Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 74

Capítulo 74

Tradução: Emma

Capítulo 74


Uma estranha inquietação roçou a superfície do fluxo habitual de seus pensamentos, fazendo-o parar por completo.

O que estou esperando?

Aquele verão era um sonho passageiro, destinado a nunca mais se repetir. Não existia futuro para aquilo. Desde o início, o relacionamento dos dois fora construído sobre mentiras. Mesmo que voltassem a se encontrar na sociedade, ambos ocupariam posições nas quais reconhecer aquele breve período juntos seria impensável.

— River?

Percebendo que ele havia parado, Vanessa se virou. Aproximou-se dele e inclinou levemente a cabeça. Um aroma suave de sabonete envolveu o ar conforme diminuía a distância entre os dois.

— O que foi?

— Só um momento.

— Você está passando mal?

A pergunta inocente, acompanhada pelo olhar direto que ela lhe lançava de baixo para cima, fez um arrepio de desejo percorrer seu corpo. Ele soltou um gemido abafado e passou a mão pelo rosto. As consequências de sua recente falta de autocontrole finalmente começaram a alcançá-lo.

Ele sempre zombara dos homens que cobriam suas amantes de ouro apenas para atraí-las de volta para a cama. No entanto, oferecer a Vanessa praticamente uma loja inteira de vestidos não era muito diferente.

Perdido por um instante naquela espiral de autodepreciação, ele afrouxou a tensão que carregava.

— Meu Deus, River! Olhe!

A voz dela, leve e cheia de entusiasmo, deixava claro que o conflito interno dele simplesmente não fazia parte do mundo dela.

— Gatinhos! Estão vendendo gatinhos tão pequenininhos… Pobrezinhos.

A voz encantada veio de mais perto. Esquecendo completamente as roupas novas, Vanessa se agachou e pegou no colo um pequeno gatinho branco, magro e desgrenhado.

Ela lamentou que o filhote tivesse sido separado da mãe, mas seu rosto, suavizado pelo carinho que sentia pela pequena criatura, irradiava felicidade.

Por um breve instante, ele alimentou o impulso de levá-la às pressas para o hotel mais próximo e fazê-la chorar até ficar sem forças.

Levou a mão à boca e respirou lenta e profundamente para recuperar o controle. Acalme-se. Aquele passeio deveria ser uma distração. Eles eram dois adultos sensatos e, por mais físico que fosse o relacionamento entre eles, não poderiam passar o verão inteiro confinados em um galpão.

Ainda assim, não conseguiu deixar de lamentar o tempo que não haviam passado daquela maneira. Alheia aos desejos mais carnais dele, Vanessa voltou-se em sua direção, exibindo um sorriso luminoso enquanto segurava o gatinho sujo nos braços.

Ele a observou, completamente cativado por um instante. Então, um grupo de homens carregando uma longa escada de metal e adereços destinados ao teatro atravessou seu campo de visão. A breve interrupção despertou nele uma súbita urgência. Ele começou a abrir caminho pela multidão em direção a Vanessa quando uma voz o chamou.

— Capitão?

Theodore virou-se por reflexo, percebendo o erro tarde demais. Um cavalheiro bem-vestido, usando um chapéu-coco, estava a poucos passos de distância, hesitante. O reconhecimento surgiu lentamente em seu rosto, até dar lugar à absoluta certeza. Num instante, ele assumiu posição de sentido e bateu continência com precisão.

— Meu Deus, senhor! Ouvi dizer que o senhor estava de licença no sul, mas jamais imaginei encontrá-lo aqui! É uma honra, senhor!

— Eu conheço você?

— S-senhor! Tenente Campbell, Quarto Batalhão. Por favor, senhor, não precisa de formalidades!

— Creio que o senhor me confundiu com outra pessoa.

Theodore interrompeu a saudação efusiva. Os olhares discretos das pessoas ao redor tornavam-se cada vez menos discretos à medida que o homem falava.

A confusão tomou conta da expressão do tenente. Sentindo o peso da atenção crescente da multidão, Theodore decidiu encerrar aquilo rapidamente.

— Sargento Ross.

— Senhor?

O homem inclinou a cabeça, completamente perplexo. Theodore voltou o olhar ansiosamente para o lugar onde Vanessa estava agachada. A multidão, engrossando com a aproximação do horário do circo, bloqueava completamente sua visão.

— Preciso ir.

Antes de partir, fez um breve sinal com a mão: Manter o curso sem luzes. Embora a expressão tivesse origem na navegação, era amplamente conhecida como uma ordem para manter absoluto silêncio.

— Ah!

O homem soltou um som abafado de compreensão e baixou a continência de maneira desajeitada. Em seguida, assumiu um tom rígido e artificial, murmurando as palavras como se as estivesse lendo de um manual.

— Minhas desculpas, senhor. Parece que eu… Me confundi… Com outra pessoa completamente diferente.

— Compreendo.

— Bem, então… 1já vou.

O rosto pálido do homem brilhava de suor. Praticamente apoiando-se no acompanhante para conseguir caminhar, ele se afastou às pressas. Theodore acompanhou sua partida com os olhos semicerrados, até que um arquejo assustado de Vanessa chegou aos seus ouvidos.

Sem hesitar, ele atravessou a multidão em direção a ela. O vendedor de gatinhos havia desaparecido, deixando Vanessa sozinha. Assim que o viu se aproximar, ela baixou lentamente a mão que mantinha sobre a boca.

— River…

Seu pequeno rosto, pálido e tenso, parecia uma máscara de angústia.