Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 35

Capítulo 35

Tradução: Gheo

Capítulo 35


– Diga à vovó para não se preocupar e aproveitar a refeição.

– …O senhor já conheceu uma jovem com quem deseja se casar?

– Esse é o boato que está circulando? Que eu fugi para me casar por amor?

Theodore sorriu discretamente, ajustando o fone que segurava. Seus lábios, visíveis sob a aba do chapéu de palha, se curvaram num sorriso encantador. As mulheres que passeavam por perto cochichavam e lançavam olhares em sua direção.

Na verdade, não eram só elas. Todos na loja de conveniência fingiam desinteresse enquanto concentravam sua atenção nele. Seus esforços para se misturar usando roupas emprestadas e usadas estavam se mostrando inúteis.

– Os rumores sugerem que sim.

A voz que chegava pelo receptor era impecavelmente educada e suave. Refinada, mas carregada daquela sensação artificial de distinção social da qual ele já estava cansado nos círculos da capital.

Talvez fosse por isso que a vida no sul lhe parecia tão gratificante. A leve frivolidade, o pulsar vibrante do cotidiano e a curiosidade singela das pessoas em relação a um forasteiro contrastavam fortemente com a rigidez social da capital.

– Se for um mal-entendido, devo providenciar a publicação de uma retratação? Posso entrar em contato com os jornais imediatamente.

– Não. Está tudo bem. Deixe assim.

– …Devemos esperar preparativos para o casamento ainda este ano?

– Não, isso também não.

Uma risadinha discreta chamou a atenção de todos na loja, antes de se dissipar tão rapidamente quanto surgiu. Theodore colocou um cigarro apagado entre os lábios.

– Se houver algum plano relacionado a casamento, o senhor deve me informar com pelo menos seis meses de antecedência. Mesmo esse prazo é curto para preparar o casamento de um cavalheiro.

Theodore soltou uma breve risada ao ouvir as palavras do mordomo, sem saber ao certo se eram fruto de preocupação ou de expectativa.

– Sim, se surgirem planos.

– Há mais alguma instrução?

Ele estava prestes a encerrar a ligação quando seu olhar se desviou para a janela. Lá estava ela. Vanessa.

Ela estava sentada junto à fonte na praça, com os joelhos encolhidos e os cotovelos apoiados neles, parecendo tão jovem quanto qualquer garota da sua idade. Seus cabelos dourados, que caíam em cascata até a cintura, brilhavam suavemente sob o sol de verão.

Os curiosos olhos cinzentos de Vanessa ainda brilhavam com vida, mas suas bochechas e ombros pareciam visivelmente mais magros. Os rumores sobre sua recente doença pareciam ter algum fundamento. Theodore expirou lentamente.

– Mestre?

A voz de seu mordomo ecoou pelo telefone, incitando-o a responder. De volta ao presente, Theodore umedeceu os lábios com a mão livre.

– Um momento.

Como se a hora marcada tivesse chegado, Vanessa checou o relógio de bolso e se levantou abruptamente. Ela segurava uma pasta com firmeza. Uma fita branca desbotada enfeitava seus cabelos enquanto caminhava com passos firmes.

Ela olhava ao redor de vez em quando, como um gato vigiando seu território. Havia algo divertido e cativante no fato de ela nem desconfiar que era observada de longe. Ela desacelerou o passo até parar diante de um edifício. Depois de examinar cuidadosamente os arredores, entrou discretamente pela entrada pouco iluminada.

Theodore estreitou os olhos, examinando o prédio que a engolira. Velho, decadente e sórdido. A estrutura envelhecida, aparentemente uma relíquia do século anterior, não tinha sequer uma placa. O silêncio do lugar apenas reforçava a suspeita de que aquele prédio servia de fachada para negócios perigosos e clandestinos.

– Aconteceu alguma coisa?

Será que era mesmo motivo para preocupação? Afinal, era apenas a senhorita Vanessa, alguém que exibia uma fachada imaculada, como se fosse intocada pela sujeira do mundo, mas que ainda assim frequentava estabelecimentos tão suspeitos. Para piorar, parecia ter dispensado até mesmo sua habitual comitiva de criados.

– …

O que quer que ela estivesse escondendo não era da conta dele. Não eram amantes, nem compartilhavam segredos. Ele nem sequer sabia quem ela realmente era.

Então, mesmo que Vanessa estivesse realmente... desesperada o suficiente para comprar a empresa de um homem...

Theodore soltou uma risada oca.

– Eu não precisava de nada, mas agora preciso.

Um tom sutilmente mais agressivo surgiu em sua voz tranquila. Norman piscou, surpreso, e então respondeu prontamente.

– Qualquer coisa que o senhor precisar…

– Investigue o caso de Vanessa Siren Somerset.

– Vanessa… O senhor quer dizer a moça do condado de Somerset?

Foi uma decisão impulsiva, incomum para ele, o suficiente para surpreender Norman. Mesmo assim, Theodore prontamente confirmou.

– Dívidas, reputação na escola, com quem ela se associa, coisas desse tipo.

Agora ele estava genuinamente curioso, querendo saber que circunstâncias poderiam levar alguém a um desespero tão aparente.



– Então, nos vemos na próxima.

– Sim. Adeus.

Vanessa desceu as escadas, despedindo-se do homem com um aceno enérgico. Seus passos, inicialmente contidos, aceleraram ao sair do prédio.

Apesar de lhe faltar ar e de as bochechas corarem, ela não conseguia se livrar da sensação persistente de frio naquele prédio antigo.

Nunca fora um espaço confortável. O interior escuro, os corredores em ruínas, a umidade sutilmente desagradável no ar. E...

– É um pouco… monótono, não acha?

Vanessa diminuiu o passo ao se lembrar da voz de seu editor.

– Então, a nossa Miss Welsh encontrará um interesse amoroso prestativo?

– Um interesse amoroso? Mas esta história gira principalmente em torno da solução de um assassinato... Isso é realmente necessário?

– Senhorita Lawrence.