Tradução: Amme
Capítulo 20
Incapaz de suportar o ressentimento que borbulhava dentro de seu peito, Thalia ergueu a mão mais uma vez.
Um momento depois, após um som seco ecoar no ar, uma dor ardente se espalhou por sua palma.
Ela estremeceu, surpresa — havia naturalmente presumido que seria bloqueada de novo. Mas a pessoa que havia de fato levado o tapa exibia uma expressão indiferente.
— Considerarei isso punição merecida pelo pecado de ter posto as mãos no corpo de Vossa Alteza sem permissão.
Ele tocou com as pontas dos dedos enluvados a bochecha, que sequer exibia uma marca, enquanto falava.
— Mas não tenho mais qualquer intenção de tolerar esse tipo de infantilidade. Por favor, lembre-se de que não sou mais seu guarda pessoal.
Levantou-se em seguida, saindo da carruagem, e fechou a porta.
Thalia ficou pressionada contra o encosto do assento por um tempo, sem se mover. E então olhou janela afora. Varkas devia ter seguido seu caminho, pois não estava mais à vista. Em seu lugar, tudo o que via eram os criados descarregando bagagens da carroça e o tolo de seu guarda os apressando.
Queria saltar imediatamente e dar uma lição nos que haviam ignorado sua ordem, mas se fizesse isso, Varkas poderia intervir novamente. Ele nunca tolerava crueldade contra aqueles de baixo status.
Ao se lembrar do olhar glacial que ele lhe havia dado no dia em que ela cortara o cabelo de uma criada que havia escondido o rosto no casaco que Varkas havia tirado, ela apertou so dedos da mão.
Thalia fechou a cortina com irritação, depois acariciou a palma que ainda ardia, e se encolheu no assento.
Por quanto tempo ficou assim?
Com o som de uma trombeta anunciando o início da jornada, a carruagem começou lentamente a se mover.
Parecia que a viagem, que certamente se tornaria um pesadelo para o resto de sua vida, havia começado.
Thalia ficou por um momento encarando um único raio de luz que se infiltrava pela fresta da janela, depois fechou a cortina completamente.
Então, se enterrando na escuridão sombria, se entreteu com o pensamento de como seria maravilhoso se aquela procissão levasse diretamente ao inferno.
Se todos entrassem juntos no túmulo assim, e tudo finalmente acabasse, seria o desfecho que a traria a maior felicidade.
A procissão de peregrinação da família imperial estava programada para seguir os passos de Darian, o primeiro imperador que fundou o Império Roem, movendo-se do norte para o oeste, e do oeste de volta ao norte, ao longo da corrente sinuosa do Rio Sylviska.
Na era em que este continente estava dividido em dez reinos — Wedon, Dristan, Balto, Gwyn, Osiriya, Livadon, Arex, Valis, Dumnoth e Sykan —, Darian Roem Gurta, um membro da realeza de Gwyn, migrou para a região central para escapar da invasão do Reino de Balto e tornou-se filho adotivo do Senhor Valender, líder do povo de Osiriya e seu tio materno.
Depois disso, Darian uniu as muitas tribos de Osiriya e reuniu poderosos apoiadores de cada nação para realizar um movimento de unificação dos reinos. Após travar dezenas de guerras ao longo de vinte anos, alcançou o grande feito de unir os dez reinos em um vasto império.
A grande procissão que partia do palácio imperial era um ritual sagrado que retraçava seus passos e um evento importante que apresentava os descendentes do grande Imperador ao povo do Império, proclamando amplamente a dignidade da família imperial.
Por isso, a escala da marcha era de uma magnificência e majestade inacreditáveis.
Com o Príncipe Herdeiro montado num imenso cavalo ornado em ouro à frente, cerca de cem Guardas Imperiais cruzaram o centro da cidade com imponência, carregando estandartes bordados com o brasão do Império. Atrás deles, a carruagem com a Primeira Princesa Ayla Roem Gurta e sua guarda davam continuidade à marcha.
Os cidadãos reunidos nas ruas para ver os descendentes de Darian aplaudiam de forma trovejante.
Os Cavaleiros Roem, que carregavam centenas de anos de história e tradição, lideravam o cortejo com rostos solenes, usando uniformes de combate brancos bordados com o brasão do Império sobre armaduras feitas de Oricon, conhecido como o mineral divino. À direita deles, uma unidade de infantaria portando escudos prateados gravados com o brasão da Guarda avançava num ritmo constante.
A marcha disciplinada dos soldados fez com que a excitação dos cidadãos crescesse exponencialmente. Mulheres aglomeradas à beira da estrada lançavam pétalas de flores coloridas em direção aos cavaleiros, e menestréis cantavam músicas abençoando os descendentes de Darian.
Como que respondendo aos aplausos dos cidadãos, a Primeira Princesa abriu a janela e se revelou, causando exclamações empolgadas pela população como um todo.
Poderia existir alguém no mundo mais adequado à posição de princesa do que Ayla Roem Gurta? Sua postura graciosa e ereta como um lírio, a pele clara com um toque rosado, os cabelos castanho-escuros e brilhantes, e os grandes olhos esmeralda... As pessoas esticavam o pescoço como tartarugas para ver um pouco mais de sua aparência encantadora. Entre elas, havia até quem seguisse a carruagem como que enfeitiçado.
Se os cavaleiros não a tivessem cercado, a carruagem da Primeira Princesa teria sido completamente encurralada pelos cidadãos entusiasmados.
Tomadas pela intensa excitação, as pessoas despejavam palavras de bênção à bela princesa, sem parar.
No entanto, quando uma carruagem quase excessivamente esplêndida apareceu em seguida, o clima festivo esfriou como se água gelada tivesse sido derramada sobre todos. Os cavaleiros observaram os arredores com olhos tensos. As pessoas que haviam aplaudido a plenos pulmões apenas momentos atrás estavam agora quietas, prendendo a respiração e sussurrando algo umas para as outras. Parecia que haviam percebido que a famigerada Segunda Princesa estava dentro da carruagem.
Os que haviam se aglomerado ao longo da avenida principal recuaram devagar, lançando olhares misturados de curiosidade e hostilidade. Alguns até fizeram o sinal da cruz ou cuspiriam no chão.
Os cavaleiros soltaram suspiros amargos.
Não era sem razão que reagissem daquela forma. Entre os cidadãos que viviam na capital, não havia ninguém que não tivesse ouvido falar da natureza cruel de Thalia Roem Gurta. A filha bastarda do Imperador, que havia causado comoção em todo o Império desde o momento em que nasceu, continuava a protagonizar incidentes sinistros de forma quase diária, mesmo após se tornar uma princesa oficial, lançando a capital em tumulto.
Não eram um ou dois os criados que haviam trabalhado no palácio da segunda princesa e sido expulsos em um estado deplorável, a ponto de parecem mortos-vivos. Entre eles, havia até quem tivesse morrido prematuramente.
Naturalmente, o povo do Império só podia olhar para a Segunda Princesa com frieza.
— Que tal puxar a cortina e ao menos cumprimentar o povo?
Incapaz de continuar assistindo à cena, o guarda Edric Rubon se aproximou da janela da carruagem, e fez a cuidadosa sugestão.
Mas nenhuma resposta veio de dentro.
Ele olhou com desagrado para a janela coberta por cortinas grossas.
A Segunda Princesa havia se trancado dentro da carruagem desde que a procissão começara e não havia mostrado nem sequer a ponta do nariz desde então. Aparentemente, estava bastante afetada devido à briga que tivera com Sir Siarkan.
Ele engoliu o suspiro que subia à garganta.
Ela é bela a ponto de tirar o fôlego, então se aparecesse um pouco, a reação das pessoas mudaria...
De certa forma, achava que ela era realmente uma mulher sem nenhum senso de tato. Se agisse de forma um pouco mais amigável, haveria mais do que alguns homens dispostos a lhe dar o fígado e colocariam-se aos seus pés. Mas Thalia Roem Gurta se comportava como se tivesse decidido ser odiada — atormentava as pessoas ao redor com uma atitude tão afiada que até sua aparência bela, tãoo similar à de sua mãe, perdia o brilho.
Quantos guardas já haviam se demitidos, por não conseguirem suportar aquele temperamento terrível?
Esse fato por si só, fazia com que Sir Siarkan, que havia ficado ao lado dela por sete anos, quase parecesse um santo.
Embora me pareça que ele não simplesmente aguentou tudo docilmente por todos aqueles anos...
Lembrando-se de seu superior jogando a Segunda Princesa na carruagem como uma bagagem, Edric virou o olhar para a frente.
Entre os cavaleiros marchando em perfeita ordem, ele podia ver vagamente Varkas com o capuz puxado baixo. Mas, considerando o incidente, parecia que até aquele homem paciente havia se cansado completamente de Thalia Roem Gurta.
De certa forma, era quase assombroso. Qual teria sido a extensão de seu mal comportamento para fazer com que aquele homem rígido e inflexível, absolutamente leal à família imperial, tomasse uma atitude tão extrema? Se Edric não tivesse visto a cena com os próprios olhos, jamais teria acreditado.
Talvez a Segunda Princesa tivesse um talento nato para provocar a hostilidade das pessoas em seu entorno.
