Tradução: Emma
Capítulo 38
— Graças à amizade das nossas mães, nós três estamos juntos desde o berço. Todas as suas primeiras vezes foram minhas, e todas as minhas primeiras vezes foram suas.
A mão de Blair sobre a dela estava úmida, incômoda, desconfortável. Assim como as promessas desfeitas, assim como a amizade rasa das mães deles, que se dispersou com a morte.
A promessa de casar os filhos quando crescessem tinha sido tratada pior que um sapato gasto desde que o nome Somerset havia sido arrastado para a lama.
A marquesa de Winchester frequentemente olhava com desaprovação até mesmo para eles estarem juntos, como se se perguntasse o que uma jovem poderia ter aprendido crescendo sob a tutela de um tio tão notoriamente libertino. Como se estivesse olhando para uma mulher capaz de corromper o filho dela.
— Gostaria que pudéssemos continuar vivendo assim. Até tirar férias juntos, às vezes.
Enquanto Vanessa permanecia atordoada, com a mão na dele, Blair mordiscou de brincadeira a ponta do dedo dela. Um sopro morno se espalhou exatamente no ponto onde os lábios de River Ross a haviam tocado.
Sobressaltada por um estranho desconforto, ela puxou a mão para trás, e ele riu baixinho. Como se aquela reação inocente fosse exatamente o que ele desejava.
Rosalind franziu a testa diante do comportamento do irmão, como se enojada, mas logo recompôs a expressão. — Seja lá o que decidir, não precisa fazer isso agora mesmo. Apenas se case e vá para a universidade, como planejado. Isso vai te dar algum tempo. Pode adiar a vida de casada enquanto continuar seus estudos.
O problema era saber se o conde Lowden sequer permitiria que a esposa frequentasse a universidade. Claro, havia um problema mais prático.
— Sempre quis ir para a universidade, mas parece difícil agora. Preciso economizar para a matrícula.
— Matrícula? Está brincando?
— Por incrível que pareça, estou falando sério, Blair Winchester.
— Vai mesmo desistir da universidade por causa de dinheiro?
— Não disse que estava desistindo. Eventualmente eu vou...
— É a mesma coisa.
Depois de um momento de silêncio, Blair ergueu os olhos. — Se precisa de dinheiro, por que não procura um emprego decente? Governanta, escriturária, secretária... Algo do tipo. É mais estável do que publicar romances em capítulos.
— Blair, isso é coisa para quem realmente é da classe trabalhadora pobre. A situação da Vanessa é diferente.
Diante das palavras altivas de Rosalind, Vanessa fechou a boca. Suas opiniões sobre trabalho se alinhavam com as da maioria dos nobres de Ingram. Mesmo para um membro de uma família decaída, trabalhar para “ganhar dinheiro”, e não como passatempo, era considerado vergonhoso.
Os nobres, independentemente do título, deveriam ser aqueles que forneciam empregos, contratando pessoas, e não os que eram contratados e recebiam salário.
— Ela só quer alguma experiência social. Não é certo comparar a Vanessa com aqueles que trabalham para sobreviver. — Rosalind olhou com desdém para os garçons que se movimentavam com bandejas, depois se virou elegantemente para Vanessa. — Não é mesmo, Vanessa?
Errado. Na verdade, Vanessa ansiava justamente por aquelas oportunidades que eles tinham. Ainda assim, conseguiu esboçar um sorriso na hora certa e assentiu. — Claro.
Rosalind sorriu satisfeita e tomou uma grande colherada de sorvete. Vanessa fez o mesmo, depois tocou os lábios. Era estranho. O sorvete, que momentos antes estava tão doce, agora não tinha sabor algum.
Conforme a estação avançava, as chuvas se tornaram frequentes. Era a época, pouco antes do calor intenso do verão começar, em que pequenos botões de flores e frutinhas brotavam, exibindo sua vitalidade. Uma nova mudança havia chegado aos jardins da mansão de Gloucester.
O Bosque de Linus, contíguo ao jardim dos fundos, estava repleto de framboesas, damascos e pequenos pêssegos silvestres. Ameixas, flores de caqui e botões verde-claros de macieira-brava acrescentavam mais vivacidade à estação fresca.
Os funcionários da mansão de Gloucester abriram de par em par as janelas, que haviam ficado fechadas durante toda a primavera, para aproveitar plenamente aquela bela estação.
Era um dia excepcionalmente ensolarado, quase como se fosse pleno verão. As reformas externas, que vinham acontecendo desde a manhã, foram finalmente interrompidas, incapazes de resistir ao calor úmido do meio-dia.
Os operários e criados decidiram ir pescar e nadar no rio, e as criadas correram animadas até Vanessa, perguntando se poderiam adiar o trabalho da tarde por algumas horas.
— Isso seria possível, minha senhora?
Aquele desvio de rotina ocorreu apenas meio dia depois que o conde de Somerset havia partido para a capital com o mordomo. Rosalind ficou horrorizada com o comportamento delas, de só pedir a permissão da “senhora” quando queriam escapar de suas responsabilidades, mas Vanessa concordou de bom grado.
— Está bem. Só não fiquem fora até tarde demais.
— E o almoço? Estávamos pensando em fazer uns sanduíches simples.
— Peçam para embalarem alguns numa cesta e trazerem para cima. O suficiente para duas ou três pessoas, por favor.
— Por que não vem comigo e faz um almoço decente? Não vá pensar em fazer isso durar até o jantar também. — Rosalind, que estava se admirando no espelho enquanto experimentava um chapéu novo, franziu a testa e se virou. Vanessa deu de ombros.
— A Cece veio ver você e o Blair. Ela vai ficar incomodada se eu estiver lá.
— Ela é tão dedicada. Vindo até aqui só para te ver antes de embarcar.
— Ela gosta muito de vocês dois.
— Ela é boa demais para o Blair... Então, realmente não vai vir?
— Divirtam-se e me contem tudo quando voltarem.
Os preparativos de Rosalind se encerraram no instante em que ela escolheu um chapéu para combinar com o vestido. Depois de vê-la partir na carruagem, aturando sua ladainha de lembretes e despedidas disfarçados de advertências gentis, um silêncio profundo desceu sobre a casa.
Na verdade, o castelo inteiro estava estranhamente quieto. Do lacaio mais jovem às criadas de cozinha, todos tinham corrido animados até o rio. O olhar dela se deslocou do corredor vazio para os guardas que patrulhavam o perímetro do castelo. Ela fitou por um instante os rostos bronzeados pelo sol, sem saber ao certo o que procurava.
