O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 24

Capítulo 24

Tradução: Amme

Capítulo 24




Quando o jovem Príncipe Herdeiro entrou na rua que levava ao Monastério de Mordawin com seus acompanhantes, centenas de cidadãos espalharam pétalas de flores pela beira da estrada.

Gareth ergueu uma mão como se respondesse à recepção. Os aplausos dos cidadãos ficaram ainda mais altos.

Era um ritual que havia se repetido de forma fatigante por vários dias, mas de alguma forma ele não se cansava. Ergueu o queixo ainda mais alto e cavalgou triunfantemente.

Depois de atravessar as ruas da cidade lotadas de pessoas, um amplo pátio e um templo magnífico surgiram à vista. Ele deteve a ordem dos cavaleiros em frente a um edifício que parecia ser um salão de orações.

— A jornada deve ter sido difícil até aqui.

Um momento depois, um homem vestido numa túnica monástica branco-pura deu um passo para frente.

Gareth o examinou cuidadosamente de cima do cavalo.

Era um homem com um rosto afiado como a ponta de uma flecha e cabelos prateados com um toque azulado. Logo percebeu que aquele jovem monge não era humano — sua pele era estranhamente pálida, e as pontas das orelhas se elevavam em pico. Provavelmente era um meio-elfo ou quarto-elfo.

Isso não era necessariamente estranho. Na região nordeste do antigo Reino de Osiriya, mestiços com sangue élfico ou anão podiam ser encontrados sem dificuldade.

Gareth suprimiu o nojo instintivo em relação a uma raça diferente da sua e perguntou em tom digno:

— É o abade deste lugar?

— Exatamente, nobre Príncipe Herdeiro. Meu nome é Basilisk, e fui encarregado de administrar este monastério.

O homem exibiu um sorriso gentil.

— Dou-lhe as mais sinceras boas-vindas a Mordawin.

— Esta terra é o lugar onde meu ancestral, o Grande Imperador Darian, obteve sua primeira vitória contra o Norte, e o lugar sagrado onde recebeu a revelação de sua missão de unificar os Dez Reinos. Fico sinceramente satisfeito em ter chegado aqui também.

Gareth desceu rapidamente do cavalo e falou com o tom arrogante característico da família imperial.

— De acordo com a tradição imperial, desejo receber bênçãos em nome dos santos, então reze para que a graça de Deus se faça presente no meu futuro e de minha irmã.

— O farei com todo prazer.

O abade respondeu respeitosamente e acrescentou com cuidado:

— Por ora, que tal ir à minha residência hoje para aliviar o cansaço da viagem? Um grande banquete vem sendo preparado há vários dias para receber Vossas Altezas Imperiais.

Gareth hesitou por um momento. Originalmente, deveriam se hospedar nas acomodações para peregrinos — ficar na residência do abade poderia ser visto como um movimento político.

Ele olhou para trás, para Varkas, que estava atrás dele como uma sombra. Talvez para não chamar a atenção das pessoas, Varkas havia coberto metade do rosto com um capuz longo e drapeado. Ele olhou ao redor do monastério lentamente, como se considerando a questão com cuidado, e depois de um longo momento, assentiu.

— Faça como Vossa Alteza achar melhor.

— Bem. Então ficaremos na residência do abade esta noite.

Com a permissão concedida, os criados que aparentemente já estavam prontos e aguardando desceram as escadas em perfeita ordem para receber os hóspedes. Gareth entregou as rédeas de seu cavalo para um deles, e falou com Varkas.

— Cuide bem de Ayla. É a primeira vez que ela viaja uma distância longa, então tudo deve lhe parecer estranho e desconfortável.

Varkas, que havia estado acariciando seu cavalo, deu um leve aceno de cabeça como resposta.

Gareth franziu levemente as sobrancelhas.

Se ao menos ele demonstrasse à minha irmã mesmo que uma parcela do mesmo cuidado que demonstra por seu cavalo.

Resmungando interiormente, Gareth seguiu os sacerdotes. Então, de repente, uma carruagem esplêndida na borda do pátio irrompeu em seu campo de visão.

Ele fuzilou a janela da carruagem, coberta por cortinas grossas, e franziu as sobrancelhas. Seja porque estava se contendo ou porque havia finalmente aprendido seu lugar, Thalia Roem Gurta havia ficado trancada dentro daquela carruagem durante toda a jornada ate o momento, e não havia mostrado sua presença.

Estava firmemente preparado para torcer aquele pescoço esguio se ela tentasse qualquer artimanha, então aquilo quase lhe trazia uma estranha sensação de vazio.

Seria bom se ficasse quieta assim para o resto da eternidade...

Mas não havia como Thalia Roem Gurta fazer isso. Não era ela uma mulher que havia se juntado à viagem desde o início com planos sujos em mente? Ninguém podia saber quando, onde ou que tipo de problema ela estava preparada para causar.

Gareth, depois de encarar fixamente a carruagem, gritou furiosamente na direção de Varkas.

— E certifique-se de dizer claramente àquela desgraçada para que fique quieta como um rato morto e não apareça diante dos meus olhos, assim como tem feito até agora.

Os olhos de Varkas se estreitaram levemente. Parecia não gostar que Gareth revelasse abertamente sua hostilidade em relação à meia-irmã. Na realidade, agora que parava para pensar, em uma ocasião - incomum para a personalidade do outro -, havia até dado um sermão à Gareth para que tomasse cuidado com palavras e atitudes, em prol de sua reputação.

A memória o fez bufar abertamente, e se virou. Quem entre o povo do Império não sabia que o Príncipe Herdeiro queria despedaçar a filha bastarda do pai? Qual era o sentido de disfarçar que não era esse o caso?

Ergueu o queixo alto e seguiu os sacerdotes até a grande mansão preparada atrás do salão principal.

A residência do abade era tão esplêndida quanto o anexo preparado no palácio imperial. Com a perspectiva de passar ao menos aquela noite com conforto, um sorriso satisfeito apareceu naturalmente nos lábios do príncipe. Ele seguiu caminho pelo magnífico salão de entrada.

O abade o guiou até o quarto mais esplêndido da mansão. Gareth olhou ao redor do quarto razoavelmente espaçoso como se o avaliasse. Como parecia ser o cômodo geralmente usado pelo próprio abade, pinturas retratando escrituras estavam penduradas nas paredes, e livros de orações e textos teológicos descansavam sobre a escrivaninha. As decorações não eram do seu gosto, mas tirando isso, era decente o suficiente para passar uma noite.

Ele jogou casualmente a capa impregnada com cheiro de cavalo em uma cadeira, e deu ordens aos criados que esperavam junto à porta.

— Quero me banhar primeiro. Preparem uma banheira grande com água limpa, grande o suficiente para eu estirar as pernas.

Assim que os criados se dispersaram, ele se sentou numa cadeira junto à janela e apontou o queixo para os pajens que o haviam seguido. Com a ordem silenciosa, os dois meninos imediatamente começaram a ajudá-lo a remover sua armadura.

Gareth deixou o corpo nas mãos deles e pegou a taça de vinho na prateleira. Um criado perspicaz imediatamente encheu a taça. Ele se recostou na cadeira e tomou um gole do vinho gelado. O líquido espesso escorreu pela garganta, e um aroma intenso se espalhou pela boca. Saboreando o gosto forte que persistia na ponta da língua, ele soltou um gemido de prazer.

Parecia que o banquete seria algo a se antecipar. O vinho preparado pelo monastério agradava até sua língua, acostumada a todo tipo de licor raro.

Parece que o negócio de lugares sagrados é bastante lucrativo.'

Ele olhou pelo solar vasto do monastério pela janela e torceu os lábios. Sacerdotes de alto escalão frequentemente desfrutavam de uma riqueza não inferior à da maioria dos nobres. O abade daquele lugar também devia estar vivendo uma vida tão luxuosa quanto.

Livre da armadura pesada, Gareth tirou as roupas encharcadas de suor e se mergulhou pesadamente na água do banho que os criados haviam preparado. Estes, a postos, imediatamente se puderam a esfregar seu corpo com escovas macias. Ele recostou a cabeça na borda da banheira e bebeu o restante do vinho com apreciação.

Depois de um tempo relaxando, alguma vitalidade voltou ao seu corpo, que estava exausto após horas ininterruptas de cavalgada.

Saiu da banheira e colocou as roupas de noite de verão que os criados haviam preparado. Depois de vestir um manto de veludo com decoração mínima, deixou o quarto, guiado pelos sacerdotes.

— A refeição foi preparada no salão logo abaixo. — O sacerdote que segurava uma lamparina falou com cuidado, enquanto descia as escadas de mármore cobertas por um tapete macio.

Gareth apenas deu um leve aceno com a cabeça, o rosto indiferente. Um governante tinha que falar o mínimo possível — sabia muito bem o quanto o silêncio era capaz de realizar. Afinal, tinha ao seu lado constantemente um homem que era a própria encarnação da quietude.

Ele encontrou o dito cujo parado ereto na entrada do salão, como se o aguardasse, e franziu as sobrancelhas. Sempre que o via, uma estranha hostilidade subia-lhe à cabeça — mesmo que Varkas nunca o tivesse desafiado uma única vez. Seria por causa da presença única daquele homem? Ou porque quase nunca revelava o que estava pensando?

Gareth o havia observado desde a infância, mas Varkas sempre parecia um estranho com quem precisava ter cautela. E esse fato o deixava ainda mais inquieto internamente. Seria realmente seguro confiar sua outra metade a esse homem?

— Onde está Ayla?

— Sua Alteza está descansando no prédio do dormitório usado pelas sacerdotisas. Disse que estava cansada e não compareceria ao banquete.

— Deve estar esgotada depois de acampar por vários dias.

— Preparei e enviei medicamentos que auxiliam na recuperação e trazem vitalidade, portanto não há necessidade de grande preocupação.

Com a resposta fria, Gareth franziu as sobrancelhas. Sabia que aquele homem ao menos tratava a irmã com mais gentileza. Apesar de estar no auge de sua vida, Varkas Laedgo Siarkan agia como se as mulheres fossem um fardo com o qual era obrigado a lidar. Era tão cortante com as que se aproximavam de si que até Gareth, apenas um observador alheio em tais momentos, sentia um quê de pena.

Bom, ao menos este homem permitia que Ayla ficasse ao seu lado — talvez Gareth devesse considerar isso uma sorte. Mesmo assim, simplesmente não conseguia encarar com bons olhos aquela atitude indiferente. Este era um homem prestes a possuir o tesouro mais precioso do Império, e não demonstrava o mínimo traço de gratidão pela honra.

— Ayla é sua noiva. Não deveria demonstrar um pouco mais de cuidado e preocupação? — Gareth rosnou, em tom um tanto afiado.