O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 26

Capítulo 26

Tradução: Amme

Capítulo 26


Gareth, que havia estado observando o perfil da meia-irmã com olhos desconfiados, de repente se irritou consigo mesmo por prestar tanta atenção a cada movimento daquela garota insignificante, e desviou o olhar.

De que importava o que havia dentro daquela cabeça? De qualquer forma, no dia em que subisse ao trono, ela seria uma existência que apagaria do mundo para sempre. Tinha apenas que suportá-la até lá.

Como se para apagar a irritante presença da irmã, esvaziou o copo de vinho em um único gole.



Thalia levou o vinho aos lábios, fingindo estar entediada.

Então, ao notar que as pontas dos dedos tremiam levemente, imediatamente pousou a taça.

Escondeu a mão sob a mesa, tentando parecer o mais natural possível, e umedeceu os lábios ressecados.

O lugar que Varkas havia tocado ardia como se estivesse em chamas. Este era o caso, mesmo considerando que ele a havia tocado com as mãos enluvadas; s sensação das juntas firmes que havia sentido através do couro parecia ter se infiltrado e alcançado sua própria pele.

Tensionando os ombros, que continuavam tentando encolher-se, esfregou a palma úmida de suor no tecido da saia. Podia sentir a humidade começar a fazer o vestido grudar-se à pele.

Naquele instante, uma onda de embaraço a varreu. O vestido que havia escolhido para provocar a raiva de Gareth parecia estrangulá-la. Sentindo os ombros e as costas expostos arderem, ela fechou o punho com força.

Mesmo sabendo muito bem que era impossível que Varkas estivesse olhando para ela com desejo, seus nervos ainda pareciam estar em frangalhos, ao ponto de sentir dor.

Thalia suprimiu desesperadamente o impulso de virar a cabeça por cima do ombro e verificar para onde aquele homem estava olhando.

Devido aos muitos anos de atuação em sua proximidade, ela era capaz de manter uma expressão calma se quisesse, mas não havia nada que pudesse fazer em relação ao suor que escorria lentamente pela pele.

Sentindo o pedaço fino grudando na pele como líquido pegajoso, Thalia mordeu o lábio inferior. Escolher aquele vestido havia sido uma decisão verdadeiramente estúpida.

— A comida não agrada ao seu paladar?

Com a voz repentina, Thalia moveu o olhar.

O jovem sacerdote sentado à sua frente a encarava fixamente. Haviam dito que era o abade?

Thalia encolheu os ombros de forma deliberada.

— É humilde, comparada à comida oferecida no palácio imperial.

Com as palavras indiferentes que jogou, o rosto do homem se torceu levemente. Como se lhe dizendo para parar de lhe prestar atenção, ela virou a cabeça bruscamente e pegou um pedaço pequeno de bolo.

Se fingisse comer algo, ele não tentaria conversar com ela desnecessariamente. Pensando nisso, enfiou a coisa seca e esfarelenta na boca, mastigando e engolindo mecanicamente. Era como comer esponja. Ela batalhou a náusea e tomou um gole de vinho.

Então, percebendo que vários sacerdotes persistentemente lançavam olhares furtivos em sua direção, franziu as sobrancelhas. Pensou que as miradas que se grudavam a ela de forma pegajosa eram mais nauseantes do que comida gordurosa.

Levantou-se subitamente.

— Que banquete decepcionante. Voltarei agora e dormirei um pouco.

Gareth lançou-lhe um olhar irritado. Normalmente, teria jogado mais algumas palavras bem selecionadas afim de arranhar o temperamento do irmão, mas parecia que a bile poderia subir a qualquer momento — precisa se remover logo.

Assim, deixou o salão rapidamente.

Assim que saiu do espaço impregnado de cheiro de óleo, álcool e velas queimando, o estômago agitado pareceu se assentar um pouco. Thalia respirou fundo, varreu para trás a testa úmida de suor frio e caminhou suavemente pelo corredor. Podia sentir o ar fresco da noite acariciar suas costas. Seus braços se cobriram de arrepios, o que a fez acelerar levemente os passos.

Às vezes, não conseguia entender por que fazia coisas assim. Que sentido havia em se expor sob os olhos das pessoas e causar conflito?

— O Príncipe Herdeiro parece completamente incapaz de tolerar a sua existência. Às vezes, parece que ele a odeia até mais do que a mim. — O fantasma da voz de Senevia, certa vez murmurada com satisfação em um momento raro de revelação, pareceu fazê-lo junto ao seu ouvido novamente.

Provavelmente fora no dia da cerimônia comemorativa da falecida Imperatriz Bernadette. Quando Gareth a viu entrar no salão conduzida pela mão da mãe, perdeu completamente a razão. Os nobres ficaram horrorizados e tentaram detê-lo quando ele gritou e começou a estrangular a jovem princesa, mas o Príncipe Herdeiro não cedeu. Só quando dois cavaleiros intervieram que conseguiram arrancá-lo de cima dela.

Thalia, finalmente livre do aperto violento, rastejou até os pés da mãe e se encolheu nos braços que a envolviam, como que a protegendo. Por um breve momento, Thalia sentiu um alívio tão intenso que causou mais lágrimas do que o ataque por si só — mas então viu um olhar de satisfação passar pelo rosto de Senevia.

Deve ter sido a partir daquele dia. Foi então que começara a provocar Gareth sempre que a oportunidade se apresentava. Sua reputação, já terrível, caiu ao fundo do poço, mas não importava — a reputação do Príncipe Herdeiro também levaria um golpe, o que faria sua mãe satisfeita.

De repente, uma risada vazia escapou de seus pulmões.

Mesmo depois de as coisas terem chegado a esse ponto, era cômico que ainda estivesse lutando para conquistar nem que fosse um punhado do afeto de Senevia. Sabia bem que, mesmo se fosse capaz de arrastar a honra do Príncipe Herdeiro na lama, sua mãe jamais a amaria.

Porque ela não amava ninguém. Nem o Imperador, nem mesmo Arthros, a quem tanto prezava. Para ela, tudo e todos nada mais eram do que ferramenta e ou meios para um fim.

Thalia cogitou que talvez continuasse repetindo essas comportamentos exatamente porque sabia disso muito bem. Porque se não conseguisse se fazer útil, então se tornaria verdadeiramente nada para sua mãe...

— Vossa Alteza, a Segunda Princesa.

A voz repentina a arrancou de seus pensamentos.

Ao virar a cabeça, viu uma figura parada ereta em um lado do corredor escuro. Percebendo que era um dos sacerdotes que havia estado persistentemente lançando olhares furtivos para ela no salão de banquetes, o corpo de Thalia enrijeceu.

Ele me seguiu?

Ela olhou cuidadosamente ao redor. No longo corredor que levava ao jardim, não havia uma única alma viva à vista.

Quando concluiu que ele a havia seguido silenciosamente até aquele lugar isolado, um arrepio percorreu sua espinha.

— Qual é o seu objetivo? — Thalia tentou não demonstrar nenhum medo e deliberadamente assumiu uma voz forte. Felizmente, o blefe pareceu funcionar, pois ela sentiu o homem hesitar. Lançando-lhe um olhar afiado, pressionou para que ele se virasse e saísse correndo. — Perguntei qual é o seu objetivo.

— É p-por causa do que a senhorita disse pouco antes... — O monge balbuciou.

Ela franziu as sobrancelhas.

— O que eu disse?

— B-bem... Há pouco, no salão de banquetes...

O homem, se contorcendo de forma repugnante, corou sobre o rosto sardento e continuou lançando olhares estranhos e sugestivos em sua direção.

Thalia controlou as pernas para não recuar. Se demonstrasse fraqueza, o outro só viria com mais força. Então, ao invés, ergueu o queixo com arrogância.

— Não faço ideia do que está tentando dizer. Se não tiver nenhum assunto em particular, seguirei meu caminho.

— A s-senhorita disse... que queria estar à altura das expectativas de Sua Alteza Imperial, o Príncipe Herdeiro... não disse? — O homem deixou escapar às pressas.

Thalia, que havia estado se virando em direção ao jardim, parou e olhou para trás.

Então ele a havia seguido devido às palavras que ela havia jogado provocativamente em resposta ao aviso de Gareth para não se divertir com os sacerdotes.

De repente, como se água gelada tivesse sido derramada sobre ela, seu corpo congelou.