Tradução: Emma
Capítulo 154
Vanessa avançou para o papel como se estivesse possuída. Um leve senso de urgência dizia que ela já havia demorado tempo demais e que alguém poderia invadir o escritório a qualquer momento, mas não podia simplesmente ignorar aquilo. Theodore Liam Battenberg. Era a assinatura do próprio lendário Duque.
O que diabos aquilo fazia ali? E aquela caligrafia…
— Se é Theo, então… Theodore?
Os ombros de Vanessa tremeram diante do lampejo súbito de memória. Por que agora? Por que, de todos os momentos, aquele dia voltará a ela?
Sua respiração engatou, tremendo violentamente. Forçando-se a manter o equilíbrio, começou a ler o texto do topo. Sua mente estava uma bagunça tal que levou três vezes mais tempo do que o normal apenas para processar uma única frase.
À medida que folheava as páginas, uma tempestade de agitação ergueu-se em seus olhos cinzentos. Aquilo era um tipo de contrato de investimento. Ao mesmo tempo, parecia a evidência do escândalo que fez o mundo alvoroçar-se há alguns dias. Evidência. Algo definitivo que, se divulgado à imprensa, marcaria o escândalo como verdade absoluta.
— Meu Deus…
Um compromisso de investimento de uma escala estarrecedora como nunca vira antes; uma concessão generosa de ações de comissão de apostas em troca da terra onde o hipódromo seria construído; traços de seu tio pegando dinheiro emprestado com vários credores privados usando aquele contrato como garantia; e uma longa série de documentos de hipoteca anexados logo abaixo.
E então, de volta ao rodapé da primeira página.
Theodore Liam Battenberg
Naquele momento, Vanessa involuntariamente amassou o papel em seu punho. O que estava vendo era real? Ou estava possuída por alguma ilusão terrível? Seu coração batia tão rápido que ela se sentia tonta.
Às vezes, certas imaginações cresciam em tamanho rápido demais. Usualmente, eram pensamentos mórbidos — negativos e descolados da realidade. Sim, aquilo não passava de uma ilusão.
Ela só o vira assinar algo uma única vez — não, duas. Memórias não são evidências. Memórias são facilmente distorcidas. O “Theo” rabiscado apressadamente no bloco de notas do oficial na noite do circo… Aquilo sozinho não podia provar nada…
— Ah…
Vanessa soltou um arfar entrecortado e afundou devagar no chão, esmagada por seus próprios pensamentos. Um sentimento insuportável de pavor surgiu dentro dela. Talvez a caligrafia que vira antes fosse parecida com esta. Ou talvez sua memória estivesse inteiramente errada.
Encarando o vazio, ela subitamente desatou em uma risada afiada e quebradiça. Era impossível. Não podia ser.
“É River Ross. Meu amigo de infância. Aquele garoto gentil e bondoso.”
Há quanto tempo se conheciam? Mesmo que não se encontrassem com frequência, era uma conexão de uma vida inteira. Não havia como ela confundir “River Ross” com outro homem. Seus olhos obstinadamente erguidos começaram a vacilar.
…Mas como era o River Ross daqueles dias? Cabelo preto, olhos azuis… Não, não era isso. O cabelo dele era um preto que pendia para o castanho? Os olhos dele eram de um azul-celeste mais claro? Por outro lado, isso não importava de fato. A coloração das pessoas mudava ligeiramente à medida que cresciam.
Na verdade, todas as suas memórias daquela época eram turvas. Não eram vívidas; era como se tivessem sido pintadas por cima. Era difícil recordar seus traços em detalhes, quanto mais imaginar como ele seria quando adulto. Tudo o que lembrava era de sua promessa de visitá-la no verão seguinte. E essa promessa ficará sem ser cumprida por um longo tempo.
Até River Ross retornar. Para o Jardim das Rosas neste verão, e o seu…
O fluxo fluido de seus pensamentos partiu-se. Uma possibilidade subitamente lhe ocorreu. Uma possibilidade que poderia apagar aquela suspeita absurda de uma vez por todas.
Vanessa ergueu-se de onde desabara como alguém em transe. Seu rosto pálido e sem sangue adquiriu um rubor anormal de esperança. Apressou-se em retornar o cofre ao seu estado original e reuniu os documentos necessários. Não se esqueceu de deixar a chave no local combinado.
— Senhorita?
Uma criada sobressaltada chamou-a por trás ao vê-la afastar-se às pressas, mas Vanessa não estava em estado de espírito para responder. Correu direto escada abaixo e disparou pelo caminho através do jardim dos fundos.
O caminho estava escorregadio pela chuva da noite anterior. Os arbustos úmidos encharcaram a barra de sua saia, e o tecido molhado enroscava-se desajeitadamente em seus tornozelos. Galhos crescidos ocasionalmente açoitavam suas panturrilhas. Apesar disso, Vanessa não hesitou nem vacilou por um único segundo.
Ofegante, cruzou o portão do Jardim das Rosas e parou diante do galpão escurecido. A porta estava firmemente trancada, mas ela já sabia onde a chave estava. A caixa de chaves. Ficando na ponta dos pés, Vanessa abriu a caixa e tateou o interior até encontrar a chave chata.
Por um segundo fugaz, hesitou diante do pensamento de invadir um espaço cujo dono estava ausente. Sentiu uma pontada de culpa por tocar nos pertences de outra pessoa. Ridiculamente, fora uma memória que dissipará essa hesitação.
“Não fique aqui fora assim. De agora em diante, espere lá dentro. Mesmo no verão, a temperatura cai antes do nascer do sol.”
“…E se eu quebrar algo importante seu?”
“O que quer que esteja lá dentro, você pode dispor como quiser.”
Com aquela absolvição, sua mão encaixou a chave na fechadura. Logo, a porta abriu-se com um rangido. No momento em que deu alguns passos para dentro, lágrimas sentimentais pareceram prontas para transbordar.
O aroma nostálgico que preenchia o cômodo. Os traços da presença dele.
Ela ergueu seus olhos marejados e examinou desesperadamente o interior do galpão. A primeira coisa que viu foi a bagagem que ele deixou para trás. A bolsa grande ainda ocupava um canto do galpão como se pertencesse àquele lugar, e sobre a escrivaninha estavam uma bússola antiga, tinta, uma caneta-tinteiro de alto padrão e diários de couro espesso que pareciam diários de bordo.
Aqueles eram itens que “River Ross” sempre mantinha por perto e usava. Era estranho que alguém que ficaria longe daquele lugar por dez dias não tivesse levado nenhum deles. Era como se ele não estivesse em Linden, mas pretendesse ficar naquele jardim para sempre. Como se pudesse abrir aquela porta e entrar a qualquer momento. Como se pretendesse retornar ali a qualquer instante.
Isso é um sentimentalismo inútil.
Ela murmurou friamente para si mesma, esmagando o tremor em seu coração. Agora não era o momento para se entregar a tais sentimentos. Nem que fosse pelo bem da honra dele. River Ross não era um enganador. Mesmo que todos os outros no mundo a enganassem, ele não o faria.
Vanessa desamassou o contrato dobrado, colocou-o sobre a escrivaninha e abriu uma gaveta. Uma culpa digna de uma senhorita inflamou-se brevemente diante do pensamento de invadir o armário privado de alguém, mas ela a suprimiu.
Apenas uma vez.
Apenas uma vez, “River Ross” deixará sua assinatura em um desenho. Se pudesse encontrar o caderno de esboços que ele usava e compará-lo com aquela assinatura, tudo se tornaria claro.
Fala, comportamento e o passado poderiam ser fabricados se a pessoa estivesse consciente deles, mas o subconsciente não mente. Além disso, se houvesse uma pessoa capaz de forjar até mesmo a caligrafia que usava habitualmente, ela seria uma de duas coisas.
Uma mentirosa nata, ou alguém que pretendia enganar os outros com absoluta resolução. Ela acreditava que River Ross não era nenhum dos dois.
Sua ansiedade cresceu quando o caderno de esboços, que costumava ficar no mesmo lugar, não foi encontrado em parte alguma. Ele o levará? Ela procurou na mesa de cabeceira ao lado da cama, debaixo da cama e até nos armários da cozinha. Sua mão roçou em algo na prateleira mais alta. Quando ela o impulsionou para a frente com as pontas dos dedos, o objeto rolou para fora. Era um frasco de vidro de cerca de metade do tamanho de sua palma.
O que é isto?
Seguindo uma premonição, ela ergueu o frasco de vidro contra a luz do sol. Dentro havia pílulas refinadas. Não precisava deduzir o que eram. Os ingredientes estavam gentilmente rotulados na etiqueta de papel presa ao frasco.
Trinil. Um ingrediente contraceptivo tomado por homens para evitar gerar filhos ilegítimos.
Eu não preciso de filhos. Meu corpo nem sequer pode produzi-los.
Vanessa agarrou a borda da escrivaninha, arfando em busca de ar. Desabou, incapaz de combater a onda de náusea.
A sensação de que algo estava errado, que ela se esforçava tanto para ignorar, ruiu sobre ela como uma onda gigante. Cada objeto colocado descuidadamente no cômodo agora adquiria um significado completamente diferente. Perfume da Buford Co., uma caixa de charutos da Millon Co., um relógio de pulso da Largo Co.…
Aquelas mercadorias de luxo reluzentes que quantia alguma de dinheiro poderia comprar sem o prestígio necessário para respaldá-las.
O som de algo se despedaçando ecoou em seus ouvidos. Era o som de um véu fino — aquele que a cegara, aquele que ela mesma perceberá, mas que desesperadamente quisera acreditar — estilhaçando-se em mil pedaços.
