O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 16

Capítulo 16

Tradução: Amme

Capítulo 16


Ayla fuzilou Senevia com o olhar, tomada por desconfiança.

Que esquema estaria tramando agora, para querer com que Thalia participasse? No máximo, tudo o que aquela criança conseguia era irritá-la com travessuras sem sentido. Mas Senevia não era alguém que mobilizaria até o Imperador por um algo pelo qual não previa resultados satisfatórios.

Ela deve ter algum plano em mente.

Ayla começou a refutar, em tom um tanto rígido.

— Não é costume que uma mulher da família imperial se junte à peregrinação quando está prestes a se casar? Por que desejam enviar equela criança justamente agora?

— Porque Thalia também pode em breve se casar. — Senevia falou com leveza.

Ayla franziu as sobrancelhas. Nunca havia ouvido nenhum rumor de que houvesse propostas de casamento para Thalia. Embora nascida bastarda, Thalia continuava sendo uma princesa com o nome registrado na genealogia imperial — não estava numa posição em que seu casamento pudesse ser acertado quietamente, sem que a informação se espalhasse.

seria possível que fosse uma história forjada apenas para o fim de fazê-la participar da peregrinação?

Com esta suspeita em mente, ela fitava o rosto da Imperatriz, e a voz fria de Varkas soou.

— Que momento verdadeiramente conveniente para surgir uma proposta.

Mesmo diante das palavras abertamente sarcásticas, Senevia não perdeu a compostura.

— Já que ocasiões felizes estão prestes a se suceder na família imperial, acredito que seja uma ocasião de alegria. A proposta chegou há pouco tempo, então o noivado ainda não foi oficializado, mas Sua Majestade e eu estamos considerando o pedido positivamente.

Um traço de escárnio trasnpareceu nos cantos dos lábios de Varkas.

— Posso perguntar quem é o afortunado?

— O nome certamente já deve ter chegado aos seus ouvidos. É o Conde Verdane Serian, o chefe da família Serian. Uma proposta formal chegou há alguns dias. — Senevia informou, com um sorriso benevolente nos lábios.

— Também já faz algum tempo que nossa filha passou pela cerimônia de maioridade, então preparos para o seu casamento são apenas naturais, não é mesmo? Eles me parecem um par bastante adequado.

Ayla engoliu a risada oca que quase deixou escapar.

Verdane Serian era um dos seguidores fervorosos da Imperatriz. Segundo rumores, chegou a ostentar o recorde de ter sido o amante de Senevia Taren por mais tempo do que qualquer outro.

E ela queria casar a própria filha com um homem assim? Havia perdido o juízo?

Quando Ayla se lembrou de Thalia aparecendo no salão de banquetes com o Conde Serian, sentiu náusea. A mãe que pretendia casar a filha com seu ex-amante, e a filha que seguiria a vontade dessa mãe — as duas tinham que estar loucas.

— Já que as coisas tomaram esse rumo, apressem-se em preparar aquela criança para a viagem.

O Imperador deu a ordem em tom firme e finalizados, e fez um gesto para que se retirassem.

Varkas, que havia estado olhando para o soberano com uma expressão impossível de decifrar, silenciosamente curvou a cabeça e se ergueu devagar. Então se virou e deixou a câmara de audiências.

Ayla, que havia estado fulminando Senevia com o olhar, voltou-se para ele com espanto. Não havia esperado que Varkas se retirasse com tamanha docilidade.

Depois de prestar reverência ao Imperador, correu atrás dele.

— Você realmente pretende levar Thalia assim? O casamento dessa criança não passa de um pretexto plausível. Senevia está definitivamente tramando algo terrível.

— Suponho que sim. — Ele respondeu com indiferença, descendo as escadas a passos largos.

Ayla, que havia ficado encarando suas costas sem entender, recolheu a saia e o alcançou rapidamente. Então agarrou seu braço e exclamou com alguma agitação.

— É só isso que tem a dizer? Mesmo sem saber o que a Imperatriz pretende fazer ao usar Thalia, você vai simplesmente levar aquela criança assim, de forma imprudente...?

— O que Vossa Alteza quer que eu faça? — O homem parou de andar e lhe lançou um olhar gelado.

Ayla estremeceu. Só então percebeu que o humor dele havia despencado ao fundo. Apenas uma hora atrás, era este mesmo homem que lhe havia sorrido — e agora havia se tornado novamente um estranho, olhando para ela com olhos frios.

— Quer que eu desobedeça à ordem de Sua Majestade?

— Eu apenas...

— Ele é o monarca deste Império, e eu sou alguém que jurou lealdade à família imperial. Desde o início, nunca houve outro caminho para mim além da obediência. Não é isso que os membros da família imperial têm exigido consistentemente de nobres como eu?

Com as palavras inesperadamente afiadas, Ayla ficou rígida.

O homem a encarou com olhos secos e desprovidos de emoção, antes de se virar e voltar a caminhar.

Ao ver suas costas se afastando sem a mínima hesitação, Ayla sentiu um senso súbito de medo.

Com ímpeto único, ela correu até ele, como fazia quando era criança, e envolveu firmemente sua cintura com seus braços.

— Desculpe! Estava ansiosa e descontei em você. Por favor, não me vire as costas assim friamente.

A tensão foi lentamente drenando do corpo do homem, que havia estado imóvel. Ele soltou um suspiro, logo após se virou e a abraçou. Depois, como fazia na infância, acariciou gentilmente o seu cabelo dela e disse:

— Não há motivo para ansiedade. Não importa o que a Imperatriz esteja tramando, Vossa Alteza nunca sairá prejudicada.

Ela ergueu a cabeça e o olhou.

O homem que havia se afastado usando o rosto de um estranho já havia voltado a ser um cavaleiro leal que conhecia tão bem.

Ayla sentiu as emoções dispersas se recompondo instantaneamente. Era este o homem que conseguia abalá-la com tanta facilidade e depois acalmá-la com algumas palavras descuidadas. Diante dessa pessoa, até seu orgulho, dignidade e autoridade de princesa parecia supérfluos.

Ela se agarrou ao abraço, o qual nunca se tornara quente apesar de mais de dez anos juntos, e fitou desesperadamente os olhos azul-pálidos.

Como ele enxerga o mundo?

Aqueles olhos sem fundo, vazios, sempre pareciam vagar em algum lugar distante.

— Prometi à antiga imperatriz que protegeria vocês dois da melhor forma possível.

Ele falou enquanto afastava alguns fios de cabelo presos na bochecha de Ayla e os colocava para trás de sua orelha.

— Não importa o que aconteça, pretendo cumprir essa promessa. Portanto, não há nada com que Vossa Alteza precise se preocupar.

Depois de estudar seu rosto por um longo tempo, Ayla finalmente assentiu.

Sim.

Enquanto essa pessoa estiver ao seu lado e de seu irmão, não havia nada a temer.

Absolutamente nada.



Depois de aparar as unhas quebradas, suas mãos pareciam estranhamente vazias.

Quantas semanas mais teria que esperar até crescerem o suficiente para cravar fundo na carne?

Thalia olhou ansiosamente para as unhas rosadas que haviam começado a surgir timidamente sobre as pontas dos dedos.

A satisfação de ter ferido o corpo do Príncipe Herdeiro não durou muito. O ilustre irmão mais velho devia ter ido imediatamente a um sacerdote e curado as mãos sem deixar vestígio. Ela, por sua vez, havia perdido inutilmente a arma que havia afiado cuidadosamente com tanto esforço durante semanas.

Queria tê-las usado na Ayla, se possível…

Quantas vezes havia imaginado cravar as unhas naqueles olhos verdes como esmeraldas, sempre que aquela mulher olhava para Varkas?

Thalia arranhou a ferida que havia se formado na pele quando a unha quebrou no conflito. A crosta que mal havia se formado se rompeu, e gotas de sangue brotaram, como pérolas vermelhas.

Seus próprios nervos ficavam cada vez mais afiados, como suas unhas haviam sido.

Ela ficou encarando o vermelho que se formava por um tempo, até que finalmente colocou o dedo indicador na boca, sugando levemente o sangue e se levantou da janela.

Naquele dia, Varkas estava especialmente difícil de encontrar. Não havia motivo para continuar grudada na janela suportando o sol escaldante.

Ela caminhou pesadamente pelo quarto, despejou água fria na bacia sobre a prateleira e lavou levemente o rosto úmido de suor.

Foi então que uma batida soou em sua porta.

Devia ser a ama, que havia vindo novamente com alguns petiscos.

Thalia enxugou o rosto com linho limpo e respondeu, com indiferença:

— Entre.

Mas quem abriu a porta e apareceu não era a pequena figura rechonchuda a qual estava acostumada.

Era um menino pequeno, de cachos marrom-avermelhados escuros e olhos verdes brilhantes.