Tradução: Gheo
Capítulo 59
Era uma tarde abafada após uma breve chuva torrencial. Vanessa, folheando uma revista com a janela entreaberta, suspirou apaticamente. Seu olhar, desfocado e perdido em pensamentos, contrastava com o movimento automático de suas mãos virando as páginas, que finalmente parou.
Ela se sentia estranhamente pesada hoje. Talvez fosse o clima cada vez mais quente e úmido? Mesmo sentada, sua energia parecia se esvair. Suas mãos tremiam levemente, e um suor frio grudava em sua pele.
Apertando o abdômen dolorido, ela encostou a bochecha corada na superfície fria da escrivaninha. Seu olhar vago percorreu o ambiente familiar do quarto, junto com o aroma persistente do perfume de River Ross, um testemunho de sua presença recente.
Já está desaparecendo.
A brisa que entrava pela janela aberta dissipou rapidamente a fragrância. Hesitante, Vanessa abriu o frasco de colônia e inspirou profundamente, sentindo a náusea aliviar-se estranhamente com o aroma.
– Vanessa.
Imersa num sono profundo e repentino, Vanessa demorou a reconhecer a voz dele. A sombra de River Ross a envolvia como um dossel escuro. Ela piscou sonolenta, erguendo os olhos para encontrar os dele com um olhar que esperava transmitir boas-vindas.
– River. Quando você chegou aqui?
Iluminado pela luz que entrava pela porta aberta, o rosto de River Ross estava obscurecido. No entanto, o calor de sua pele, deixada pelos raios de sol do verão, o aroma fresco do jardim que o envolvia e o jeito descontraído como se encostava na mesa dela eram suficientes para confirmar sua identidade.
– Há cerca de trinta minutos. Eu estava no jardim.
– No jardim?
– Chegou uma nova variedade de rosa. Você parecia ocupada, então eu fui ajudar.
– Uma nova variedade?
Intrigada, Vanessa encostou levemente a bochecha na mesa. Com seu movimento lânguido, os lábios de River Ross se curvaram em um sorriso discreto.
– Se tem curiosidade, vá ver com seus próprios olhos. Mas, Vanessa...
– Sim?
– Por que você está tão exausta no meio do dia?
– Hum, não sei. Talvez seja o calor. Estou só um pouco cansada.
– Você parece ter passado a noite em claro.
– Na verdade...
Os dedos de River Ross tocaram de leve sua testa e bochecha, num gesto que lembrava o de quem mede a temperatura. O contraste daquele toque frio contra sua pele aquecida trouxe um alívio imediato, afastando o calor opressivo, a letargia que pesava sobre seus membros e o humor sombrio que a perseguia desde o encontro com o Conde Lowden.
Ao expirar languidamente e se sentar, River Ross habilmente retirou a revista de debaixo do rosto dela.
– ...O circo?
– Ah, isto.
Vanessa reprimiu um bocejo e apontou para o anúncio que estava olhando. Ao lado de uma ilustração de gêmeos siameses, uma mulher com uma cobra enrolada no pescoço e um macaco saltando através de um anel em chamas, letras em negrito proclamavam: “A Primeira Turnê por 47 Cidades”.
– O Circo Sitaliri está chegando. A primeira apresentação é hoje à noite.
Sitaliri. Os lábios de Theodore se curvaram num leve sorriso ao ouvir o nome ridículo. Soava vagamente oriental, provavelmente um nome inventado por um grupo de charlatães, aproveitando-se do recente aumento do interesse pelo Novo Continente dentro de Ingram.
Ostentando uma turnê por 47 cidades e se autodenominando os “primeiros”, sua presença em uma cidadezinha provinciana como Somerset dizia muito. Era, sem dúvida, um espetáculo barato, repleto de truques, amador demais para o público exigente da capital. Seu interesse se dissipou imediatamente, e ele dobrou a revista, colocando-a de volta sobre a mesa.
– River, vamos ver o circo juntos.
Sua mão hesitou por um instante antes de ele inclinar a cabeça, fingindo ignorância.
– Isso?
– Não parece divertido?
Seus olhos cinzentos, agora brilhantes e alertas, tinham um brilho travesso. Seu rosto, pálido de cansaço, estava iluminado de expectativa. Vanessa se espreguiçou, estendendo seus longos membros.
– Meu tio parece estar de bom humor hoje. Com sorte, talvez eu consiga sair.
– Você disse que não estava se sentindo bem.
– É por isso que preciso sair. Além disso, já faz um tempo que não vemos um circo.
Já faz um tempo.
Cada menção casual a uma memória compartilhada que eles não poderiam ter tido causava um leve desconforto, que logo se dissipava. Theodore fitou as longas mechas douradas de cabelo que se agarravam ao pescoço delicado dela. Ele estendeu a mão, como se quisesse afastar o calor que a envolvia.
