Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 93

Capítulo 93

Tradução: Emma

Capítulo 93


O olhar concentrado do homem era como aço derretido. Não era a intensidade em si, mas a consciência de estar sendo observada, até o menor dos sobressaltos, que deixava Vanessa tensa. O calor florescia em sua pele onde quer que os olhos dele pairassem. Eles traçavam seu nariz, seus lábios, a curva suave de seu maxilar, subindo até a testa antes de mergulharem mais fundo — para a linha delicada de sua garganta, sua clavícula, o volume de seus seios visível sob o roupão folgado, seus mamilos eretos, a superfície lisa de seu abdômen e ainda mais para baixo….

Vanessa engoliu em seco. Queria quebrar o silêncio tenso, mas no momento em que encontrou seus olhos azuis, olhando-a como se através do papel em que desenhava, sua respiração travou. Parecia um sonho. O calor tênue da lareira, os grãos de poeira dançando no ar, o arranhar do carvão no papel, o homem com as magas arregaçadas da camisa, o movimento de seus braços e mãos flexíveis e fortes.

A cada vez que ela inclinava a cabeça, a luz mudava, pintando sombras suaves sobre o rosto esculpido dele. Inspirou de forma trêmula e então, de repente, ele sorriu.

— Relaxe.

— É tão óbvio assim?

— Apenas continue falando.

— Falando?

— Sobre qualquer coisa.

Ela piscou, sem saber por onde começar. River Ross, percebendo sua hesitação, ofereceu um gancho.

— Alguns marinheiros acreditam em sereias.

— Ah, eu já ouvi falar disso. Especialmente os pescadores do norte. Eles realmente acreditam nesses monstros. Dizem que elas aparecem com mais frequência quando o inverno se transforma em primavera.

Inúmeras histórias de sereias haviam sido passadas de geração em geração, mas Vanessa nem sequer acreditava totalmente nas histórias de sua própria mãe. Lendas eram apenas superstições. Os navios provavelmente colidiam com blocos de gelo em derretimento ou recifes invisíveis envoltos em névoa….

— Essas histórias provavelmente servem apenas para assustar os marinheiros. Há muitos naufrágios nessa época do ano.

— Sim. Dizem que as sereias atraem os marinheiros para a ruína, os arrastam para seus ninhos e usam seus corpos para procriar mais monstros.

— Alimentando-se de carne e sangue humanos…. Algumas pessoas pensam que é uma metáfora para o sexo.

— A maioria dos marinheiros acredita literalmente. Dizem que aqueles que são seduzidos pelas sereias nem percebem até que os lábios do monstro estejam sobre os seus.

— River, você acredita nelas?

— Não acredito em nada que não tenha visto com meus próprios olhos. E tente não sorrir tanto, Vanessa.

— Certo.

Ela recompôs suas feições, o divertimento desaparecendo à medida que percebia por que ele não acreditava em Deus. Era uma razão perfeitade nível River Ross. Com as bochechas coradas, ela se forçou a encarar o olhar dele. Adorava observá-lo quando ele estava absorvido em seu trabalho. Seus dedos fortes esfumaçavam o carvão, sua mão movendo-se com precisão rápida, adicionando detalhes. Seu rosto elegante estava sutilmente corado de concentração.

Às vezes, apenas esses momentos tranquilos eram suficientes. Não fazer absolutamente nada parecia gratificante. Apenas estar no mesmo espaço, compartilhando o mesmo fluxo de tempo, preenchia-a com uma sensação de contentamento. Finalmente, ele olhou para cima.

— Aqui. Dê uma olhada.

— Já terminou?

Vanessa levantou-se da cama e foi para o lado dele. Colocando uma mecha rebelde de cabelo atrás da orelha, pegou o papel da mão dele. Um arquejo escapou de seus lábios quando viu o desenho.

Era uma mulher, com o torso apoiado em uma rocha banhada pelas ondas. Seus olhos, fixos em algum ponto distante, pareciam inocentes e límpidos, mas suas unhas, agarradas à pedra, eram afiadas como lâminas. Escamas cobriam a parte inferior de seu corpo e, sob a superfície da água, sua cauda tremulava — longa e translúcida, como a de um peixe, não a de um humano. Como uma sereia das lendas.

— Eu amei….

Vanessa encarou o desenho maravilhada. Era o rosto dela, mas não exatamente. A criatura no desenho era ao mesmo tempo dócil e feroz, inocente e elegante. Ela tinha certeza de que, se aqueles lábios fechados se abrigassem, dentes afiados seriam revelados.

— Fico feliz que tenha gostado.