Tradução: Amme
Capítulo 23
Contrariando suas expectativas, a jornada prosseguiu tranquilamente.
As noites, densas como piche, passavam, mas a manhã chegava sem que ninguém estivesse encharcado em sangue, e antes que o sol subisse alto no céu, todos embalavam os pertences e partiam novamente.
O cronograma foi se atrasando pouco a pouco porque os soldados, exaustos pelo calor sufocante, ficavam para trás. Mas afora isso, a peregrinação avançava sem qualquer grande contratempo.
O cortejo, liderado por Gareth e seus guardas pessoais, chegou à pequena cidade de Sortica, no noroeste, no quinto dia após deixar o palácio imperial. Após passarem um dia no local, continuaram seu caminho para o norte.
Durante esse tempo, Thalia mantinha uma vigilância obsessiva sobre os acompanhantes que Senevia havia enviado. Eles fingiam ser tão leais que era nauseante, mas ela não deixava sua desconfiança de lado nem por um único instante. Estavam apenas esperando o momento certo — lhe era óbvio que algo terrível aconteceria em breve.
Porque Thalia sabia que, tal qual uma sombra ominosa, tudo no que sua mãe se envolvia tendia a ser permeado por algum tipo de conspiração.
Se não hoje, amanhã. Se não amanhã, depois...
Em breve, uma cena horrível se desenrolaria diante de seus olhos.
Thalia não sabia se a temia ou a aguardava ansiosamente.
Sempre que via Varkas, que a tratava com tanta frieza, agir infinitamente gentil com Ayla, desejava que alguma tragédia terrível acontecesse de imediato. Se os dois fossem reduzidos a um estado tão macabro que nem os próprios irmãos conseguissem reconhecê-los, sentia que talvez o peso em seu coração finalmente seria aliviado.
É melhor ver seu cadáver do que vê-lo sendo gentil com Ayla — cem vezes melhor.
Mas quando a noite a cercava no breu, um medo sufocante tomava conta de seu ser.
Independentemente de quantas centenas de vezes repetisse para si mesma de que não se importaria se um homem como ele morresse — não adiantava nada.
Thalia, que havia tremido de ansiedade a noite toda, saiu disparada da tenda antes mesmo que o dia clareasse por completo. Guiando-se pela luz fraca da madrugada, foi procurá-lo. Sentia que só após confirmar com os próprios olhos que Varkas estava vivo e bem, seria capaz de finalmente respirar.
Ela correu por um caminho estreito coberto de arbustos e só parou abruptamente quando ouviu o som de um cavalo fungando.
Ao abrir caminho pelo matagal denso, viu um garanhão cinza com uma crina negra longa.
Varkas, que havia habilmente conduzido o imenso cavalo até a nascente, ajoelhou-se no chão num único joelho. Então puxou as rédeas, guiando o cavalo a baixar a cabeça em direção à superfície da água, e com a outra mão colheu a água da nascente e molhou o pescoço longo e robusto do garanhão.
A luz do sol que se infiltrava pelas folhas densas tingiu o cabelo dele de um lindo prateado.
Thalia assistiu à cena com a respiração suspensa, e então fechou os olhos, em uma espécie de desespero.
Não importando quantas vezes tentasse arrancar aquele amor pela raiz, este teimosamente continuava a crescer como um tumor, a ponto de parecer que a consumiria por completo. Não conseguia enxergar nenhuma saída para esse sentimento.
Como poderia se livrar desse amor?
Ela havia estado encostada em uma árvore grande, encarando o céu de forma vazia, quando se virou com cansaço — e então viu Ayla caminhando pelo trajeto. Isso a fez esconder-se apressadamente atrás de uma árvore.
Talvez tivesse saído assim que acordou, pois usava apenas um único manto sobre um vestido fino, com o cabelo comprido cascadeando sobre seus ombros e costas. Estava tão desleixada quanto Thalia. Não, ainda mais desleixada do que Thalia.
E mesmo assim, continuava parecendo nobre e digna.
Talvez houvesse algo no sangue daquela mulher que Thalia jamais pudesse possuir, nem que morresse tentando.
— Então é aqui que estava.
Ayla, com as bochechas rosadas de calor, se aproximou com cuidado e se sentou numa pedra plana. O olhar de Varkas a alcançou. Como se até esse olhar calmo fosse insuportavelmente agradável, Ayla suavizou os cantos dos olhos e cuidadosamente tirou os sapatos. Então mergulhou os pés na água da nascente e mexeu-os levemente.
O som do cavalo fungando, o barulho da água e o pequeno som alegre, como o canto de um pássaro, se derreteram no ar frio da madrugada.
Thalia suprimiu o impulso de se lançar imediatamente e agarrar a meia-irmã pelos cabelos. Também suportou o impulso de rasgar os lábios que sorriam para Varkas e arrancar a língua que tagarelava. Mas isso foi devido apenas por não querer vê-lo tentar proteger Ayla de si — nem que morresse.
Logo, depois que Ayla se fartou de brincar na água, estendeu a mão em direção a ele. Em vez de pegar aquela mão e ajudá-la a se levantar, Varkas se abaixou e enxugou os pés dela. Depois, como se fosse um criado leal, calçou os sapatos por ela com cuidado.
A cena era como uma adaga que cravou em seu coração.
Thalia se virou e se pôs a correr. Galhos e folhas de grama arranhavam seus braços e panturrilhas, mas ela não sentia nenhuma dor. Era como se todos os seus sensos tivessem quebrado. Ela ofegou duramente e correu pelo sinuoso caminho da floresta como um cavalo de corrida, até que o pé se prendeu numa raiz saliente e ela tombou no chão.
Enterrada nos arbustos, com o peito subindo e descendo rapidamente, Thalia de repente irrompeu em risos.
O que Senevia diria se a visse assim? Provavelmente franziria a bela sobrancelha e sacudiria a cabeça em desaprovação. Era até mesmo capaz de ouvir a voz zombeteira, como se ecoasse em torno de si.
— Você tem dois caminhos. Um é usar todos os meios possíveis para tomar o homem que deseja. O outro é se tornar uma perdedora ao menos um pouco menos miserável.
Parecia querer que Thalia se tornasse uma sedutora e o conquistasse, mas ela jamais poderia se tornar alguém como Senevia, nem que morresse. Se fosse ela, teria tomado o que queria por qualquer meio necessário. Mas Thalia não sabia o que deveria fazer além de rezar para que esse tempo doloroso terminasse o mais rápido possível.
Depois de ficar encarando o céu, que aparentava fragmentado entre os galhos, ela se levantou.
Ao deixar o caminho escuro da floresta com passos cansados, viu vários cavaleiros vagando em confusão. Ao passá-los e se aproximar da carruagem, o cavaleiro guarda de nome Lebon - ou algo assim - rapidamente bloqueou seu caminho.
— Onde estava, sem dizer uma única palavra? Tenho dito repetidamente que Vossa Alteza não deve andar sozinha sem escolta…!
O cavaleiro, que havia começado a despejar reclamações insolentes em sua indignação, parou abruptamente. Parecia bastante chocado com sua aparência desleixada.
— Pelo amor de... O que aconteceu? Não me diga que foi atacada em algum lugar?
Ela passou por ele e subiu no estribo da carruagem. Mas o homem não parecia ter nenhuma intenção de parar as reclamações, agarrando a moldura da porta e continuando em tom rígido.
— Tenho o dever de proteger Vossa Alteza. Então...
— Se alguém o ouvisse agora, poderia pensar que estava realmente preocupado comigo. — Thalia falou friamente, olhando-o com escárnio. — Parece que recebeu ordens de não tirar os olhos da princesa maligna nem por um momento. Mas se vai me vigiar, deveria ficar devidamente alerta. Por que me culpa, quando me perdeu de vista devido ao próprio desleixo?
O homem fechou a boca com força, como se tivesse ficado sem palavras.
Thalia bateu a porta em seu rosto. O homem, cujos dedos acabaram por ficar no caminho da porta, soltou uma praga áspera diante da dor. Como estava usando luvas de aço, não parecia ter se machucado seriamente, mas deve ter sido forte o suficiente, pois suas palavras de desgosto continuaram por um bom tempo.
Como sempre, ela ignorou todas as queixas que vinham de fora. Se tivesse prestado atenção a cada palavra dita pelas pessoas ao redor, teria enlouquecido há muito tempo. Depois de se tornar princesa, a primeira coisa que aprendera foi como permitir com que palavras de pessoas não importante entrassem por um ouvido e saíssem pelo outro.
Thalia fechou a cortina grossa sobre a janela de vidro, por onde a luz da manhã começava a se infiltrar, e se encolheu no largo banco, como um ouriço.
