Tradução: Amme
Capítulo 18
Ao passar em frente ao palácio principal, thalia viu os criados que a reconheceram se apressarem, e pressionarem a testa contra o chão.
Estariam com medo de que a famigerada Segunda Princesa fosse atacá-los de alguma forma?
Passando pelas criadas, que pareciam chocadas com seu aparecimento sem aviso, entrou no Palácio da Imperatriz, o qual era mais esplendidamente decorado do que qualquer outro no complexo de palácios imperiais.
Ao entardecer, Senevia costumava jantar com o Imperador no palácio principal ou passar momentos tranquilos no Palácio da Imperatriz. Thalia achou que hoje seria o segundo caso.
Exatamente como havia previsto, a encontrou descansando na oficina secreta atrás do gabinete privado.
Ela desceu ao porão pela entrada entre as estantes de livros e sentiu os aromas enjoativos de diversas ervas medicinais, óleos aromáticos fortes e uma fumaça tênue que fez cócegas em seu nariz.
No amplo cômodo onde partículas roxas pareciam flutuar no ar, frascos de remédio contendo todo tipo de ingredientes alquímicos e várias ferramentas de experimento estavam espalhados. Ao lado da grande lareira flamejante, livros escritos nas línguas das mais variadas raças se empilhavam em camadas.
Era uma cena tão caótica que era difícil acreditar que aquele fosse o cômodo de sua mãe, que sempre lidava apenas com coisas preciosas e esplêndidas.
Mesmo assim, Thalia atravessou o cômodo com familiaridade e caminhou em direção à escrivaninha onde Senevia estava sentada. Ela estava recostada numa cadeira forrada com um grosso almofadado de veludo e lendo um pergaminho.
Ver a mãe agir como se nem ao menos tivesse percebido sua presença fez o estômago de Thalia queimar como se tivesse engolido uma bola de fogo.
Ela se debruçou sobre a escrivaninha e soltou pelas dentes, com rigidez:
— Arthros veio me ver agora há pouco.
Só então aqueles olhos azul-escuros finalmente se viraram em sua direção.
Thalia continuou com cinismo.
— Segundo ele, em breve estarei me casando.
— Não sabia que Arthros tinha tanto interesse em você.
Senevia pousou o pergaminho e falou com indiferença. Ver a mãe focar no irmão mais novo até o fim despertou em Thalia a vontade de agarrar os objetos mais próximos de si e arremessá-los em todas as direções. Ao invés disso, apertou o tecido da saia e enterrou o desejo de tal violência.
— Por que ouvi sobre meu próprio casamento através daquela criança? E o que é essa história de eu participar da peregrinação? Que tipo de esquema está tramando?
— Esquema? Que coisa desagradável de ouvir de minha própria filha. — Senevia soltou um pequeno suspiro e se levantou.
Por um momento, Thalia ficou encantada com seus movimentos impecáveis e elegantes, depois olhou cautelosamente para o rosto da mãe, onde pairava um sorriso gentil.
— sabe bem que já está na hora de se casar. Uma proposta chegou de um parceiro adequado num momento perfeito, então simplesmente dei andamento às coisas. — Senevia falou alegremente, com a voz de uma moça inocente.
— Esse parceiro adequado seria o homem parecido com uma cobra chamado Serian, ou o diabo que o parta? — Thalia torceu os cantos da boca ao se lembrar do homem com um ar manipulador, que a havia escoltado no jantar de aniversário de seus dois meio-irmãos. — Imagino que minha mãe fez todas as verificações possíveis, pessoalmente, não é mesmo?
— Se com isto, busca saber se o Serian consegue cumprir seu papel como homem... sim, confirmo esta capacidade. Ele possui talentos bastante notáveis nesse sentido. Se desejar, ele ficará feliz em servi-la.
As palavras que havia jogado para ridicularizar o histórico da mãe com os homens voltaram como um contragolpe ainda mais horrível, e Thalia perdeu completamente a compostura que mal conseguia manter.
Cada palavra que Senevia pronunciava parecia se transformar em aranhas rastejando pela sua pele.
— Não preciso de um homem nojento como esse! Prefiro morder a língua e morrer a deixar aquele homem pôr as mãos no meu corpo!
— Ai, ai… — Senevia encostou uma mão na bochecha e suspirou como se lamentasse.
— Então tentarei encontrar outro noivo. Já estava estreitando uma lista de outros candidatos adequados.
Ela apontou para o pergaminho sobre a escrivaninha. Thalia reconheceu vários nomes escritos nele e estremeceu. Eram todos seguidores fanáticos de Senevia.
Aquela mulher estava planejando fazer da filha a esposa de um dos homens que a desejavam?
Raiva e medo se misturaram no estômago e borbulharam para cima.
— Não quero me casar! Pare de fingir que se importa agora. Por favor, simplesmente me deixe em paz como sempre fez!
— Isso significa... que você recusa qualquer homem que não seja o herdeiro do Grão-Duque Siarkan?
Atingida em seu ponto vital sem qualquer aviso, o rosto de Thalia empalideceu subitamente.
Os cantos da boca de Senevia se ergueram e ela vibrou a língua afiada, como a de uma víbora.
— Se o queria tanto, deveria ter usado todos os meios disponíveis para tomá-lo. Mantive aquele homem ao seu lado por sete anos inteiros. O que você estava fazendo durante todo esse tempo?
Ela sacudiu a cabeça como se Thalia fosse lamentavelmente incompetentel.
— Agora o homem que você queria se tornará a posse de outra mulher em poucos meses. Você pretende simplesmente ficar parada e observar isso acontecer?
Os ombros de Thalia tremeram. Era aterrorizante que Senevia tivesse enxergado com tanta clareza dentro de seu coração.
A mulher estudou em silêncio o rosto pálido da filha, e casualmente posicionou a máscara de mãe benevolente, e se pronunciou de forma afável e carinhosa.
— Thalia, planejei tudo isso inteiramente pelo seu bem. Para mostrar à minha preciosa filha uma saída da situação miserável em que se encontra.
Dedos longos e brancos acariciaram suavemente sua bochecha. A sensação era a de uma cobra branca rastejando pela pele.
Thalia ficou rígida como se estivesse paralisada.
Senevia encarou o rosto assustado da filha e sussurrou suavemente, como uma pluma.
— Neste momento, você tem apenas dois caminhos. Um é usar todos os meios possíveis para tomar o homem que deseja. O outro é se tornar uma perdedora ao menos um pouco menos miserável.
Sua voz suave se grudou pegajosamente nos ouvidos de Thalia, como a resina espessa de uma árvore.
— Eu escolhi o primeiro método e tomei tudo o que queria. Mas se você não tem capacidade para isso, então escolher outro parceiro razoavelmente satisfatório e fingir ser tão feliz quanto uma vencedora também é um método. É um tanto patético, mas se vai ser a perdedora de qualquer forma, não seria melhor ao menos preservar o orgulho?
Thalia se afastou dela precipitadamente, como uma fera escapando de uma armadilha iminente.
Senevia lhe lançou um sorriso gentil.
— Esta viagem é a última chance que estou lhe dando. Pense bem em qual caminho escolherá.
Thalia a olhou desafiadoramente, e então se virou e fugiu do laboratório a passos apressados, quase como se controlasse o impulso de correr com dificuldade.
Uma risada alegre como canto de pássaro a perseguiu como uma sombra — e aquele som se agarrou à sua mente por um longo tempo, sem querer desaparecer.
No fim, Thalia acabou partindo em viagem com os meios-irmãos que a odiavam.
Como o Palácio da Imperatriz havia providenciado toda a mão de obra e os equipamentos necessários para a jornada, não havia nada com que ela precisasse se preocupar neste quesito. Senevia havia até tentado lhe atribuir soldados particulares e magos de alto escalão como escoltas.
Mas isso foi abortado pela ferrenha oposição de Gareth.
O Príncipe Herdeiro já estava furioso o suficiente por ter que ir numa viagem com a meia-irmã, a qual era um espinho em seus olhos. Então de forma alguma ele aceitou seguir obedientemente uma ordem de levar os subordinados da Imperatriz a tiracolo.
Pelo que ouviu, Gareth havia ido pessoalmente ao Imperador e discutido com ele veementemente para que a ordem de Senevia fosse retirada.
não era algo que Thalia enxergava de forma completamente negativa. Ela também não tinha nenhum desejo de passar a viagem cercada pelos fanáticos de sua mãe.
Pelo meu bem? Nem me faça rir.
Thalia fuzilou com o olhar os criados que carregavam suas bagagem para a carruagem e, sem perceber, arrancou uma cutícula ao lado da unha de um dos dedos.
Tinha certeza que não havia a menor possibilidade de sua mãe se dar ao trabalho de fazer algo assim inteiramente por ela. Portanto, devia ter algum outro objetivo ou esquema relacionado a essas ações.
Com olhos desconfiados, ela examinou os criados enviados, pertencentes ao Palácio da Imperatriz.
