Tradução: Gheo
Capítulo 64
A sensação dos lábios dele em sua testa enquanto ela dormia, a forma como ele afastava o calor, o silêncio de seus passos para não acordá-la… nenhum desses gestos demonstrava frieza ou cálculo.
Certa noite, ela se pegou rindo sem perceber e, assustada com a própria risada, cobriu a boca com a mão. Sempre que esses momentos pareciam indicar algo mais, Vanessa cravava as unhas na palma da mão até doer, como agora.
Dói.
Ela havia desenvolvido o hábito de infligir essa pequena dor a si mesma sempre que se sentia arrebatada por ele. Estar com River Ross era doce e fútil ao mesmo tempo, como um sonho fadado ao fim. E, às vezes, esse fato a deixava incrivelmente ansiosa.
Cada um segurava a ponta de um fio invisível, mas quando ela recobrou os sentidos, percebeu que era a única pendurada precariamente na corda bamba. Como um cão preso à coleira, ela era arrastada sempre que ele puxava o fio, e seu olhar apaixonado era impossível de esconder.
Vanessa mordeu o lábio, subitamente constrangida pelo rubor que, sem dúvida, lhe tingia as bochechas.
– River.
Vanessa parou abruptamente, olhando em volta. Ela estava tão absorta nele que já tinham percorrido metade do caminho ao redor do castelo sem que ela percebesse.
– Não há nada além da muralha externa à nossa frente. Se continuarmos por aqui, vamos dar de cara com os guardas da patrulha.
– Eu sei.
– Então, para onde vamos…?
– Você disse que queria ver o circo.
– Bem, sim, mas vamos ver agora?
Vanessa piscou, confusa.
– Mas… Não, meu tio nem sequer volta hoje à noite. Ele nunca me deixaria sair, mesmo que eu implorasse por carta. E os gêmeos Winchester também não estão aqui hoje, então não tenho desculpa. Os guardas com certeza vão nos parar e, mesmo que não parassem, não temos carruagem nem automóvel para chegar lá…
O rosto de Vanessa empalideceu enquanto ela listava os motivos pelos quais aquilo era impossível, então parou no meio da frase, como se tivesse tido uma súbita revelação.
– Não me diga que você está sugerindo que a gente escale a parede?
– Algo assim.
– Isso é um absurdo! Podemos morrer se formos pegos.
– Assim não seremos pegos.
A confiança dele fez com que as preocupações dela parecessem triviais. Mas esse não era o único problema.
– Mesmo assim, não é uma boa ideia agora. Minhas roupas são completamente inadequadas.
– Suas roupas? Por quê?
– Essas roupas não são apropriadas para uma dama sair. Não tenho casaco e o botão de cima da minha blusa está faltando…
Embora pudessem parecer apresentáveis à primeira vista, suas roupas carregavam as marcas inconfundíveis de sua relação sexual.
Qualquer pessoa atenta saberia exatamente o que eles estavam fazendo apenas pelos amassados das roupas. A expressão de River Ross permaneceu indiferente, um sorriso displicente brincando em seus lábios.
– Se você não gosta tanto assim, podemos esquecer.
Os olhos cinzentos de Vanessa se nublaram de incerteza. Ela hesitou por um instante, depois balançou a cabeça resolutamente.
– Não, eu quero ir.
Se ela perdesse essa oportunidade, sentia que se arrependeria para sempre. O “momento perfeito” para escapar talvez nunca chegasse. Ele sorriu, como se já esperasse a resposta dela, e começou a caminhar à frente, demonstrando familiaridade com o caminho.
Vanessa olhou em volta com curiosidade. Era a mansão Gloucester, claro, mas ela raramente se aventurava por aqueles lados, e o lugar lhe parecia estranho.
– Como você ficou sabendo deste lugar?
– O Sr. Ross me disse.
– Sempre me perguntei, por que você se dirige ao seu tio de forma tão formal?
Ele olhou para ela de cima.
– Você sente algum grande afeto pelo seu tio?
– Bem… honestamente, não.
Vanessa corou levemente, como se estivesse admitindo um terrível segredo.
– Mas ainda assim não o chamo de Sr. Somerset.
– Por aqui.
Ele mudou de direção, encerrando abruptamente a conversa. Na diagonal de uma estátua de anjo em ruínas e negligenciada, um caminho estava meio escondido por arbustos crescidos. Seguindo-o, chegaram a um imponente portão de ferro e, além dele, a um fosso. Estavam no limite mais externo dos terrenos do castelo.
Como é que vamos passar por isso?
Assim que ela inclinou a cabeça, confusa, um leve ruído de metal raspando chamou sua atenção. River Ross havia se agarrado às barras e estava apoiando seu peso nelas.
– Meu Deus, River!
Ela estava prestes a avisá-lo de que ele poderia se machucar quando, surpreendentemente, as barras se abriram para dentro, abrindo espaço suficiente para uma pessoa passar.
