Tradução: Emma
Capítulo 81
— Está calor. Eu saí para caminhar.
— Vestida desse jeito? — O sorriso lentamente desapareceu dos lábios de Blair. Seus olhos, escuros e profundos, pareciam enxergar através dela. Ao contrário do seu eu habitual, sempre pronto com uma piada ou uma distração, ele parecia determinado a não deixá-la escapar desta vez. Parecia uma declaração de intenção — ele não deixaria isso passar.
Vanessa encarou-o, em silêncio, como se ele fosse um estranho. Quando foi que Blair já havia interferido em seus assuntos dessa forma? Questionar diretamente suas atividades privadas era uma violação significativa de etiqueta, mesmo entre amigos próximos. Por outro lado, talvez Blair já tivesse decidido cruzar essa linha quando entrou secretamente em seu quarto vazio e permaneceu ali por horas. Hoje, ao que parecia, algo havia mudado.
— Não me lembro de jamais tê-la visto com este vestido.
Blair deu um passo à frente, com a mão estendida, pairando sobre o pulso esguio dela. O vestido, posicionado de forma precária, ameaçava escorregar ainda mais pelos ombros a cada movimento mínimo. Embora parecesse relativamente modesto em meio à agitação animada das ruas noturnas, dentro das paredes da mansão de Gloucester, era chocantemente inadequado.
A única salvação era a discrição de River Ross em relação a marcas visíveis. A menos que seus seios estivessem expostos, não haveria vestígios da intimidade deles. Apesar disso, Vanessa sentia-se totalmente exposta. Ela instintivamente cobriu o abdômen com o braço livre.
— Eu já tenho esse vestido há algum tempo. Só não costumo usá-lo…
— Resolveu seguir as últimas tendências dos novos-ricos?
— Vanessa. — Ele estendeu a mão e virou o rosto dela em sua direção. — Não consegue me olhar nos olhos quando mente. — O aperto dele aumentou. Um sorriso torto surgiu em seus olhos verde-esmeralda enquanto ele sustentava o olhar dela. — Você arrumou um amante?
— …Não é nada disso.
— Eu vi você com um oficial da marinha.
— Nós apenas trocamos saudações algumas vezes no jardim. Ele é um amigo de infância que costumava visitar a mansão de Gloucester. Foi apenas… Blair, me solte!
Ignorando o protesto dela, ele puxou com força o decote do vestido, revelando os chupões fracos e manchados que marcavam a pele avermelhada pelo tecido. Blair olhou para as marcas, com a expressão se contorcendo em uma careta.
— Você faz isso com amigos?
Mais do que vergonha, Vanessa sentiu uma onda de medo e raiva. Ela não conhecia aquele homem, aquele homem com aquele rosto, capaz de tais ações. A respiração travou em sua garganta.
— Me… Solte…
— O seu tio sabe que anda se comportando assim? E quanto a esse oficial da marinha?
— Não ouse tocá-lo. — Vanessa, embora sem fôlego, respondeu com um olhar feroz, com seus olhos azul-gelo desafiadores. Eram nobres de nascimento, feras elegantes, cada uma com seu próprio território estabelecido.
Essa era a natureza da alta sociedade de Ingram. Não importava quais casos sórdidos ocorressem a portas fechadas, as aparências externas eram primordiais. Eles se esforçavam para manter uma fachada de impecável elegância e desprezavam profundamente aqueles que usavam a familiaridade como desculpa para invadir a vida alheia.
A amizade deles também foi construída sobre essa base: respeitar os limites um do outro, oferecer conselhos ocasionais, nunca ultrapassar a linha. A relutância de Rosalind e Blair em intervir diretamente na situação dela vinha desse mesmo princípio. Eram jovens, mas respeitavam o mundo de Vanessa. Afinal, eram apenas amigos.
Ela nunca havia se ressentido disso; considerava a marca da verdadeira nobreza, a ordem natural das coisas. O que tornava o comportamento de Blair hoje ainda mais estarrecedor. Vanessa empurrou a mão dele com força.
— Que direito tem de fazer isso comigo?
— O quê?
— Você tem a Cecily.
A cor sumiu das bochechas coradas de Blair. Ele olhou para ela, momentaneamente atônito, como se tivesse levado um golpe. As palavras claramente atingiram um ponto sensível.
Vanessa conhecia Blair tão bem quanto ele a conhecia. Eles eram inseparáveis há anos. Olhando para trás, os gêmeos Winchester estavam presentes em todos os momentos significativos de sua vida. Desde os quatro ou cinco anos, quando as pessoas os provocavam dizendo que pareciam um pequeno casalzinho de mãos dadas, até a vez em que Rosalind, com ciúmes da atenção do irmão, empurrou Vanessa do sofá, até o dia em que choraram juntos no funeral do Conde e da Condessa.
