Tradução: Gheo
Capítulo 23
Vanessa o encarou, sem palavras. Claro, ela tinha muito a lhe dizer. Perguntas a fazer, curiosidades a satisfazer e mágoas a expressar. O problema era que simplesmente não sabia por onde começar. O céu estava excepcionalmente limpo, o jardim, repleto do aroma fresco da grama, parecia isolado do mundo, e o homem à sua frente… era deslumbrantemente bonito.
– Não, claro que não.
Vanessa forçou um sorriso, com os olhos arregalados. Virou-se bruscamente em direção aos roseirais, com seus passos deliberadamente rápidos, ou pelo menos tentou fazer parecer assim. Segurando o regador com firmeza, franziu o nariz.
– Não chore e nem olhe para ele.
Seus esforços para manter a compostura fracassaram em menos de meia hora, tudo graças a River Ross, que parecia completamente concentrado, alheio à sua presença.
Ela odiava a sensação de inferioridade e insignificância que sentia perto dele, e também odiava a situação que se encontrava. À espera de ser vendida. Via no contraste daquela mansão de fachada belíssima e jardins em ruínas o reflexo de seus próprios sentimentos. Para piorar, estava presa a um relacionamento onde toda a sua atenção se concentrava unicamente nele. Vanessa soltou um suspiro profundo, sentindo-se ridícula e patética.
– Dália!
O grito dramático fez Theodore semicerrar os olhos e buscar a origem do som. Deixando as mudas que plantava de lado, viu um cachorrinho cruzar o jardim latindo animadamente. Logo atrás, Vanessa ergueu a criaturinha branca e fofa no colo, exibindo um sorriso raro e radiante.
O apelido carinhoso, Dália, despertou uma lembrança em Theodore. Era o nome dado à vira-lata moribunda que as empregadas haviam acolhido dias antes. Ele a vira entrar sorrateiramente na cozinha para alimentá-la várias vezes e, pelo visto, Vanessa havia decidido se tornar sua dona oficial. Em resposta, a criaturinha lambeu lealmente seu rosto e suas mãos.
– Isso faz cócegas… O que você está fazendo aqui? Onde está Mary?
Vanessa estava, surpreendentemente, tentando conversar com a cachorrinha. Theodore observava seu perfil expressivo enquanto esvaziava, sem pressa, a garrafa de água morna.
Bastante persistente e diligente.
Essa foi a conclusão dele depois de observar Vanessa ao longo do dia. Inicialmente, ela estava distraída e desajeitada, cometendo erros constantemente. Mas, em certo momento, tomou a iniciativa, vasculhando os roseirais, cortando as folhas com manchas pretas, aplicando tratamentos, cavando a terra e espalhando meticulosamente agulhas de pinheiro secas sob os arbustos. Ela parecia alheia ao fato de estar coberta de poeira da cabeça aos pés. Era uma trabalhadora muito melhor do que o gato preguiçoso do quintal.
– Olha só essa barriguinha. Dália, o que você andou comendo?
Seu toque, enquanto acariciava delicadamente a barriga rechonchuda da cachorrinha, era terno. A luz do sol de maio, filtrando-se pelos galhos viçosos, iluminava seus cabelos dourados. A cada farfalhar das folhas na brisa, sombras dançavam em sua testa, nariz, lábios e nos pequenos lóbulos das orelhas.
Theodore foi apagando lentamente o sorriso educado que ostentava. O desejo que o consumia sempre que olhava para Vanessa tornara-se incômodo. Como água morna na boca, que não se consegue engolir nem cuspir.
Se ele a quisesse, poderia tê-la. Eles haviam feito esse acordo, e a escolha era justa para ambos. Não havia espaço para complicações, e mesmo que houvesse, era capaz de lidar com elas.
Então, por quê? Por que eu estou hesitando?
Ele se questionava repetidamente, mas o motivo permanecia obscuro. Afinal, foi uma decisão impulsiva desde o início. Ele desviou o olhar de Vanessa deliberadamente, como se estivesse afastando os pensamentos perturbadores. Foi nesse instante que a tagarelice constante dela mudou abruptamente.
– Ri, River…
Ele baixou a mão que protegia seus olhos do sol e viu o rosto de Vanessa, subitamente pálido. Era como se o momento alegre com o cachorrinho tivesse sido uma completa farsa.
– O que foi?
– Nas minhas c-costas…
– Fique calma. Apenas respire.
Vanessa assentiu em resposta, como se estivesse se esforçando ao máximo para seguir as instruções dele. Mas parecia um esforço inútil. O tremor não diminuía.
Após uma tentativa falha de esboçar um sorriso tranquilizador, Vanessa, percebendo a inutilidade da sua ação, sussurrou, com o rosto pálido:
– Uma aranha... Acho que uma aranha... rastejou para dentro das minhas roupas.
