Tradução: Gheo
Capítulo 155
– Estou planejando ir para Linden.
Sua voz era extremamente elegante. Com o anúncio repentino, os talheres que raspavam avidamente os últimos vestígios de molho do prato pararam abruptamente. Wyatt olhou para a sobrinha de cima a baixo, com o rosto contorcido como se duvidasse do que ouvia.
– …O que você disse?
– Eu disse que tinha alguns assuntos a tratar em Linden.
Apesar da reação um tanto brusca dele, Vanessa respondeu casualmente, pegou seu copo d’água e tomou um gole lento. Antes que seu tio pudesse interpretar sua atitude como um sinal de desafio, ela continuou.
– Estava pensando em fazer uma visita ao Duque.
Sua respiração tremeu levemente ao pronunciar a palavra. Felizmente, Wyatt não pareceu notar. Em vez disso, pareceu sentir um lampejo de raiva ao perceber que sua sobrinha estava expressando uma opinião própria, apenas para ser contida pelo peso do título “Duque”. A mão que apertava os talheres com força finalmente relaxou.
– …….
Wyatt permaneceu em silêncio por um longo tempo, semicerrando os olhos. Ele nem sequer fez as perguntas clichês sobre como ou por que ela encontraria o Duque.
Vanessa cortou um pedaço pequeno da truta que estava em seu prato e falou novamente.
– Antes que seja tarde demais.
– …Tarde demais?
– As férias de verão da Marinha vão acabar em breve. Se eu pegar um trem na estação de Bath amanhã de manhã, chegarei em Linden à noite. Vou levar a Mary comigo, então não precisa se preocupar com nada. Isso, claro, se o senhor permitir, tio.
Mesmo com sua longa explicação, ela pôde ver sua expressão feroz suavizar ao mencionar a permissão. Ele parecia satisfeito, provavelmente vendo isso como resultado de anos dedicados a garantir que ela nem sequer sonhasse em se rebelar.
Wyatt batucava os dedos na mesa — tap, tap — como se estivesse ponderando as opções. Logo, tendo terminado seus cálculos mentais, assentiu com uma expressão muito mais relaxada.
– Por que pegar um trem? Eu deixo você usar o carro, então vá com ele. Mary precisa ajudar o mordomo, então é melhor você levar outra empregada. Se houver qualquer mudança, avise-me por telefone.
Vanessa encarou Wyatt, que respondia com indiferença, com os olhos calmos. Ver seu tio não achar nada de estranho na situação fez com que uma parte de sua mente se tornasse fria novamente.
– Agradeço a sua atenção.
– Em troca, escreverei uma carta para você entregar ao Duque. É o momento perfeito, já que ele não tem respondido às minhas mensagens ultimamente. Quando você pretende partir?
– Pretendo partir imediatamente após a refeição.
– Harold!
Ao som do sino de prata, o mordomo, que esperava do lado de fora da porta, entrou.
– Preparem o carro imediatamente. E um motorista também.
Vanessa sorriu para Wyatt e agradeceu educadamente. Em seguida, usando a desculpa de que precisava se preparar para a viagem, pediu para se retirar e saiu apressadamente da mesa.
No instante em que entrou no corredor e percebeu que não havia ninguém, a náusea que vinha reprimindo a invadiu. Seus lábios frios tremeram. Vanessa mal conseguiu controlar a respiração ofegante enquanto se agarrava ao corrimão da escada. Uma sensação de desilusão com a situação a invadiu imediatamente, mas ela se obrigou a suportá-la.
– É um prazer conhecê-la, senhorita. Meu nome é Emily.
A empregada que substituiu Mary era uma menina tão magra e frágil que parecia ter apenas quatorze anos. Vanessa notou a sujeira sob as unhas da garota, que não havia sido completamente removida. Normalmente, as recém-contratadas eram mais leais ao seu tio.
Ao que tudo indicava, o tio dela havia decidido que a vigilância de Mary já não era suficiente.
– A buzina está tocando. Parece que tudo já está pronto para a partida.
A pedido da empregada, Vanessa pegou a pequena bolsa que havia preparado e desceu as escadas. O carro não era o modelo antigo de sempre, mas um novo, comprado recentemente. Só havia um motivo para ele oferecer aquilo tão prontamente.
É pelo benefício do Duque. Ele quer me apresentar de uma forma atraente para aumentar meu preço de qualquer maneira.
Era uma avaliação cínica, mas uma verdade inegável. Vanessa recebeu a carta de seu tio e entrou no carro. Logo, o veículo começou a se mover suavemente.
A empregada começou a cochilar quando saíram de Bath, e o motorista, Alman, era um homem naturalmente taciturno. Graças a isso, ela teve bastante tempo para organizar os pensamentos que vinha tentando reprimir. A cor foi sumindo lentamente de seus lábios, que até então sustentavam um sorriso forçado.
Será que meu tio sabia desde o início?
Provavelmente sim. A menos que tivesse algum tipo de acordo desde o início, não fazia sentido um homem tão proeminente quanto o Duque ficar em Gloucester. Se esse fosse o caso, então, naturalmente, esse contrato devia ser o preço que ela pagou...
Vanessa soltou uma risada seca. Aquilo era uma ideia absurda. Para começar, foi ela quem propôs tal relacionamento a River Ross. Por mais calculista que fosse seu tio, ele não poderia ter envolvido o Duque nisso com tais intenções. Além disso, um homem que se humilhava até mesmo diante dos Winchesters jamais teria permitido que um duque se hospedasse naquele armazém dilapidado se soubesse...
Será possível?
A respiração ficou presa na garganta diante de uma possibilidade repentina. Teria seu tio descoberto o parentesco entre eles e usado isso para chantagear o Duque? Ou será que o Duque estava apenas envolvido na situação? Era uma hipótese bastante provável. Seu rosto, refletido na janela do carro, estava agora extremamente pálido, com uma aparência abatida.
No fim das contas, não há como saber por enquanto.
Onde as coisas deram errado, ou se tudo aquilo foi realmente um mal-entendido, nada poderia ser confirmado até que ela ouvisse a história completa do próprio homem. O Sr. Ross, o jardineiro, devia ter ficado no meio de tudo, e aquele subordinado…
Talvez aquele homem seja o verdadeiro River Ross.
Ela suspirou, tentando repassar a vaga impressão do homem em sua memória. Se nada era certo, então adiar qualquer julgamento era a melhor opção por enquanto. Deixar-se levar pela emoção só atrapalhava as escolhas sensatas. Assim, mantendo suas emoções distantes da situação…
– Então, Theo. Quando você decidiu usar esse nome?
– Há um tempo.
Desapegada? Ela soltou uma risada oca. Pensando bem, houve momentos em que ele insinuou sua identidade. Ele devia achar que ela não perceberia, nem mesmo naquela época. Que ridícula ela devia parecer, apaixonada perdidamente por ele sem saber de nada.
Talvez fosse uma expectativa vã de que o homem que a enganara durante todo o verão confessasse finalmente a verdade agora.
Mesmo que suas expectativas tivessem sido frustradas, ela ao menos precisava de tempo para terminar o relacionamento de forma adequada e digna. Contanto que não abandonasse Ingram. Contanto que ambos pretendessem viver como membros da sociedade, mantendo-se em seus respectivos papéis.
– Chegamos, senhorita.
Após um dia e meio de viagem, o carro parou em frente a um grande hotel em Linden. Ela encarou o prédio, que parecia ser o ápice do capitalismo, com olhos serenos. O Ritz. Era o mesmo nome que River Ross havia mencionado de passagem.
Embora estivesse exausta a ponto de não conseguir mover um dedo, Vanessa saiu do carro sem demonstrar qualquer sinal de cansaço. Ela recuperou a coragem, que havia vacilado diversas vezes durante a viagem.
– Esperem aqui, vocês dois. Não vou demorar.
Ela recusou educadamente a oferta do mensageiro de carregar sua pequena bolsa e dirigiu-se diretamente à recepção. Um homem de traje formal a cumprimentou com um sorriso radiante.
– Boa noite. Em que posso ajudar?
– Estou procurando alguém. Ouvi dizer que ele estava hospedado aqui da última vez que tivemos contato.
Um lampejo de preocupação e inquietação cruzou o rosto impecável do homem. Ele se recompôs rapidamente e pegou uma caneta e um papel.
– Se você me fornecer uma descrição e um nome, verei se posso ajudá-la.
– A pessoa que procuro atende pelo nome de “River Ross”. Ele tem cabelo preto, olhos azuis, é alto e serve na Marinha. Meu nome é Vanessa.
– …….
– Por favor, diga isso ao Duque de Battenberg. Diga a ele que uma mulher veio em busca urgente de River Ross.
A assinatura feita à mão nos documentos revisados foi decisiva. O brilho alaranjado da lareira tremia na face elegante do homem, intensificando-se e apagando-se à medida que as brasas se apagava.
Uma preocupação ansiosa nublava os olhos do velho mordomo enquanto ele observava seu patrão, que estava imerso no trabalho havia dias, sem dormir direito. Como se pressentisse aquele olhar, o jovem duque ergueu a cabeça lentamente.
– Parece que você tem algo a me dizer, Norman.
