Tradução: Emma
Capítulo 72
Tendo recuperado a postura de um perfeito cavalheiro, ele apontou com o queixo para uma sacola de papel. Estava cuidadosamente embrulhada, sinal de que a havia comprado antes. Como um presente… Para ela…
O lenço levemente manchado foi jogado no lixo. Segurando o biombo, River Ross virou-se, como se de repente tivesse se lembrado de algo.
— Não use aquele maldito espartilho.
Seus lábios roçaram a testa dela em uma advertência quase terna.
— A camisa e a saia já foram consertadas e estão lá dentro. Você pode usar o vestido do jeito que está.
— O quê?
— Não se preocupe com o custo. O cavalheiro que a acompanhava pagou por tudo.
— …O quê?
Vanessa piscou, encarando a proprietária. Confusa com aquela situação incompreensível, repetiu a pergunta de forma quase automática. A mulher sorriu, com os cantos dos olhos se enrugando.
— Ele me entregou o talão de cheques antes de subir as escadas. Disse para comprar tudo o que você olhasse, tocasse ou experimentasse. As joias eu cobrei à parte, porque não estavam incluídas.
Naquele instante, Vanessa compreendeu o sorriso estudado que antes pairava nos lábios da proprietária, assim como a repentina gentileza e cordialidade. Ao simples gesto da mulher, os funcionários começaram a trazer caixas embrulhadas e sacolas de papel, empilhando tudo aos pés de Vanessa.
Ela encarou a montanha de compras, completamente atordoada. E havia ainda mais itens sem embalagem atrás da pilha: chapéus, sombrinhas, roupas íntimas adornadas com rendas delicadas que ela jamais tinha visto.
— Se for difícil carregar tudo isso, pode deixar aqui e buscar aos poucos, sempre que vier.
Percebendo seu choque, a proprietária fez a sugestão com delicadeza. Vanessa finalmente recuperou a compostura e balançou a cabeça.
— Deve haver algum engano.
— O cavalheiro não se enganou. Ele usou um cheque emitido pelo Almirantado.
— Eu… Não preciso dessas coisas.
— Talvez ele tenha achado que precisava. Pela dignidade dele, se não por outro motivo.
Vanessa percebeu um lampejo de pena misturado a desdém no olhar da proprietária. Ela falava em um tom afável, como quem consola uma criança, encarando-a como uma jovem ingênua que havia sido iludida.
— Pode parecer sufocante, já que é a sua primeira vez… mas isso não é incomum. Principalmente entre militares. Eles costumam ser extravagantes. Acredite em mim, querida: nesse tipo de relacionamento, é melhor aceitar tudo o que puder.
— Não é esse tipo de relacionamento.
— Ah, mas é…
A risada cúmplice carregava um fundo amargo. Seu olhar, perdido por um instante como se revivesse antigas lembranças, voltou enfim para Vanessa.
— Não se apegue demais a alguém que está apenas de passagem.
Vanessa parou por um instante, sem saber se ria ou chorava. Ao contrário do que a proprietária imaginava, ela jamais acreditara que aquele relacionamento fosse durar para sempre.
Desde o começo, eles haviam firmado uma aliança temporária em benefício mútuo, um acordo entre iguais, no qual cada um pagava o próprio preço. Ela não era uma mulher que trocara a inocência pelas promessas vazias de um soldado… Não era a adorável amante de um oficial da marinha.
Mas era exatamente assim que todos a enxergariam. A percepção fez sua respiração prender na garganta. Pela primeira vez, compreendeu o tipo de olhar que receberia e o rótulo que carregaria muito tempo depois que aquele relacionamento chegasse ao fim.
Vanessa atravessou as portas da loja apressadamente e caminhou em direção a ele com passos firmes. Ao vê-la se aproximar daquele jeito, Theodore apagou rapidamente o cigarro e dispersou a fumaça. Ela torceu levemente o nariz, percebendo o cheiro, e o encarou com os olhos estreitos.
— Cancele isso.
— Cancelar o quê?
— Aquelas roupas. Foi você quem comprou tudo, não foi?
Ela enfatizou "aquelas roupas" enquanto apontava para a loja. Pela vitrine, era possível ver caixas e sacolas empilhadas como se ele tivesse decidido comprar o estabelecimento inteiro.
Theodore lançou um breve olhar para a cena, claramente perplexo, antes de voltar sua atenção para Vanessa. Ela não tinha a menor aparência de alguém que acabara de ganhar um presente. As bochechas estavam coradas, como se tivesse sido ofendida em vez de presenteada.
— Isso é exagero.
— É só uma loja. Uma lojinha escondida no interior.
— Por favor, River…
— Nem foi tão caro assim. E você precisa dessas coisas.
— ….
Vanessa fechou a boca antes de continuar protestando. Aquela loja, que para ela parecia pertencer a outro mundo, não significava praticamente nada para ele. River Ross parecia até levemente irritado. A diferença entre os dois fazia com que ela se sentisse pequena.
— …Era muito dinheiro para mim. E eu nunca soube que a família Ross fosse especialmente rica.
— Oficiais da marinha recebem bem.
— Bem o suficiente para esse tipo de extravagância?
— Você mesma disse que dinheiro não era tão importante para você.
— É importante para mim. Então cancele tudo. Agora.
— Não pode simplesmente aceitar isso com elegância?
Ele suspirou e passou a mão pelos cabelos desalinhados pelo vento. Seus profundos olhos azul-oceano estavam frios, como se observassem algo que ele simplesmente não conseguia compreender.
— Por que ficou tão chateada de repente…?
