Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 37

Capítulo 37

Tradução: Emma

Capítulo 37


— Aquela não é a senhorita Stanley?

A voz baixa de Rosalind fez Vanessa se virar sem jeito. Assim como Rosalind dissera, a mulher que entrava na cafeteria era a terceira filha da família Stanley.

Surpreendentemente, ela estava de braços dados com um rapaz de uniforme militar. Como se estivessem cientes dos olhares sobre eles, os dois se acomodaram numa mesa escondida no canto mais afastado.

Rosalind estendeu o braço com cuidado e puxou a divisória entre as mesas um pouco mais para perto.

— Reconhece o homem que está com ela?

— Pelos traços, parece que poderia ser um Bobart ou um Seymour.

— Mas o noivo da senhorita Stanley é Ethan Harley. Ouvi dizer que ele se alistou no exército.

— Definitivamente não é o Ethan. Ele está em Disen agora — retrucou Rosalind friamente, erguendo uma sobrancelha. Vanessa a encarou, um tanto surpresa. Achava que Rosalind tinha cortado todo contato com Ethan desde o noivado dele. Percebendo o olhar de Vanessa, Rosalind corou e acrescentou, na defensiva: — A gente troca cartas de vez em quando.

O riso escarnecido e alto de Blair fez a senhorita Stanley erguer os olhos do cardápio. Vanessa, quase pega olhando, ergueu rapidamente a bolsa, fingindo procurar algo para esconder o rosto. Como se percebesse que algo estava errado, a senhorita Stanley e seu acompanhante cancelaram o pedido e se levantaram, como se estivessem prestes a ir embora.

Eles chamaram rapidamente uma carruagem que esperava à beira da rua e desapareceram. Só então os três relaxaram os ombros. Blair espreguiçou os ombros travados, dizendo displicente: — Eu jamais esperaria isso da senhorita Stanley. Sempre achei que ela fosse tão comportada e correta.

Vanessa tocou gentilmente o braço de Rosalind, perdida em pensamentos. — Rosalind, não se envolva nos assuntos deles.

— Eu tenho que me envolver. Ele não vai acreditar até ver com os próprios olhos. Vai achar que estou a caluniando— respondeu Rosalind, sombria, fazendo Blair dar de ombros.

— Bem, não existe regra contra uma mulher se divertir um pouco antes do casamento. Duvido que a senhorita Stanley ou aquele homem estejam sérios. Pelas roupas dele, nem parece ser nobre.

— Mesmo assim, ser vista com um plebeu... — respondeu Rosalind, altiva, mordendo o lábio trêmulo. Ela não conseguiu se conter e acrescentou: — É repugnante.

— Se ela acabar grávida, a pobre senhorita Stanley vai ser a única arruinada — disse Blair casualmente, arrancando uma risada fria de Rosalind. — Blair, por mais que não goste dela, não vamos amaldiçoá-la desse jeito.

— Teve aquele escândalo há alguns anos. Pelo menos daquela vez foi com o noivo dela, e, felizmente, ele apressou o casamento. A noiva quase desceu o corredor com uma barriga visível.

Vanessa apertou os lábios. Mesmo sabendo que o comentário não era dirigido a ela, parecia um aviso pairando sobre sua cabeça.

Naquele momento, um garçom se aproximou e colocou taças de vidro com sorvete de limão diante de cada uma delas. Aliviada pela pausa momentânea naquela conversa desconfortável, Vanessa pegou rapidamente sua colher.

— Aliás, Vanessa — começou Rosalind, fazendo Vanessa se sobressaltar e erguer os olhos. — Isso vale para você também. Se realmente está planejando algo assim, abandone essa ideia imediatamente.

— ...O quê?

Rosalind continuou rapidamente, cortando Blair, que parecia irritado. — Se for fazer isso, é melhor fugir de vez. Se seu paradeiro for desconhecido, pelo menos há chance de as pessoas terem simpatia por você, pensando que foi vítima de um crime.

— Eu teria que deixar Ingram para viver assim. Não quero.

— Por causa dos túmulos dos seus pais?

— Você sabe o que eles significam para mim.

Rosalind suspirou baixinho. O apego de Vanessa à família era um hábito antigo, talvez já uma obsessão. Sem ninguém a quem dar seu afeto, ela se agarrava às memórias dos falecidos.

Vivendo como se estivesse morta, com um coração como o de uma freira que fez voto de guardar um santuário pelo resto da vida. Rosalind já sabia havia tempos que a morte dos pais tinha ferido profundamente Vanessa, mas não tinha percebido a extensão dessa devoção cega.

Rosalind estreitou os olhos, observando Vanessa se remexer como se tivesse sido flagrada cometendo um grave pecado. Talvez fosse um sentimento que ela nunca compreenderia por completo, mas imaginar a perda que sentiria se Blair se fosse lhe dava um vislumbre de entendimento.

— De qualquer forma, pense por outro ângulo. Como disse antes, você poderia ter um amante.

— Concordo, Vanessa. O casamento talvez não seja algo tão ruim assim, afinal — interveio Blair, como se já soubesse de tudo apesar de não ter ouvido nada. Ela deu um gole elegante no café e ergueu o queixo de um jeito maduro. — Basta cumprir os deveres mínimos exigidos. Não é mesmo?

Vanessa, que estava sentada impassível, de repente riu baixinho. — Rosalind, olha só o seu irmão. O herdeiro de Winchester falando essas bobagens.

— Não estou falando de assuntos familiares triviais. Estou falando dos nossos assuntos, Vanessa.

Vanessa riu sem ânimo, esfregando com o polegar uma gota d’água na superfície da taça de vidro. O ar morno tinha deixado tudo amornado. Blair estendeu a mão e traçou o dedo molhado dela.