Tradução: Amme
Capítulo 17
Thalia lançou um olhar cauteloso ao menino, que a encarava com olhos brilhantes e límpidos.
— O que te traz aqui?
— Saí do castelo em segredo para te encontrar, Irmã.
O menino falou com uma alegria quase atrevida.
Thalia franziu as sobrancelhas. Arthros, seu irmão mais novo que havia acabado de completar seis anos, era uma visão irritante para ela.
Tinham os mesmos pais, mas as circunstâncias de cada um eram tão diferentes quanto o céu e a terra. Aquele menino de rosto inocente era o filho legítimo nascido entre o Imperador e a Imperatriz depois que os dois se tornaram oficialmente marido e mulher, enquanto ela não passava da semente de um caso sórdido.
Ao assistir Arthros receber seu batismo entre as bênçãos de tantas pessoas, Thalia foi tomada por um ciúme afiado o suficiente para atravessar o coração. Não tinha como não odiá-lo, mesmo sendo um recém-nascido minúsculo que mal conseguia abrir os olhos.
Senevia, que havia lido com acuidade aqueles sentimentos em sua filha, jamais permitiu que ela - que havia se tornado de pouca utilidade - se aproximasse do precioso filho. Por causa disso, Thalia só conseguia ver o rosto do irmão mais novo em eventos oficiais.
Era a primeira vez que o via tão de perto desde o dia de seu batismo.
Thalia franziu as sobrancelhas e olhou ao redor.
— Você veio até aqui sozinho? Se a Mãe descobrir...
— Não vim sozinho. Vim com o Berens.
O menino falou com clareza, virando-se e apontando para um lado do corredor.
Só então Thalia notou o homem de preto parado onde as sombras se faziam mais densas. Era o homem fantasmagórico que um dia ficara ao lado dela — e agora estava ao lado de Arthros, lançando-lhe um olhar cauteloso como se fosse agir imediatamente caso ela sequer cogitasse em machucar o menino.
Um amargor subiu em sua garganta.
Os olhos negros do homem pareciam dizer que ela nunca seria importante para ninguém.
Thalia escondeu os sentimentos retorcidos dentro de si e perguntou em tom rígido:
— Por que veio me procurar?
— Ouvi que você logo vai partir em uma longa viagem. Então...
— Vou partir em uma longa viagem?
Thalia cortou as palavras do irmão em um tom estridente.
Talvez assustado com a reação abrupta, o menino hesitou por um momento antes de continuar, titubeante.
— A Mãe disse que você também iria nesta peregrinação...
Thalia, sem qualquer expressão em seu rosto, ficou encarando o de seu irmão mais novo, e então de repente irrompeu numa risada áspera.
O menino estremeceu e recuou um passo.
Será que mesmo nos olhos desta criança inocente, ela parecia louca?
Depois de rir tanto a ponto de se curvar sobre o estômago, Thalia se inclinou em direção ao irmão e perguntou num tom deliberadamente gentil:
— O que mais a Mãe disse?
Arthros hesitou por um longo momento. Parecia ter finalmente percebido que estava deixando a irmã terrivelmente incomodada. Mas o menino não era do tipo que se intimidava facilmente e engolia o que gostaria de dizer.
— Ela disse que você pode em breve se casar. Que um homem chamado Conde Serian enviou uma proposta...
Ele falava com calma, mas estremeceu e fechou a boca.
Isso fez Thalia pensar que ela devia estar fazendo uma expressão verdadeiramente terrível.
O homem que havia estado observando em silêncio a uma curta distância se pôs entre Arthros e ela. Estaria preocupado que ela pudesse perder a razão e estrangular o pescoço daquela criança?
Thalia fingiu não ver o homem que a vigiava e apenas encarou o rosto inocente do irmão mais novo.
— Então você veio me parabenizar? Já que sua irmã, o estorvo da família imperial, vai finalmente se casar e deixar o palácio, veio para uma despedida jubilosa?
Talvez sentindo o espinho afiado escondido em sua voz gentil, os ombros do menino tremeram.
— Se você se casar e for embora, vai ficar ainda mais difícil te ver do que agora... Então antes disso, eu queria conversar. Somos irmãos. — Ele protestou, com uma expressão magoada
Um leve anseio permeava a voz do menino.
— Sempre pensei como seria bom se fôssemos próximos, igual à Primeira Irmã e ao Irmão. Mas se você se casar, talvez nunca tenhamos essa chance. Foi por isso que vim.
Thalia olhou para os seus grandes olhos, cheios de expectativa, sem sentir nada.
Por causa daquele menino, ela havia se tornado uma existência completamente sem valor. A Imperatriz e o Imperador, e o príncipe adorável e inteligente nascido entre eles — ela não passava de uma mancha feia que queriam apagar daquele quadro perfeito.
Quanto mais Arthros brilhava, mais profunda e sufocante se tornava a escuridão que a cercava.
O fato de que ela invejava aquela criança até a morte era por si só miserável. Na verdade, até tê-lo por perto desta forma lhe era horrivelmente desagradável.
Thalia deu um sorriso impiedoso ao menino cujos olhos brilhavam com uma expectativa absurda.
— Está esperando que eu me dedique a te servir, da mesma forma que a Primeira Princesa faz tudo ao seu alcance para tornar o irmão gêmeo Imperador?
— Não é isso que eu quis dizer...!
— Mesmo que você não precise dar um passo sequer, a Mãe já deve ter planejado tudo sobre como me usar em seu benefício. Meu casamento foi certamente arranjado porque traria vantagens para você. Por isso, irmãozinho, descarte essas expectativas inúteis.
Arthros parecia ter pouca resistência à hostilidade abertamente dirigida a ele. Só de ver sua expressão completamente perdida, era possível perceber o quanto aquela criança havia sido protegida ao crescer. Provavelmente nunca havia passado uma noite inteira com medo, ou sozinho.
Talvez o encontro de hoje se tornasse o primeiro ferimento de sua vida.
Thalia deixou um sorriso afiado se formar em seus lábios.
— Não tenho nenhuma intenção de me tornar sua irmã bondosa e devota. Porque eu não gosto de você, tanto quanto desprezo aqueles nossos irmãos gêmeos.
Os grandes olhos do menino ficaram arregalados de choque.
Para aquele rosto lamentável que começava a sucumbir, Thalia acrescentou sem piedade:
— Se entendeu, pode desaparecer agora?
Arthros pressionou os lábios como se estivesse tentando com afinco engolir as lágrimas, então se virou sem demora e foi embora pelo corredor vazio.
O homem de preto também seguiu o menino e desapareceu sem fazer nenhum som.
Thalia trancou a porta e voltou à janela.
O céu, que havia estado tingido de azul apenas momentos atrás, estava agora gradualmente sendo tomado por um roxo pálido. Os trabalhadores que estavam movimentando bagagens também foram saindo do área de serviço, um a um, para descansar. Os cavaleiros deviam ter voltado aos seus aposentos, pois até onde sua vista alcançava, não havia nenhum que fizesse presente.
Thalia, que havia levado o indicador aos dentes por hábito, parou com a dor ardente.
Sangue vermelho-escuro fresco escorria pela parte que conectava sua carne à unha partida.
Ao vê-lo, o veneno que havia estado vazando lentamente de seu coração subiu até a garganta.
Engolindo desesperadamente o grito que parecia prestes a explodir a qualquer momento, ela pegou a capa pendurada em um gancho e a jogou sobre suas vestes finas.
Então, sem levar uma única criada, deixou seu palácio.
