por instinto, ela se pressionou contra a parede.

Varkas, que a estava olhando com um rosto inexpressivo, virou lentamente o olhar para o sacerdote. Fosse o que fosse que enxergou naqueles olhos, o outro homem, que havia estado paralisado como pedra, começou a tremer por inteiro como se tivesse se deparado com um monstro.

— E-eu estava apenas... Sua Alteza...

— Silêncio.

A voz profunda e grave cortou a desculpa do homem. O rosto deste, que havia ficado completamente branco, se torceu terrivelmente de dor. À primeira vista, Varkas parecia segurá-lo com simples firmeza, mas aparentemente estava aplicando força suficiente para quase quebrar o osso.

Ele falou devagar para o rosto do homem, agora coberto de suor frio.

— Tenho certeza de que nenhum de nós quer que isso se torne um problema ainda maior. Volte para o seu lugar em silêncio.

O jovem sacerdote, que havia estado gemendo de dor, assentiu com vigor. Varkas soltou o braço e acrescentou:

— Até deixarmos este lugar, seria prudente que não aparecesse diante dos meus olhos.

— F-farei isso. — O homem soluçou enquanto apertava o pulso, que já começava a inchar e adquirir um tom roxo.

Varkas apontou o queixo como se mandando ele se apressar. O homem fugiu imediatamente.

Depois de encarar por um momento aquela figura sem nenhuma dignidade em fuga, Varkas voltou a cabeça para ela.

Sem perceber, Thalia baixou os olhos. Apesar de não ter feito nada de errado, sentiu a boca focar seca por alguma razão e um calor subir na nuca.

Após observá-la clinicamente sua voz, tão calma a ponto de causar arrepios, soou.

— Siga-me. Vou escoltá-la até sua acomodação.

Thalia, cujo corpo havia estado tenso e rígido, deixou os braços caírem com a estranha sensação de fraqueza que a tomou.

Naquele instante, um ressentimento e uma tristeza peculiares se fizeram sentir em seu âmago.

Algo horrível quase aconteceu comigo.

Eu estou tão apavorada que sinto que vou desmaiar.

Então por que você consegue agir tão distante e indiferente?

Thalia mordeu o lábio afim de controlar a expressão ressentida, e passou por ele.

Não queria demonstrar fraqueza, nem que isso custasse toda sua sanidade.

Por quanto tempo ela permaneceu assim, caminhado pelo jardim de cabeça erguida? Finalmente, ao fim do longo corredor, viu a acomodação para as crentes.

Mantendo o olhar fixo em frente, ela falou bruscamente:

— Já chegamos, então pare de me seguir!

Cavaleiros montavam guarda ao redor do prédio. Algo como o que havia acabado de acontecer não se repetiria. Ela apressou os passos como se fugindo.

Mas antes de dar mais do que alguns passos, se viu presa entre ele e a parede externa do prédio.

Thalia ergueu os olhos surpresos para cima, observando-o.

— O que... O que é isso, de repente...?

— Quando alguém já se queimou gravemente uma vez, quando brincou com fogo... — Sua soava como se raspasse o interior da garganta. Talvez sentindo isso, ele pressionou os lábios por um momento. Só após isso, se pronunciou novamente, inteiramente mais calmo, — Não seria hora de ter mais cuidado?

Ela sentiu o sangue drenar de sua face.

Varkas estudou aquele rosto com olhos afiados, como se o dissecasse, depois torceu os lábios.

— Ou você realmente quer se jogar por aí descuidadamente, e "brincar"?

Thalia atacou sem nem pensar. Mas desta vez também, antes que a mão alcançasse o rosto do homem, seu pulso foi capturado.

Varkas acrescentou devagar:

— Se for esse o caso, por favor se contenha por enquanto. Até esta viagem terminar, prefiro não lidar com problemas incômodos.

Ela fechou os lábios trêmulos com força. Ele soltou seu braço e se virou lentamente. — Confio que compreendeu ao que estou me referindo.

Naquele momento, se tivesse uma faca na mão, teria cravado nas costas dele sem hesitar.

Thalia fuzilou o corpo que recuava sem fazer qualquer som, tal qual um peixe nadando pela água, com um olhar assassino. Então, sentindo a visão embaçar, virou rapidamente a cabeça. Mesmo sabendo que ele jamais olharia para trás, estava com medo de que pudesse flagrar suas lágrimas.

Esfregou as pálpebras com a manga com rispidez e entrou correndo na acomodação, como se fugindo.



Na manhã seguinte, a cerimônia prosseguiu como se nada tivesse acontecido.

Thalia se sentou junto à janela do quarto designado a ela e olhou para os gêmeos que se dirigiam ao altar, e para Varkas que os seguia, em sua função de guarda.

Se tudo tivesse ocorrido como deveria, ela também estaria entre eles. Mas havia dado uma desculpa, alegando estar doente — recusando, assim, com uma justificativa ridícula, comparecer a uma cerimônia cuja presença dos membros da família imperial era obrigatória.

Normalmente, a cerimônia deveria ter sido adiada, mas pela insistência firme do Príncipe Herdeiro, o evento prosseguiu conforme o programado. Talvez os sacerdotes estivessem satisfeitos com essa situação. Provavelmente não tinham nenhum desejo de conceder a bênção de Deus a uma bastarda, de qualquer forma.

...Talvez eu devesse ter realmente participado.

Thalia, que havia estado rindo baixo, apagou o sorriso do rosto quando viu Ayla e Varkas de pé lado a lado diante do altar. Se tivesse se juntado a eles ali, não sabia o que poderia ter feito. Talvez tivesse se lançado sobre eles, tentando matar um dos dois. Ou ambos.

Ela não era mais capaz de distinguir qual dos dois odiava mais.

Levou o dedo aos lábios por hábito, depois abaixou o braço porque não queria estragar a unha que havia conseguido fazer crescer novamente com esforço.

Mas não conseguia continuar assistindo.

Fechou as cortinas e se jogou na cama. Encolhida na escuridão sombria, as memórias da noite anterior retornaram à sua mente.

O olhar cheio de desejo.

A mão tocando seu rosto.

E os olhos frios de Varkas...

— Quando alguém já se queimou gravemente uma vez, quando brincou com fogo... não seria hora de ter mais cuidado?

Thalia puxou o cobertor sobre si, da cabeça aos pés.

Varkas acreditava que ela havia seduzido aquele homem. Talvez não fosse muito diferente disso. Ela estava sempre se acuando com ações tolas... E a resgatar quando estava em perigo havia sido o papel dele por muito tempo. Agora que finalmente havia escapado daquele dever cansativo, era natural que ficasse incomodado com algo parecido acontecendo novamente diante de seus olhos.

Ele deve estar verdadeiramente farto de mim agora.

Ela enterrou o rosto no travesseiro e riu baixinho. Lembrou-se do momento em que ele havia saído da vida dela. Talvez A memória lhe veio à tona porque algo parecido havia ocorrido no dia anterior.

Thalia encarou em silêncio o raio de luz que se infiltrava pelas cortinas, depois fechou os olhos, devagar. E, assim, as memórias que havia enterrado profundamente se desdobraram caoticamente por trás de suas pálpebras.