O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 21

Capítulo 21

Tradução: Amme

Capítulo 21


Ele alternou o olhar entre as costas frias do superior e os rostos dos cidadãos que lançavam olhares acusatórios, depois soltou um suspiro pesado e esporeou o cavalo para a frente.

A Segunda Princesa, que havia se trancado dentro da carruagem como se estivesse fazendo um protesto silencioso, se revelou apenas quando haviam deixado a capital e parado à beira do rio para descansar.

Os criados, que estavam ocupados montando tendas e se preparando para acampar, olharam para Thalia com olhos apreensivos.

Como que para provar que sua afirmação de que pretendia trocar de roupa várias vezes ao dia não havia sido vã, ela não estava usando o mesmo vestido com qual havia deixado o palácio imperial, mas um de seda bordado com fio dourado. Ao redor do pescoço esguio havia um colar que parecia capaz de comprar um castelo, e nos pulsos delicados, usava ornamentos esplêndidos cravejados de diamantes.

Edric, que a via de longe, ficou boquiaberto.

Estavam prestes a jantar e acampar para a noite. Por qual razão ela havia se enfeitado de forma tão extravagante?

Seu comportamento completamente incompreensível o fez sentir-se esgotado. Enfolindo um suspiro, entregou as rédeas a um escudeiro e se aproximou da princesa.

A mulher, que havia estado observando ao redor, lançou-lhe um olhar feroz.

Por um instante, Edric sentiu a garganta apertar.

Thalia, cercada pela luz do sol poente, parecia um ser místico feito de fogo e ouro. Seu cabelo cor de trigo, empurrado pelo forte vento do rio, formava ondas douradas estonteantes ao redor do rosto e corpo. Sua pele impecável branca como ágata irradiava um brilho como pedras preciosas, sob o pôr do sol, banhando-a em cor de chamas.

Sem perceber, ele recuou um passo. Tudo o que formava aquela mulher era tão excessivamente delicado que parecia que ela poderia se estilhaçar a qualquer momento e espalhar fragmentos afiados em todas as direções.

Enquanto engolia em seco diante de um pressentimento inexplicavelmente arrepiante, uma voz irritada fluiu dos lábios vermelhos como sangue.

— Não gosto deste lugar. Mude o local do acampamento.

Diante da ordem absurda, ele voltou a si e endireitou as costas.

Aquela mulher era um cogumelo venenoso com uma aparência deslumbrante. Se se deixasse enfeitiçar por sua bela aparência e baixasse a guarda, sofreria as consequências.

Assumindo uma postura profissional, respondeu bruscamente:

— Este é o acampamento selecionado pela Guarda por razões de segurança. Não podemos procurar outro local a esta altura.

— Quem pediu sua opinião?

A mulher lançou-lhe um olhar afiado como gelo.

— Ordenei que mudasse o acampamento. Basta obedecer à minha ordem!

Ele teve que respirar fundo por um momento para coletar os fios de paciência que rapidamente se dispersavam.

— Todas as decisões referentes a esta expedição estão a cargo de Sir Siarkan. Repetirei: não podemos deixar a procissão como quisermos.

— Então basta que eu tenha a permissão de Varkas? — A mulher retrucou com impaciência, e se virou imediatamente.

Neste momento, ele se perguntou se ela havia estado procurando uma desculpa para arranjar confusão com o Sir Siarkan desde o início.

Edric correu atrás da princesa. Simplesmente não conseguia entender aquela mulher, que parecia desesperada para causar problemas logo no primeiro dia de viagem.

Com sua passada longa, a alcançou de imediato.

— O que exatamente há neste lugar que tanto a desagrada?

— Absolutamente tudo. — Ela rosnou em resposta, conforme avançava a passos largos.

— Odeio ficar perto de água, e ainda mais ficar perto de floresta. Haverá enxames de insetos por toda a volta.

— Como poderíamos acampar em algum lugar sem água? E grifos e harpias às vezes aparecem nessa região. A floresta serve como barreira natural em caso de ataque de monstros grandes...

— Que segurança? Já fui picada em dois lugares por insetos voadores! Se passar a noite num lugar assim, os bichos vão devorar cada pedaço da minha pele. E quanto a esse barulho vindo da floresta? Já odeio o som de folhas farfalhando, então como vou dormir com os pássaros cantando assim?

Edric olhou para a princesa com um rosto de pura incredulidade. Nem uma criança mimada de cinco anos faria uma birra dessas. Ele suprimiu desesperadamente a irritação que crescia dentro de si.

— Teremos que acampar pelos próximos dias. Se não começar a se adaptar agora...

— Então podemos simplesmente mudar o acampamento! Por que eu deveria me forçar a suportar algo que me causa mal-estar? — Após este berro estridente, cruzou o acampamento como um cavalo de corrida que possuía um único foco.

Ele teve que cerrar os punhos com força para não detê-la fisicamente.

— Todos estão exaustos depois de marchar o dia inteiro. Não podemos desmontar as tendas e vagar à procura de um novo local para acamparmos, por uma razão tão absurda. Pare de dizer coisas infantis e volte imediatamente para sua carruagem descansar.

Quando se pôs na frente da princesa e se pronunciou com severidade deliberada, aquele rosto assustadoramente belo se torceu levemente.

Um momento depois, com um som como estalo de chicote, uma dor ardente irrompeu em sua bochecha direita.

Ele fuzilou a mulher com um olhar feroz. Desde o momento em que havia sido designado como o guarda pessoal da segunda princesa, havia esperado que viria a levar algum tapa. Mas, como a maioria das ideias, isto era algo mais facilmente aceitável em teoria do que em prática.

— Como se atreve a me dar ordens?

Enquanto ele se esforçava para engolir a humilhação, ela o agarrou pela gola e sibilou ferozmente em seu rosto.

— Sou filha do Imperador, e vocês existem para a minha conveniência. Se eu disser para caminhar a noite toda, então os seus destinos será caminhar até o amanhecer. Sugiro que pare de se meter onde não é chamado e suma da minha vista.

A mulher o empurrou com força e voltou a caminhar à beira do rio.

Edric ficou encarando em silêncio, com um rosto rígido, a sua forma delicada se afastar. Se seguisse seus instintos, jogaria aquela mulher mal-educada sobre o ombro, exatamente como Sir Siarkan havia feito, e a atiraria de volta na carruagem. Mas não tinha o respaldo que lhe permitiria pôr as mãos em um membro da família imperial sem permissão e sair impune.

Encarando fixamente as costas que recuavam rapidamente, Edric soltou um suspiro amargo.

Conseguiria suportar a tirania daquela mulher cruel até o fim da viagem? O prospecto causou um lampejo de dor na sua cabeça.



Durante toda a caminhada à beira do rio, Thalia sentiu um olhar penetrante nas costas.

Lançou um olhar afiado por cima do ombro. Viu as pessoas que a haviam estado observando às escondidas estremecerem e rapidamente desviarem a vista, fingindo fazer outra coisa.

Não era nada muito diferente da reação habitual. As pessoas não a haviam sempre tratado como um barril de pólvora que poderia explodir a qualquer momento?

Mas naquele dia, os olhares que mantinham distância cautelosa e ainda assim se agarravam a ela secretamente pareciam estranhamente suspeitos.

Devem ser espiões que minha mãe plantou entre os criados.

Ela examinou os rostos dos acompanhantes um a um. Talvez todas aquelas pessoas fossem espiãs. Senevia certamente era mais do que capaz disso.

Seus pensamentos começaram a saltar em direções cada vez mais descabidas.

Por muitos anos, Senevia havia trabalhado arduamente para destruir a base de apoio de Gareth. Talvez pretendesse usar a peregrinação como uma oportunidade para remover todos os obstáculos que bloqueavam o caminho do filho.

Thalia sentiu seu coração bater de forma irregular.

Se os alvos da mãe fossem Gareth ou Ayla, ela não se importaria — se necessário, estaria até disposta a participar do plano. Mas se, por acaso, o alvo de Senevia fosse Varkas...

Tendo pensado até ali, Thalia observou ansiosamente ao redor, correndo o olhar sobre as fileiras de tendas militares erguidas próximas umas às outras.

Tinha que separar seu acampamento das tendas do resto, de qualquer jeito. Se houvesse distância física entre eles, seria mais difícil para os espiões de Senevia executar seus planos durante a noite.

com isso em mente, acelerou os passos.

Pouco depois, encontrou Tork, o cavalo de guerra que Varkas tanto prezava, amarrado em frente a uma grande tenda.

Thalia passou pelo garanhão cinza, que a reconheceu e fez um som indicando o que pensava sobre, e entrou na tenda sombria.

O interior estava arrumado com tanta precisão quanto um templo. Ela varreu o olhar pelo castiçal que emitia uma luz fraca, o armário luxuoso, e o suporte exibindo a armadura. Quando encontrou uma sombra escura delineada atrás do divisor, avançou sem hesitar.

— Quero mudar meu acampamento para outro lugar. Mas meu intrometido guarda diz que não posso ir a lugar algum sem a permissão do grande Sir Siarkan. Parece que seus subordinados acham que o comandante dos Cavaleiros Roem está acima da família imperial. Como a guarda imperial se tornou um grupo tão lamentável que nem sequer entende a hierarquia...

Thalia, que havia estado despejando tudo o que queria dizer enquanto puxava o divisor, enrijeceu no momento seguinte.

Varkas estava sem camisa, enxugando a água do rosto com uma toalha.