Tradução: Gheo
Capítulo 87
– Na juventude, viver de forma simples, apenas vocês dois em um lugar tranquilo, tem seu próprio romantismo. Ora, até Sua Majestade, a Rainha, passou um tempo em uma ilha quando estava grávida da princesa.
Rosalind falava como se a ilha onde a Rainha passara a lua de mel fosse uma rocha deserta, quando, na verdade, era uma ilha turística bastante grande, com uma população superior a 400 mil habitantes. Essa perspectiva distorcida foi, sem dúvida, herdada das mulheres mais velhas da sociedade de Lyndon.
– É preciso passar por dificuldades para apreciar o valor do que se tem agora.
Rosalind, ainda na adolescência, falava com a sabedoria cansada de quem já tinha visto de tudo, um hábito herdado de sua mãe, a Marquesa. Às vezes, esses ecos da herança familiar eram surpreendentemente claros.
Vanessa disfarçou o desconforto com uma risada apática.
– Acho que sim.
– Essa criança ainda não cresceu de verdade.
Quando Rosalind falava assim, era a cara da Marquesa de Winchester. Essa constatação sempre deixava Vanessa inquieta. Afinal, as crianças tendiam a se parecer com os pais. E ela só tinha o tio como figura paterna.
Será que os outros percebem algo semelhante em nós? Será que, sem perceber, adotei seus trejeitos e sua maneira de falar?
O pensamento a fazia estremecer de vez em quando, deixando-a com uma sensação de miséria e insignificância. Apesar do tratamento injusto que recebia, precisava ser grata por sua generosidade, especialmente por ter financiado seus estudos em Saint Louis. Mesmo que essa decisão não tivesse sido totalmente altruísta, mas sim uma forma de mantê-la em um internato até que tivesse idade suficiente para negociar um casamento.
– Vanessa, venha aqui.
Rosalind, segurando um longo véu que havia tirado de uma caixa adornada com fitas, apontou para um espelho de corpo inteiro. Um tanto atordoada, Vanessa deixou que as criadas de Rosalind a conduzissem.
Seus cabelos estavam penteados como se estivesse pronta para um casamento, e um buquê de flores brancas foi colocado em suas mãos. Uma maquiagem leve realçava suas bochechas e seus lábios.
– Você está linda. Olhem só para ela!
As criadas, depois de alisarem meticulosamente as rugas do vestido, recuaram com um suspiro coletivo de admiração. Conduzida até o espelho, Vanessa finalmente ergueu o olhar. Uma mulher de rosto pálido a encarava. Um monstro que havia jogado fora a amizade, as expectativas do tio e a honra dos pais.
Você está feliz agora?
Parecia ser essa a pergunta da mulher refletida no espelho. Enquanto Vanessa levava a mão para conter o tremor, Rosalind deu um passo à frente com o véu.
– Levante o queixo… Muito bem, fique quieta.
Os olhos esmeralda, tão parecidos com os do irmão, brilhavam com uma luz séria. Uma tiara de diamantes, presente do Conde de Roden, foi colocada sobre sua cabeça, seguida pelo delicado véu branco. Rosalind, com as mãos trêmulas, ergueu a renda que cobria metade do rosto de Vanessa.
– Oh, Vanessa.
Os olhos de Rosalind, repletos de emoções conflitantes, se encheram de lágrimas. Ela abraçou Vanessa com força, lutando para falar.
– De verdade… você é tão…
– Você está bem?
– …Quero assassinar o Conde de Lowden neste instante.
Vanessa abraçou com força a amiga, que chorava em seu ombro. Rosalind chorou e depois riu baixinho, relembrando o passado. Vanessa, que a princípio compartilhava da tristeza da amiga, sentiu um leve sorriso surgir em seus lábios.
Ela nunca esperou ser feliz. Seu destino era simplesmente lutar contra o desespero absoluto. E talvez isso fosse suficiente.
