Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 83

Capítulo 83

Tradução: Emma

Capítulo 83


— Aquela criança quase não voltou para Saint Louis. Ela teria perdido a formatura e a grande turnê.

Naquele dia, após fitá-la longamente em silêncio na sala da diretoria, a marquesa finalmente se levantou. Vanessa chegou a acreditar que Blair e Rosalind fingiriam não conhecê-la quando o novo período letivo começasse. Por isso, quando o trimestre recomeçou e Rosalind a abraçou com o mesmo sorriso de sempre, o alívio que sentiu foi imenso. Mas imaginar agora que Rosalind suportará tamanha humilhação durante as férias por causa dela... Os olhos cinzentos de Vanessa estremeceram em choque.

— Eu não tive escolha a não ser aceitar o noivado com Cecily para tirar Rosalind do confinamento... E para te proteger. Minha mãe havia escrito ao diretor exigindo a sua expulsão.

Vanessa encarou Blair, completamente atônita. Sempre soubera que o noivado com Cecily parecerá repentino, mas jamais imaginara que aquelas fossem as circunstâncias por trás da decisão.

De certa forma, tudo fazia sentido. Desde pequenos, Cecily vivia provocando Blair sobre casamento. Dizia que jamais se casaria com outro homem, insistia que os três eram inseparáveis e que a vida deles jamais estaria completa se um deles fosse deixado de lado.

Vanessa lembrava-se perfeitamente de como o olhar inicialmente brincalhão de Cecily havia, pouco a pouco, se transformado em algo profundamente sincero. Também se lembrava do alívio silencioso que sentira ao descobrir que seu amigo estava noivo. Se Blair deixasse de estar tão ligado a ela, a marquesa certamente deixaria de suspeitar.

E foi exatamente o que aconteceu. Depois do noivado, a Marquesa de Winchester deixou os dois em paz, não importava quanto tempo passassem juntos ou quão próximos parecessem. Às vezes, inclusive, enviava presentes para Vanessa, como se finalmente tivesse voltado a enxergá-la como a filha de sua antiga amiga.

— Blair, eu...— Dominada pela culpa, Vanessa tentou falar, mas Blair apertou seu pulso com mais força, silenciando-a. O rosto dele, distorcido em algo que mal podia ser chamado de sorriso, parecia assustadoramente estranho.

— Eu pretendia esconder isso de você e da Rosalind até o dia da minha morte.

— ...

— Se não fosse por isso, Vanessa...

Ele encostou delicadamente os lábios no pescoço esguio dela. A sensação começou úmida, transformou-se em dor e, por fim, em uma ardência persistente. Quando finalmente se afastou, respirava de forma irregular. Fitou o rosto de Vanessa, prestes a desabar em lágrimas. Em seguida, soltou lentamente o pulso dela e virou as costas. Seus passos se afastaram em ritmo constante, até serem seguidos pelo som seco da porta se fechando. Sem forças para continuar de pé, Vanessa escorregou lentamente pela parede até sentar-se no chão. Tudo ficou escuro.



— Quem diria?— Ainda era madrugada, pouco antes do amanhecer. A cada passo de Blair, pequenos torrões de terra seca desprendiam-se de seus sapatos, vestígios dos montes revolvidos para o plantio das novas roseiras. Com aparente indiferença, ele percorreu o pequeno galpão com o olhar. — Que o duque, tão desesperadamente procurado pelo rei de Ingram, estaria escondido em um lugar tão... Humilde e apertado.

A janela aberta, emoldurada por vasos floridos, a pequena mesa com cadeiras de madeira, o fogão portátil com uma chaleira fervendo sobre ele — tudo compunha uma cena surpreendentemente acolhedora. O jardim de verão, tomado por roseiras em plena floração, irradiava vida, e a cama parcialmente visível atrás da cortina balançando ao vento parecia confortável. Isso tornava a situação ainda mais perturbadora. Quão intimamente aqueles dois não deviam ter vivido naquele espaço...

O olhar de Blair pousou sobre uma fita manchada de grama, esquecida sobre a mesa de cabeceira. Seus olhos escureceram por um instante antes que ele voltasse a esconder qualquer emoção sob uma expressão cuidadosamente neutra.

— Ouvi alguns rumores sobre as suas... Excentricidades.

Como se o silêncio lhe fosse insuportável, Blair continuou falando, cada palavra afiada revelando o quanto permanecia em guarda. Theodore observou calmamente o visitante indesejado. O jovem educado que, poucas temporadas antes, havia sido apresentado pelo Marquês de Winchester e lhe oferecera uma saudação impecável desaparecera por completo. Em seu lugar havia alguém eriçado, desconfiado, como um animal defendendo o próprio território. Aquilo era quase engraçado. Cão que ladra não morde. Se Blair realmente tivesse intenção de mostrar os dentes — e se as posições entre eles estivessem invertidas — Theodore dificilmente estaria perdendo tempo com aquela conversa.

— Então…— Theodore consultou o relógio de pulso antes de levar um cigarro aceso aos lábios. Tragou profundamente, a bochecha contraindo-se levemente, e estreitou os intensos olhos azuis. A fumaça subiu em espiral, como um longo suspiro. — Você não veio até aqui, a esta hora ingrata, apenas para confirmar as minhas excentricidades.