Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 98

Capítulo 98

Tradução: Emma

Capítulo 98


— Mary! Meu Deus, você está bem?

— Estou bem… Não foi nada.

— Pareceu que bateu a cabeça com força…. Deixe-me ver.

— Está tudo bem. — Mary lançou um olhar fulminante para o motorista, que continuava dirigindo de forma brusca, e afastou com certa rispidez a mão de Vanessa enquanto esta examinava sua testa. O barulho peculiar do motor antigo irritara seus nervos o dia todo. — Honestamente… isso tudo é porque as peças do carros são muito velhas. Os carros mais novos não balançam tanto assim, sabe? — Incapaz de conter sua frustração, Mary bufou e continuou com um suspiro: — Deveríamos ter alugado ou comprado um carro desde o início. Quem anda por aí em uma lata velha de vinte anos hoje em dia? E a cor é tão de mau gosto. Esse deve ser o único carro desta cor em todo Sul….

— Apenas aguente mais um pouco. Podemos voltar no carro do meu tio no caminho de volta. Ele disse que viria por este caminho. — Vanessa acalmou Mary e olhou pela janela com olhos inquietos. As ruas haviam se tornado notavelmente movimentadas. Homens com poeira de carvão preta nas bochechas e nas roupas. Eles seguravam alavancas de ferro e cartazes, cantando algo em coro.

— O que está acontecendo? Todos parecem furiosos….

— Houve algum acidente? — O motorista, Alman, batendo ansiosamente no volante, juntou-se abruptamente à conversa. — Não é um acidente, mas… Parece que um grupo de vagabundos que vive sob um viaduto próximo saiu e ocupou a praça.

— Vagabundos?

— Acontece de tempos em tempos. A fábrica de carvão próxima fechou, e aqueles que perderam seus empregos estão organizando um protesto surpresa contra o prefeito. É só uma coincidência que seja hoje.

— Então o que fazemos agora?

— Não temos escolha a não ser dar uma volta.

— Conhece bem esta região, Alman?

— Até certo ponto. Vou pelo leste da cidade. Em direção a Kingston. Deve estar menos movimentado lá.

Kingston. Ao ouvir o nome familiar, a expressão de Vanessa enrijeceu momentaneamente. Alman, após esticar o pescoço para checar a multidão do lado de fora, virou o carro habilidosamente. Em pouco tempo, ele passou por vários becos estreitos e encontrou uma rua secundária deserta.

Vanessa cobriu a boca com as costas da mão e engoliu o enjoo crescente. Talvez por ter ficado olhando para o pequeno bastidor de bordado, seu estômago, já perturbado, começou a revirar.

— Está enjoada por causa do movimento? Está pálida.

— Um pouco. Acho que vou vomitar….

— Alman, pare o carro por um momento. A senhorita vai passar mal.

— Não posso, Mary. Esta é uma área perigosa, então preciso aumentar a velocidade.

— …Não há nada que possamos fazer. Tome um pouco de ar fresco, Senhorita. Tente olhar o mais longe possível no horizonte.

Mary estendeu o braço e abaixou a janela do lado de Vanessa. Junto com o ar quente e úmido do verão, o cheiro de peixe do porto e a fumaça acre da fábrica invadiram a carruagem. Vanessa encostou a bochecha no batente da janela e olhou para fora.

Mesmo na periferia da cidade sombria, a estação estava em seu ápice. Amanhã seria a primeira semana de julho. Flores de verão desabrochavam profusamente no humilde jardim de rosas de Gloucester, e, pelas manhãs, borboletas e abelhas zumbiam suavemente. Isso também sinalizava que seu contrato com River Ross estava na metade.

Ela aceitou o convite da família Essex, o qual poderia facilmente ter recusado, precisamente por causa disso. Algo mudou. Ela não sabia explicar com precisão, mas em algum momento, River Ross mudará. De uma forma que era ao mesmo tempo boa e ruim.

Claro que houve momentos semelhantes antes. Ela muitas vezes se deixava levar pela atmosfera, planejando o futuro ou agindo como se este verão nunca fosse acabar, e River Ross entrava na onda, participando da encenação. Era uma espécie de contrato, uma regra não dita. Uma liberdade que tinham porque aquilo nunca aconteceria de verdade. River Ross nunca se esquecia de onde parar, e ela estava sempre preparada para aceitar uma vida sem ele.

Mas os últimos dias foram diferentes. A maneira como ele dizia o nome dela, o olhar dele quando ela se virava ao seu chamado, o jeito como falava, ouvia e se movia — Tudo havia mudado. Lentamente, mas firmemente, como o mar de verão aquecendo gradualmente sob o sol.

Ultimamente, ao observá-lo, Vanessa muitas vezes se pegava presa em uma ilusão miserável. A de que ele poderia ter realmente se apaixonado por ela, e que eles poderiam procurar um pelo outro mesmo depois que esta estação terminasse. Essas ilusões não ajudavam em nada. Ela precisava de tempo para recuperar uma distância adequada. Por ele, e por si mesma.

Se o River Ross quiser continuar com isso… Diante do sussurro insidioso em seu interior, Vanessa pressionou os lábios com firmeza. Mesmo que isso aconteça, eu precisarei recusar.

River Ross era um soldado com um futuro garantido, e a existência dela seria uma mancha fatal nesse futuro brilhante. Com ela, River Ross se tornaria um homem que, esquecendo o seu lugar, cobiçara uma nobre, e ela se tornaria uma devassa que traíra até a própria honra, entregando-se a um plebeu. Ela preferia guardar com carinho o amor deles a permitir que se tornasse a fraqueza dele.