Tradução: Amme
Capítulo 19
Como Thalia havia expulsado todos os enviados do palácio principal, havia atualmente menos de dez criadas atualmente trabalhando em seu palácio. Mesmo essas poucas haviam sido proibidas de chegar perto de si, de modo que o número de acompanhantes que podia podiam ser contados nos dedos de uma única mão.
Por essa razão, ela se viu na posição de ter que partir numa longa jornada rodeada pelos criados que Senevia havia enviado.
Se seguisse o próprio temperamento, os teria expulsado a todos, mas ao ver Gareth e Ayla com centenas de acompanhantes a reboque, não conseguiu fazê-lo.
Mordeu nervosamente o lábio inferior enquanto fuzilava com o olhar a multidão ao redor das carruagens do Príncipe Herdeiro e da Primeira Princesa.
Por anos, havia impedido que qualquer pessoa além de Varkas e da ama chegassem perto de si, porque odiava ter pessoas desconhecidas muito próximas. Não queria manter ao lado criados que pudessem tentar atormentá-la a qualquer momento, ao seu bel-prazer.
Mas quando imaginou como poderia aparentar ser miserável aos olhos dos outros — viajando com apenas três ou quatro acompanhantes enquanto os dois meios-irmãos exibiam a dignidade da realeza com centenas de criados —, sentiu seu estômago revirar.
No fim, não teve outra escolha senão aceitar as criadas que sua mãe havia enviado. Mas sabia que não poderia baixar a guarda por um instante, pensando que eles poderiam operar sob alguma instrução especial.
Thalia observava as pessoas que carregavam sua bagagem com atenção persistente, como se monitorasse cada um de seus movimentos.
Foi então que uma voz que soava completamente exasperada chegou em seus ouvidos, próxima.
— Vossa Alteza por acaso pretende levar todos o seus pertences?
Ela ergueu o olhar bruscamente para o homem que havia de alguma forma se prostrado ao seu lado.
Pouco depois de ter expulsado o tolo cavaleiro que havia encolhido diante do Príncipe Herdeiro, o recém-designado cavaleiro lhe direcionava a palara sem hesitação. E Thalia não apreciava tal atitude.
— Tem alguma reclamação sobre minha bagagem?
— Ela perguntou friamente ao homem, que coçava a nuca com uma expressão constrangida.— Entendo o desejo de Vossa Alteza de manter sua dignidade como membro da família imperial. Mas não pensar que isso é um tanto excessivo? Centenas de vestidos, ornamentos caros... A menos que pretenda trocar de roupa cinco vezes por dia, tudo isso é desnecessário.
— Do que sabe? Pretendo trocar de roupa não cinco vezes, mas dez vezes, se necessário. Se formos viajar de carruagem o dia inteiro, estarei coberta de poeira, e não tenho nenhuma intenção de usar roupas sujas nem por um momento.
— Não pode estar falando sério, certo...?
— O cavaleiro coçou a cabeça de forma constrangida. Parecia ainda não ter aprendido que ela nunca falava nada à toa.Deixando o homem de aparência obtusa para trás, Thalia caminhou em direção à carruagem em que viajaria.
Sua carruagem, posicionada na retaguarda da longa fila, era tão grande e esplêndida quanto a do Príncipe Herdeiro. A porta e o teto eram decorados com ouro e marfim, e dentro havia um assento amplo o suficiente para ser usado como cama, sobre o qual descansavam um cobertor grosso de lã e almofadas de seda.
Ela entrou na carruagem e puxou para trás a cortina atrás do assento, onde foi capaz de ver um vestiário razoavelmente espaçoso e um grande armário de armazenamento.
Thalia abriu a gaveta conectada ao compartimento de bagagem e verificou cuidadosamente o interior. Havia trazido todos os vestidos dos tecidos mais requintados que possuía e todo tipo de ornamento, mas nem uma única coisa a satisfazia.
Se queria se destacar mais do que Ayla, nada parecia ser o suficiente.
Revirando as gavetas de forma agitada, mordeu nervosamente o lábio inferior novamente.
Deveria ter roubado o colar de diamantes que a mãe disse ter recebido do Imperador?
Não.
Deveria ter trazido o porta-joias inteiro dela.
Senevia parecia querer que ela arruinasse o noivado de Ayla — não era esse o motivo pelo qual a havia provocado tão abertamente? Se Thalia pegasse roupas e joias emprestadas para cumprir esse propósito, ela certamente o faria com prazer.
Será que eu deveria ir ao Palácio da Imperatriz agora e buscar tudo?
Thalia olhou para as gavetas com olhos ansiosos e rapidamente desceu da carruagem. Justamente quando se virava para caminhar em direção à residência de Senevia, viu Varkas entre os soldados, usando o uniforme dos Cavaleiros Roem.
Ela parou de andar como se tivesse congelado.
Havia cerca de cento e cinquenta outros homens com o mesmo uniforme no pátio do castelo, mas aos olhos de Thalia, apenas Varkas era visível. Sua visão se agarrava obsessivamente às costas eretas, aos ombros largos e ao cabelo loiro-acizentado que brilhava levemente à luz do sol.
Ele cruzava o pátio com passos disciplinados, dando instruções aos subordinados. Parecia estar inspecionando e se certificando de que tudo estava em ordem, antes da partida.
Thalia engoliu seco.
Quanto mais ele se aproximava, mais sua garganta ardia, como se tivesse engolido cacos de vidro.
Enfim, o olhar indiferente do homem, que havia estado percorrendo a longa procissão que começava no portão do castelo, finalmente se fixou na carruagem dela. Apesar da distância considerável, Thalia pôde ver uma linha leve se formar entre suas sobrancelhas.
Era a expressão que ele sempre fazia quando a encarava.
Aquele rosto frio, capaz de machucá-la terrivelmente com mínimo esforço, se aproximou devagar.
— Ainda não terminaram de se preparar para a partida? — Varkas repreendeu o seu guarda sem sequer olhar para Thalia.
Este, assim dirigido, coçou a nuca com uma expressão constrangida.
— Como pode ver, acho que teremos que providenciar mais uma carroça de bagagem.
Com a resposta suspirante do cavaleiro, os olhos azul-pálidos de Varkas se voltaram para os criados que lutavam para de alguma forma enfiar a montanha de bagagem na carruagem. Thalia podia ver um traço de irritação lentamente se espalhando pelo rosto inexpressivo do homem.
Só então o olhar finalmente a alcançou.
— Esta procissão está programada para passar por seis grandes cidades. O que for necessário pode ser providenciado ao longo do caminho, então remova tudo que não for necessário.
Ela ergueu o queixo propositalmente, rígida.
— Não. Como saberei o que vou precisar?
— Serão roupas e ornamentos de qualquer forma, não é? — Ele falou em tom seco. — Há muitas cidades no noroeste onde o comércio e a indústria se desenvolveram. Poderá comprar quantas coisas quiser mais tarde, então não esgote os criados antes de termos sequer partido.
Thalia bufou.
— Não me faça rir. Por acaso quer que eu pareça uma princesa negligenciada e sem direito a qualquer luxo, para que me comparem à Ayla, não é? Acha que vou cair nisso?
— Desde quando você se importa com a própria reputação...?
Os cantos da boca dele se torceram levemente, como se o absurdo beirasse a hilariedade para si mesmo.
— Além disso, ninguém vai colocar a você e Sua Alteza, a Primeira Princesa, lado a lado para comparação. Então deixe de lado essa preocupação inútil.
Eram palavras que ela preferiria morrer a ouvir saírem de sua boca.
Thalia ergueu a mão, a expressão no rosto deixando clara a sua intenção.
Mas Varkas não era alguém que ficaria parado e se deixaria golpear. Ele agarrou o pulso dela com rapidez e apontou o queixo para os criados.
— Deixem apenas os itens verdadeiramente necessários e descarreguem o resto. Partiremos em quinze minutos, então se apressem.
— Quem lhe deu esse direito?! — Thalia gritou, indiferente a estar fazendo uma cena, lutando desesperadamente para soltar o braço. Mas o homem não cedeu.
Furiosa ao limite, ela chutou sua canela dele e berrou.
— Como alguém como você ousa decidir se minha bagagem é descarregada ou não? Por acaso acha que já se tornou alguém importante? Ainda não é um Grão-Duque! Não passa de um cavaleiro que serve a família imperial! Como um mero cavaleiro ousa tratar uma princesa imperial assim...?!
— O que estão fazendo em vez de se apressar? — Sem sequer responder Thalia, ele lançou um olhar frio para os criados, que estavam apenas observando a cena de queixos caídos, e apenas então estes se mexeram, apressando-se a descarregar a bagagem da carruagem.
Nada poderia ter deixado mais claro que as ordens de Varkas — futuro Grão-Duque do Leste e comandante-chefe da Guarda Imperial — pesavam mais do que as de uma garota que era uma princesa apenas em nome.
Thalia fuzilou os criados com olhos cheios de cólera, então perdeu a razão e se lançou sobre uma das mulheres que descarregava a bagagem.
— Tire as mãos de minhas coisas agora mesmo! Se faltar mesmo que um único item, vou enforcar cada um de voc... — Ela não pôde continuar sua ameaça, pois foi interrompida.
Varkas a ergueu com um braço e a empurrou para dentro da carruagem como se estivesse descartando uma bagagem incômoda.
Forçada a sentar no banco da carruagem, o rosto de Thalia ficou vermelho vivo de raiva.
Varkas era um homem cuja lealdade à família imperial ia até os próprios ossos. Ele jamais poria a mão no corpo de Ayla de forma descuidada. A razão pela qual conseguia tratá-la com tanta rispidez era porque não a via como parte da família imperial.
A fúria que a conclusão lhe trouxe fez com que seus olhos ardessem.
Era insuportavelmente miserável que aquele homem, sempre tão cortês com sua meia-irmã, se tornasse infinitamente grosseiro apenas com ela.
