O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 22

Capítulo 22

Tradução: Amme

Capítulo 22


Quando o corpo robusto, seus ângulos acentuados pela luz da lareira, preencheu seu campo de visão, ela sentiu como se a língua tivesse paralisado, e seu próprio corpo também enrijeceu.

Engolindo seco, seus olhos percorreram o corpo do homem.

Percebeu que ele talvez tivesse acabado de lavar a poeira acumulada durante a marcha, pois o cabelo loiro-pálido parecia mais escuro do que o habitual e pingava água. As gotas, brilhando sob a luz leve, brilhavam em seus ombros esculpidos e nas costas largas.

Thalia acompanhou com os olhos a forma como estas escorregavam pelas curvas firmes dos músculos esculpidos, e então corou e ergueu a cabeça apressadamente. As pernas das calças do homem também estavam encharcadas, coladas às pernas longas e poderosas.

Era a primeira vez que o via tão despido desde o ano em que completara quatorze anos, quando o havia ordenado a entrar no lago por pura maldade.

Thalia umedeceu os lábios ressecados e lutou para reunir as palavras que haviam se perdido em algum lugar de seus pulmões.

Foi então que uma risada seca alcançou seus ouvidos.

— Ouvir a palavra hierarquia sair da sua boca é suficiente para fazer até um cachorro rir.

Com a voz zombeteira, o embaraço recuou como uma maré, e a irritação tomou seu lugar.

Ela o fuzilou com um olhar afiado e bufou.

— A hierarquia existe para que os de cima a invoquem contra os de baixo. E vocês, cavaleiros, estão numa posição em que devem me obedecer, como membro da família imperial. Portanto, certifique-se de deixar bem claro para seus subordinados de quem são as ordens que devem priorizar. A menos que queiram ser açoitados por irreverência.

Varkas, que havia terminado de colocar a camiseta, lançou-lhe um olhar glacial.

Thalia tensionou o corpo. Através dos anos, havia aprendido muito bem como esse homem, geralmente tão terrivelmente calado, podia usar a língua sem misericórdia quando decidia fazê-lo. Esse conhecimento a fez encarar sua boca, como se observasse uma víbora que poderia cuspir veneno a qualquer instante — mas Varkas pegou a túnica pendurada na parede e, sem lhe lançar sequer um olhar, caminhou diretamente para fora da tenda.

Thalia ficou olhando para as costas que se afastavam e, voltando a si, imediatamente correu atrás dele.

Se ele lhe tivesse direcionado palavras cruéis ou lançado-lhe um olhar furioso, ela não estaria tão furiosa assim. Mas simplesmente não conseguia suportar ser ignorada como se fosse um mero pedregulho na beira da estrada.

Alcançou-o num instante e ergueu a voz.

— Você só se sente satisfeito quando ignora tudo o que digo, não é?

Com sua voz retumbante, os soldados que estavam ocupados carregando bagagem pararam e olharam para trás. Mas o próprio Varkas agiu como se nada tivesse sido dito.

Vê-lo seguir seu caminho em silêncio, como se respondê-la não valesse o seu tempo, foi o suficiente para fazer uma onda de calor tomar conta de sua cabeça.

Thalia agarrou e puxou a barra das roupas dele com rispidez. Talvez por não querer sofrer a humilhação de ter as roupas rasgadas na frente dos criados, Varkas finalmente parou de andar.

Encarando aquela expressão arrogante, ela falou como se mastigasse e cuspisse cada palavra.

— Você deve ter esperado isso com tanta ansiedade todo esse tempo. Deve estar radiante agora que não precisa mais seguir as ordens desta garota incômoda. É por isso que sequer finge escutar o que digo, não é mesmo?!

— Eu ao menos fingira ouvir, se você dissesse algo que merecesse ser chamado de fala.

Ele respondeu friamente, enquanto desprendia os dedos dela da barra de suas roupas sem piedade.

Thalia cerrou os dentes, sentidno-se cheia de humilhação diante da cena de Varkas sacudindo a camisa, como se algo imundo a tivesse tocado.

Talvez fosse melhor se esse homem desaparecesse do mundo. Assim, ela jamais teria que se sentir tão miserável.

Depois de encará-lo com olhos hostis, ela de repente soltou uma risada áspera.

— Minhas palavras não soam como fala para você? Então devo falar na língua dos animais, como faziam seus ancestrais bárbaros? Entenderia melhor assim?

Como se chocados com o insulto que claramente fora longe demais, os criados que os observavam ansiosamente ficaram pálidos. Mas o próprio Varkas apenas a observou em silêncio.

Diante de sua fria expressão, Thalia continuou, sem se segurar.

— Se quiser, posso imitar o relincho de um cavalo. Tenho certeza de que entenderia melhor assim. Gosta mais de cavalos do que de humanos, não é?

— Certamente seria melhor conversar com um cavalo do que lidar com você. — Varkas falou, com um sorriso de escárnio. — Meu garanhão se comunica melhor do que você. Ele também não fica incomodando dia após dia, a ponto de deixar todos à sua volta intolerantes.

Os ombros de Thalia tremeram de humilhação.

Ao ver isso, Varkas torceu os cantos da boca como se estivesse chocado.

— Você fica assim com um contragolpe simples como esse, mas não hesita em cutucar os pontos vitais alheios... Age assim porque acredita que os outros não são capazes de serem igualmente vis?

Ela lhe lançou um olhar venenoso. A garganta se apertou com o desejo de rebatê-lo imediatamente.

O que você sabe sobre mim?

Quem neste mundo sabe melhor do que eu o quão cruel o ser humano é capaz de ser?

Exatamente porque eu sei, até os confins de minha alma, o quão vil é a natureza humana, decidi também me tornar cruel.

Porque se eu não pisar nos outros primeiro, eles o farão comigo na primeira oportunidade.

Mas se expressasse tais coisas, apenas exporia sua própria fraqueza.

Ela recuou um passo e assumiu uma expressão indiferente, como se não estivesse aos berros segundos antes.

— Não vim aqui para me envolver nessa discussão inútil. Como disse antes, quero mudar meu acampamento para outro lugar. Diga aos cavaleiros para fazê-lo imediatamente.

Varkas inspirou fundo, como que reunindo os resquícios de paciência que ainda possuía.

— Não tenho qualquer intenção de dançar conforme seus caprichos. Pare de perder tempo e vá descansar.

— Não estou dizendo para mover o acampamento inteiro, apenas minha comitiva! Por que não pode ser feito?

— Não sou obrigado a lhe explicar cada uma das minhas decisões.

— Sou a filha do Imperador! Se exijo, você deveria naturalmente obedecer...!

— Basta.

De repente, a sombra do homem cobriu seu corpo.

Thalia estremeceu e encolheu os ombros.

Varkas, tendo deixado de lado quaisquer sobras de formalidade, falou friamente, aproximando o rosto.

— Por hoje, a paciência que havia reservado para você já está esgotada. Depois de chegar a esse ponto, acredito que saiba bem que deveria saber esperar ao menos até amanhã.

Apesar do tom áspero, o rosto que a olhava de cima era infinitamente elegante. Era um homem que não perdia a dignidade mesmo quando a raiva o consumia. Esta capacidade inata dele apenas servia para deixá-la mais ressentida.

— Escoltem Sua Alteza, a Segunda Princesa, de volta aos seus aposentos. — ESe endireitando, ele bradou a ordem aos cavaleiros próximos. Aqueles que, até o momento, haviam assistido em silêncio ao confronto, e assim correram para o obedecerem imediatamente.

— Por aqui, Vossa Alteza.

Thalia lançou um olhar afiado aos cavaleiros que bloqueavam seu caminho, depois os voltou para Varkas.

Ele já havia se afastado.

Ficou encarando obsessivamente as costas que se afastavam com elegância, sem a menor indicação da raiva anteriormente demonstrada, e rangeu os dentes.

Aquele homem sequer buscou indagar o porquê de ela querer mudar o acampamento de lugar.

Ele não deve ter qualquer interesse no que penso ou com o que estou preocupada.

Que assim seja, então. Espero que morra.

Subitamente, sentiu-se ridícula por ter feito tamanho alvoroço por estar preocupada que algo pudesse acontecer a ele. Além disso, uma vez que essa viagem terminasse, ele se tornaria o homem de outra mulher.

Ele era um homem que jamais seria seu...

O que lhe importaria, mesmo que se deparasse com o cadáver dele na manhã seguinte?

Com este pensamento mórbido, Thalia se virou bruscamente.