Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 157

Capítulo 157

Tradução: Gheo

Capítulo 157


Vanessa pousou calmamente o copo de água do qual havia tomado um gole. O homem sentado à sua frente, “River Ross”, parecia-lhe um completo estranho.

Não era apenas o fato de que tudo o que ele vestia era de uma qualidade muito superior ao salário de um mero subordinado oficial da Marinha. Era a atmosfera que parecia impregnar o ar. Os olhos azuis a observando como se estivessem à distância, o corpo alto e ereto envolto em um terno formal, a fez se encolher ainda mais do que o normal, sob os olhares nervosos da equipe que os acompanhava.

Como ela pôde confundir um homem assim com um marinheiro comum? Não importava quão surrada fosse a camisa que ele vestia, não importava se ele estivesse coberto de poeira ou se estivesse sentado, encolhido num sofá gasto num armazém, desenhando com carvão…

– …….

Só de pensar naqueles dias, ela se sentia sufocada. O último resquício de esperança ao qual se agarrava afundou melancolicamente. Agora, não havia mais desculpas para se esconder. Era um momento que ela precisava aceitar.

Aquele homem era completamente diferente do “River Ross” do jardim de rosas no verão. E agora que ela sabia a verdade, jamais poderia voltar àqueles dias. Theodore Liam Battenberg. Esse era o nome do estranho, do Duque. Como filha de um conde decadente, ela não tinha como se envolver com ele, nem motivo para isso.

Vanessa rapidamente organizou seus pensamentos antes que pudessem transparecer em seu rosto. Ela forçou seus lábios em um sorriso suave e firme.

– Você não vai perguntar por que vim te procurar?

– Eu gostaria de perguntar, mas...

– Mas?

– Neste momento, só quero olhar para o seu rosto por um instante.

Ele a encarou fixamente, um leve sorriso iluminando seus olhos. Seu olhar percorreu lentamente as curvas de seu rosto, sua testa, a ponte do nariz, seus lábios, seu maxilar e então mais abaixo… Como se ele estivesse realmente tentando gravar suas feições em sua memória.

Como se ele já soubesse o que ela ia exigir.

Sentiu um frio na espinha. Detestava pensar assim, que ele ainda pudesse ter arrependimentos ou que pudesse se arrepender do engano que mantivera. Vanessa mordeu o lábio novamente, num lugar que já a incomodara várias vezes. No fim, foi escolha dele não falar até que as coisas chegassem a esse ponto.

– Tenho a impressão de que sei por que você veio de tão longe.

O homem suspirou, com os olhos baixos fixos no lábio da mulher, onde uma gota de sangue se formara.

– Você parece um pouco cansada, Vanessa. Deveria subir e descansar. Seja lá o que for que tenhamos que conversar, vamos fazer isso amanhã.

– Estou bem.

– Não seja teimosa.

– Vim aqui hoje para perguntar sobre seus pensamentos a respeito do futuro, River Ross. Estou curiosa para saber que tipo de futuro sustentável você tem em mente para nós.

– O futuro.

Um leve sorriso brincava em seus lábios. O significado daquele sorriso era incerto. Seria um suspiro, uma expectativa ou talvez irritação? O homem, vestido com roupas condizentes com a cinzenta cidade de Linden, parecia completamente deslocado.

Vanessa ficou ansiosa novamente e, sem nenhum propósito, amassou o tecido da saia sobre os joelhos.

– O contrato está prestes a terminar. Queria esclarecer o princípio de que não interferiremos na vida um do outro depois disso.

– É muita gentileza da sua parte.

– Como você disse, nós “gostávamos da companhia um do outro”. Agora, eu quero ter um filho.

– …Uma criança?

– Você disse que precisava de uma aposentadoria. Então, eu estava pensando… o que você acharia se tivéssemos um filho?

Ela tentou não tremer ao encontrar seus olhos azuis. O Duque recostou-se lentamente na cadeira, roçando os lábios com a ponta dos dedos. Permaneceu em silêncio, o olhar frio e penetrante.

Seguiu-se um silêncio sepulcral, como o de uma poça estagnada. Por fim, uma voz estranhamente suave dissipou a dissonância.

– Estou pensando, Vanessa. No porquê de você estar dizendo uma coisa dessas.

– …….

– Em primeiro lugar, trata-se de uma hipótese desnecessária. Você tem tomado seu Trinyl regularmente.

– …….

– Imagino que seja por isso que você veio de tão longe para falar sobre o fim do contrato. Porque você viu aquele remédio.

Ele prosseguiu com naturalidade, como se aquilo fosse algo inevitável. Como se estivesse preparado para isso desde o momento em que lhe entregou a chave do armazém. Talvez nem fosse um grande segredo para ele.

Ou talvez ele não achasse que fosse uma farsa tão grande. Ela mordeu os lábios pálidos.

– E se, por algum milagre, você tivesse um filho, teríamos que apressar o casamento. Nesse processo, inevitavelmente, surgiriam escândalos desnecessários.

– …….

– Depois disso, você seria atormentada pelo resto da vida por fofocas questionando a paternidade da criança por causa do momento do nascimento. E... nós dois teríamos que abrir mão das vantagens que poderíamos ter obtido por meio de nossos respectivos casamentos.

As pessoas acreditam que a lealdade ao Estado pode ser comprovada por um simples casamento. Um breve lampejo de cansaço cruzou o rosto do homem enquanto ele falava friamente.

– Depois de toda essa dificuldade e exaustão, aos poucos nos tornaríamos um casal que se sufoca mutuamente. É isso que é o casamento.

Ele suspirou como se estivesse exausto só de pensar nisso, e um sorriso torto surgiu em seus lábios.

– Eu acreditava que nossas visões sobre o casamento eram bastante semelhantes, Vanessa Siren Somerset. Ambos concordávamos que se trata de uma instituição sem sentido.

– …….

– E estou extremamente satisfeito com o nosso relacionamento atual.

Com um suspiro baixo, o olhar do Duque suavizou-se ligeiramente. Por um instante, ele a fez lembrar daquele homem no jardim de verão.

– Eu me sinto confortável quando estou com você. Sinto que posso respirar. Eu me perguntava se também me sentiria assim em Linden e, surpreendentemente, me sinto agora.

– …….

– Vamos subir.

Vanessa olhou para ele com os olhos arregalados.

– Não vim aqui com esse propósito. Além disso, nós…

– Eu sei, Vanessa. Provavelmente você pretendia seguir fielmente algum costume antigo sobre demonstrar cortesia ao iniciar ou terminar um relacionamento.

– …….

– Ainda há muito mais a dizer, e o saguão do hotel é um lugar onde os repórteres podem entrar e sair facilmente. Mas não vou impedi-los se precisarem de mais escândalo.

Ela olhou em volta, ansiosa. Ele se levantou da cadeira, contornou a longa mesa e parou ao lado dela.

– Temos um contrato e tenho sido fiel a essa relação contratual até agora. De acordo com o acordo, acredito que ainda somos amantes.

– …Nós concordamos em terminar o relacionamento assim que o verão acabasse. Em não interferir na vida um do outro.

– Mas ainda é verão, Vanessa.

Suas palavras não passavam de sofismas. Vanessa cerrou os dentes e olhou para a mão que ele lhe estendia. O homem de rosto polido e elegante lhe parecia dolorosamente estranho.

O hotel estranho, os rostos desconhecidos, os olhares ofegantes que os observavam furtivamente... Todo aquele ambiente desconhecido a pressionava.

– Venha.

Vanessa pegou a mão do Duque como se fosse desistir e se levantou. Assim que cambaleou um pouco, quando suas pernas perderam a força, ele, instintivamente, passou o braço em volta de sua cintura.

Enquanto subiam de elevador, ele não soltou a mão dela nem por um instante. Como se ela pudesse fugir no segundo em que ele a soltasse. Talvez até um pouco desesperadamente…

Deve ser apenas imaginação minha.

Assim que as portas se abriram, um amplo salão se revelou. Um estranho silêncio se manteve até que as portas se fecharam atrás deles e o elevador voltou a funcionar.

Com elegância, ele conduziu Vanessa para dentro. A luz do fim da tarde, entrando pelas grandes janelas, banhava as mesas e os sofás antigos. Muito lentamente, Vanessa soltou a mão do aperto firme do Duque.

– Como eu disse, preciso de um filho. E entendo perfeitamente que você... tenha uma visão negativa sobre crianças.

Ela mal conseguiu respirar fundo, com a voz trêmula. Já havia uma criança em seu ventre. Uma criança cuja existência hipotética o pai biológico sequer considerava bem-vinda, descrevendo-a como algo parecido com um fardo.

Portanto, só lhe restava uma escolha. A menos que pretendesse abandonar Ingram completamente, ela precisava terminar seu relacionamento com o Duque o mais rápido e discretamente possível. Pelo menos antes que ele percebesse a existência da criança.

Vanessa ergueu o olhar firme.

– Só tenho uma coisa a dizer. Quero terminar nosso acordo antes do previsto. Quero ter um filho o mais rápido possível.

– Você quer ter um filho?

– Claro, não importa se for com outro homem.

– …Você vai ter um filho com outro homem?

Por um instante, sua voz soou muito fria.

– Depois de terminar comigo aqui?

Um leve riso acompanhou suas próximas palavras. Quase soou como uma pergunta, indagando se ela ousaria morar em Ingram depois de ter feito uma coisa dessas. Vanessa cerrou os dentes.

– Nosso acordo termina no próximo mês. River Ros—

– Theodore.

Ela prendeu a respiração por um instante com a leve correção dele.