Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 51

Capítulo 51

Tradução: Gheo

Capítulo 51


– Se é uma mulher tão boa, por que você não se casa com ela, primo?

– A filha dos Morton e eu?

Sua voz carregava uma estranha autodepreciação. Theodore se afastou da janela para olhar para o primo. A habitual máscara afável de Edgar havia desaparecido, substituída por uma quietude incomum. No fim daquele olhar penetrante estava ela: Hayley Morton, a jovem de cabelos castanhos que ele havia elogiado com tanta facilidade.

– Pense bem. Um casamento desses agradaria à sua avó.

Desviando o olhar de Hayley, Edgar piscou, sugerindo a ideia com leveza. Se Theodore não tivesse notado aquele brilho sutil, poderia ter se deixado enganar pela aparente indiferença. Mas ter vislumbrado a profundidade que o primo costumava esconder tornava o deslize ainda mais revelador.

Theodore roçou o dorso dos dedos pelos lábios ressecados. Encontrar uma resposta que irritasse o primo e atingisse aquele coração sombrio seria fácil.

– Ela tem um pescoço lindo.

– ...Tenho certeza de que ela ficaria encantada em saber disso. Bem, então, entrarei em contato em breve.

A resposta veio quase instantaneamente. Edgar, com a expressão impecavelmente controlada, pegou sua mala e desceu da carruagem. Após alguns passos, virou-se com um aceno quase displicente antes de caminhar a passos largos em direção à mulher.

O que quer que ele dissesse, fazia-a sorrir radiante. Ela então se virou, segurando firmemente um guarda-sol na mão, e fez uma reverência graciosa em direção à carruagem que ele acabara de deixar, como se pudesse ver lá dentro. Como se soubesse que ele a observava pela janela. Parecia que o propósito de sua presença estivesse claro desde o início. A ambição brilhava em seus olhos recatados e baixos. Por um breve instante, ela lhe parecera Vanessa, mas agora, de frente, não tinha nada em comum com ela. Como ele pôde se enganar, mesmo que por um instante? Ele baixou a mão que segurava a cortina.

– Ah...

À medida que o crepúsculo se aprofundava, tornavam-se mais vívidas as imagens em sua mente, despertadas por aquele pescoço pálido tão semelhante ao de Vanessa. Theodore respirou fundo e devagar. Era como se o doce perfume dela ainda o envolvesse, criando, por vezes, a ilusão de que continuava em seus braços.

Seu rosto corado, seus movimentos delicados, seus soluços suaves... Uma composição tão bela que ele seria capaz de contemplar para sempre.

– Mais forte...

Uma voz distorcida sussurrou fracamente em sua memória. Na realidade, a maior parte do que Vanessa havia dito durante a intimidade deles eram súplicas para que ele diminuísse o ritmo e lhe desse um momento de descanso.

No entanto, a fantasia que se repetia em sua mente parecia tão real quanto a própria verdade. Consumida por um desejo incessante, ela implorava, suplicava e chorava, agarrando-se a ele com um abandono sedutor. Theodore exalou languidamente, fechando os olhos.

– Oh, Theodore... por favor...

Os braços delicados o envolveram com avidez, o calor perfumado se fez presente e lábios ousados pronunciaram seu nome. Theodore jogou a cabeça para trás, enquanto o pomo de Adão proeminente subia e descia em um ritmo lento. Um desejo avassalador pulsava em seu peito.

Aquela escolha impulsiva trouxera um prazer profundo. Theodore sentia que guardaria a memória daquele lugar e daquele instante com ela por anos, muito além do término do verão. Seria como uma cicatriz ou uma impressão digital cravada em seu ser, uma marca definitiva.

E a sensação não era nada desagradável.



Com o auge do verão, até mesmo as primeiras horas da manhã se tornavam insuportavelmente quentes. O tempo era frequentemente imprevisível. Um céu limpo se encobria à tarde, um nevoeiro denso surgia ao amanhecer e uma garoa leve muitas vezes se transformava em um aguaceiro.

Assim como as estações se transformavam, a vida brotava no jardim. Os pessegueiros cresciam e as urzes ganhavam volume, como se surgissem da noite para o dia. Nos galhos dos álamos, aves aquáticas de verão entoavam belas canções, e os lírios-do-vale, despertados pelo orvalho, cobriam o chão por onde quer que se caminhasse. Vanessa amava Somerset acima de tudo nessa época do ano.