Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 80

Capítulo 80

Tradução: Emma

Capítulo 80




River Ross permaneceu em silêncio enquanto os dois pulavam a cerca de volta para o jardim. Vanessa lançou um olhar discreto para o homem que caminhava ao seu lado. Em algum momento, algo nele havia mudado. Ela não saberia dizer exatamente o quê, mas a diferença era perceptível. O olhar, antes distante e apático, agora transmitia serenidade e firmeza, e ele carregava a presença de um homem plenamente seguro de si. Como se tivesse amadurecido de repente no curto espaço de tempo que passaram juntos.

— Entre.

Ao chegarem à escada dos fundos, Vanessa soltou a mão dele com relutância. O calor que ainda permanecia no ponto onde suas peles haviam se tocado desapareceu quase de imediato.

— Bem então, River. Até amanhã.

— Amanhã tenho alguns assuntos para resolver. Vamos nos encontrar daqui a quatro dias.

— Quatro dias? Você é mesmo muito ocupado…

Ao ouvir o resmungo descontente dela, River Ross soltou uma breve risada.

— Estarei em Lyndon. Se precisar de alguma coisa, me avise. Trago uma lembrança para você.

— Não preciso de nada. Na verdade, da próxima vez que a companhia de teatro vier, vamos assistir juntos.

— Isso só vai acontecer depois que o verão acabar.

— Para mim, tudo bem.

As palavras escaparam antes que ela pudesse contê-las, revelando sua ansiedade mais do que gostaria. Vanessa mordeu o lábio e acrescentou, um pouco insegura.— Mesmo depois que este verão terminar… Como amigos. Se… Isso estiver tudo bem para você.

Os olhos de River Ross se arregalaram levemente, pego de surpresa. Vanessa teve vontade de bater a cabeça na parede. Teria sido muito melhor fingir que aquilo era apenas uma promessa feita sem pensar. Agora parecia que ela já imaginava um futuro para o relacionamento deles além do verão, apesar de ter afirmado com tanta convicção que cada um seguiria seu próprio caminho quando a estação terminasse.

À medida que o silêncio dele se prolongava, Vanessa foi baixando a cabeça cada vez mais. Sentia-se terrivelmente envergonhada e tinha a impressão de que ele estava rindo dela por dentro. Por que tinha sugerido aquela aposta idiota?

— Tudo bem.

Vanessa ergueu a cabeça num instante.

— Vamos algum dia.

Uma mão grande bagunçou seus cabelos. Não havia o carinho dedicado a uma amante, mas a naturalidade distraída de quem afaga um cachorrinho um tanto inconveniente. Ainda assim, sua respiração ficou presa na garganta. Vanessa apenas assentiu, obediente como uma criança.

— Então… Eu vou.

Ela olhou para trás várias vezes antes de entrar na casa. Em todas elas, River Ross continuava parado exatamente no mesmo lugar. Aquilo a deixava estranhamente feliz. Era como se ele sempre fosse estar ali, esperando por ela toda vez que resolvesse olhar para trás. Mesmo que fosse apenas uma ilusão, aquela havia sido uma noite maravilhosa. A escada estreita e escura que levava ao seu quarto, assim como o corredor vazio e silencioso, já não pareciam tão assustadores. Ela destrancou a porta com cuidado e entrou.

— ….

O quarto, que deveria estar completamente escuro, era iluminado por uma luz fraca. A lamparina sobre a escrivaninha ainda permanecia acesa. Ela havia regulado o óleo para que a chama se apagasse sozinha depois de algum tempo…

Enquanto atravessava o quarto, com os olhos se acostumando à penumbra, estendeu a mão para apagar a lamparina. Foi então que uma voz rompeu o silêncio atrás dela.

— Só voltou agora?

Assustada, Vanessa esqueceu toda a cautela e segurou a lamparina quente por instinto. A dor queimou sua palma, mas mal percebeu enquanto se virava às pressas. Um arquejo escapou de seus lábios ao reconhecer o rosto familiar.

— Meu Deus, Blair! Você me assustou…

O alívio dissipou a tensão que a dominava. No pior dos cenários, ela havia imaginado encontrar o tio ou Mary à sua espera. Só então a queimadura em sua mão começou a latejar, e ela observou a pequena bolha que começava a se formar. Uma sensação incômoda surgiu de repente, fazendo-a erguer lentamente os olhos.

Como Blair tinha entrado em seu quarto? A porta estava trancada por fora. Ela mesma acabara de destrancá-la. Não podia estar enganada.

— Mas… Há quanto tempo está aqui?

— Há cerca de duas horas.

— Achei que a Mary tivesse dito que você não voltaria hoje…

— Ela disse que não tem passado bem ultimamente. Que esse resfriado não melhora.

— Isso… Isso é verdade, mas… Hoje eu melhorei mais rápido.

Sem perceber, ela fechou a mão úmida de suor.

— Você entrou pela janela?

— Essa é a pergunta que eu quero fazer a você.

O olhar tranquilo de Blair percorreu Vanessa lentamente, analisando os cabelos desalinhados, as bochechas coradas e as roupas leves. Tudo em sua aparência deixava claro que ela estava fora, e não apenas em uma breve caminhada. Para completar, usava o novo vestido de musselina, aquele que deixava os ombros e a nuca à mostra. Depois de um longo instante de silêncio, os lábios de Blair se curvaram em um sorriso lento.

— Onde esteve, Vanessa?